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Bolsonaro é assustador, afirma filósofo americano especialista em fascismo

Jason Stanley lembra que Bolsonaro diz que "você não é um policial se não matar ninguém," por exemplo.

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O filósofo americano Jason Stanley, professor da Universidade de Yale, afirma que o candidato a presidência Jair Bolsonaro usa táticas fascistas como Donald Trump e que a única diferença entre os dois é que o brasileiro é mais adepto à violência. Especialista em ‘fascismo’, o filósofo diz que a única realidade que o fascista vê é a sua própria e que o que melhor caracteriza o fascismo é sua oposição à justiça e à verdade.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Jason Stanley comenta ponto a ponto sobre o ‘DNA’ do fascismo e sobre como esse sentimento tem aflorado mundo afora como resposta a crises de identidade, da economia e da própria política.

Sobre a relação do fascismo com a propaganda, ele diz: “acho que Platão, em ‘A República’, está respondendo a algo similar ao fascismo quando diz que é “tudo se trata de poder”. O fascismo moderno envolve outros elementos, como nacionalismo, mas o cerne ainda é aquele a que Platão se refere, a noção de que tudo é poder e força. A verdade e o conhecimento são fraquezas”.

Stanley propõe, então, uma definição de fascismo: “é uma ideologia baseada no poder que coloca o poder como oposto à verdade e à justiça. É uma ideologia baseada em hierarquia, onde um grupo racial é dominante, melhor que outro. Poder e lealdade são os ingredientes principais. Qualquer um que não seja devotado ao líder, que não seja um dos apoiadores, é criminoso. Trata ainda de machismo e dominação. E o líder do país deve ser a pessoa que vai resolver todos os problemas sozinho. A democracia é uma fraqueza. Líderes fascistas gostam de se vangloriar sobre sua força ao falar de violência contra adversários políticos”.

E traça algumas características do movimento também associado ao nazismo: “é duramente patriarcal —os nazistas foram o governo mais antifeminista do século 20; as mulheres arianas não deveriam trabalhar, deveriam ficar em casa e ter filhos. Fascistas também são sempre contra os gays, pois a homossexualidade representa grande ameaça à masculinidade. E há essa retórica machista violenta, a representação de que o outro se opõe às políticas da lei e da ordem. É a justiça vigilante. O adversário e o inimigo são perseguidos, caçados”.

Sobre táticas fascistas, o filósofo diz: “todo fascista tem um discurso anticorrupção. Os nazistas tinham campanha anticorrupção, Benito Mussolini [1883-1945] tinha campanhas anticorrupção. Quando o país tem muita corrupção, fica muito suscetível a políticos fascistas. O político fascista diz que, se a corrupção é uma tradição, ele vai combater aquilo. Ele pode até acabar amealhando dinheiro, mas com ele não é corrupção. Um país que teve uma presidente acusada de corrupção pode abrir caminho para uma campanha efetiva: um político fascista poderia dizer que ter uma presidente mulher leva à corrupção. Mesmo sem qualquer evidência. Donald Trump não teve problema em se declarar como o candidato anticorrupção, foi sua tática.

Tipicamente, o que eles fazem é dizer que a corrupção política se deve à corrupção da ordem, aos progressistas, ao ganho de poder das mulheres. Bolsonaro diz que você não é um policial se não matar ninguém, por exemplo. Mas a lei e a ordem não são justiça vigilante. E os apoiadores fazerem justiça com as próprias mãos e perseguirem adversários é o oposto a lei e ordem. As coisas significam o oposto na propaganda fascista. As notícias viram “notícias falsas”, [Adolf] Hitler [1889-1945] costumava dizer que a imprensa passava do limite”.

O filósofo ainda comenta o que representa para o Brasil ter um candidato com essas características extremistas na cena eleitoral de turno: “o Bolsonaro é assustador porque ele é abertamente antidemocrático. Fala abertamente em prender e matar os adversários. Políticos fascistas geram pânico ao falar sobre estrangeiros destruindo a força do país. Bolsonaro faz tudo isso. Por que pensar que alguém assim abriria mão do poder? Fascistas nunca abrem mão do poder. Eles veem a democracia como fraqueza. Se eles dizem que serão líderes duros e vitalícios, por que você vai votar nele? Por que ele não faria o que diz? Parece, para mim, que ele está dizendo isso. Ele está dizendo que se chegar ao poder, vai ficar no poder, mesmo usando a violência. Ele está sendo explicitamente antidemocrático”.

Jason Stanley escaneia Bolsonaro e frevela porque ele é uma das expressões mais fascistas de toda a história: “ele é contra gays e fala de minorias como preguiçosos. Ele fala em matar os adversários políticos? Se apresenta como o cara durão, que vai chegar e matar os criminosos sem tribunal? Ele fala que mulheres não deveriam ser líderes políticas, deveriam ficar em casa? Ele elogia ditadores, como Trump faz? Elogia ditadores passados no Brasil? Ele fala de militares, como ele é o verdadeiro Brasil, como os esquerdistas estão arruinando o país e como ele vai fazer algo sobre isso? Essas são as características”.

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