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SAÚDE

Câncer de próstata: “Nunca me senti menos homem por ter disfunção erétil”

Fonte/Foto; UOL

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Diagnosticado com câncer de próstata aos 49 anos de idade, Marcos*, 54, fez a cirurgia de retirada total do órgão, entrou em um quadro de disfunção erétil e precisou adaptar sua vida sexual. Grato por estar curado da doença, ele afirma lidar bem com o fato de usar medicação para tratar a impotência sexual e alerta para o pensamento machista de homens que não cuidam da saúde. Conheça a história dele.

“Desde os 40 anos fazia um check-up anual e sempre dava tudo normal, mas em 2014, aos 49 anos, o exame de toque e de PSA apontaram que minha próstata estava aumentada. O urologista disse que esse aumento era normal com o passar da idade, mas, por prevenção, pediu para eu retornar em seis meses.

Durante esse período, fiquei tranquilo e não tive nenhum sintoma, voltei, repeti os exames e foi constatado que a próstata havia aumentado mais do que o normal. Fiz a biópsia e, após sair o resultado, fui diagnosticado com câncer de próstata.

A princípio fiquei assustado, a gente nunca espera que algo assim vá acontecer com a gente. O médico me tranquilizou dizendo que como estava no início, a chance de cura era bem maior. Ele explicou que o próximo passo seria a cirurgia.

Pesquisei sobre o assunto na internet e li que muitos homens ficavam impotentes após a cirurgia e que vários casais se separaram por causa disso. Fiquei preocupado e perguntei ao médico como ficaria a minha sexualidade, imaginei que sem a próstata eu também ficaria impotente.

Ele me disse que o mais importante era eu me livrar do câncer porque ele poderia me matar. Ele explicou que havia medicações que poderiam auxiliar na disfunção erétil e me orientou a procurar um hospital referência no tratamento de câncer para operar.

Quatro meses depois, em 2015, fiz a cirurgia de retirada total da próstata. Após repetir os exames, não foi constatado mais nenhum foco da doença. Não precisei fazer quimioterapia nem radioterapia. Fiquei 30 dias de resguardo, o médico orientou que não me masturbasse e nem tentasse ter relação sexual, pois isso poderia comprometer o processo de cicatrização.

Não consegui ter ereção no 1º mês do tratamento

Passado esse tempo, voltei ao médico e focamos o tratamento na parte da sexualidade, uma vez que o tumor havia sido retirado, estava fazendo acompanhamento periodicamente e estava tudo ok.

Antes da cirurgia, tinha uma vida sexual ativa com a minha esposa, com quem sou casado há 30 anos. Por causa da rotina cansativa de trabalho, filhos e casa, às vezes, com o consentimento da minha mulher, tomava um estimulante para dar um up no sexo. Meu desempenho era excelente. A primeira etapa do meu tratamento foi justamente tomar esse comprimido uma vez por dia, durante um mês.

Como já tinha tomado e o resultado tinha sido bom, estava bem confiante, mas a experiência foi traumatizante.

Em um mês, nós fizemos quatro tentativas, não tive ereção por penetração em nenhuma delas. Ficava bem frustrado porque era algo que queria muito, meu organismo tinha essa necessidade. Eu e minha esposa usávamos de alguns artifícios, um deles era a masturbação, no qual eu conseguia ter a sensação de orgasmo.

Apesar da frustração, não fiquei nervoso e nem desesperado graças ao apoio da minha esposa. Ela era presente, parceira, me acompanhava nas consultas e dizia que iríamos achar uma solução. Ao final dos 30 dias, nós voltamos no médico e disse que o remédio não tinha dado certo.

O médico disse que já esperava esse resultado e me indicou algumas opções injetáveis no pênis. Comprei uma injeção, de dose única, e nós fizemos o primeiro teste no consultório.

Tive uma ereção plena, que durou duas horas. Confesso que fiquei assustado com o efeito e pensando como iria embora daquele jeito. Estava de moletom e brinquei que seria preso na rua.

Dois dias depois, comprei a segunda injeção, fiz a aplicação em casa, usei metade da dose e guardei o resto na geladeira. A primeira experiência foi maravilhosa, o tempo de ereção foi em torno de 50 minutos. O problema é que sofri com os efeitos colaterais, passada a ereção, sentia dor no pênis e no canal da uretra.

Com o tempo, fui me adaptando melhor a medicação, mas tinha dificuldades para dormir logo em seguida porque ficava com um incômodo. Usei essa injeção por seis meses, mas como o valor era alto, R$ 800, busquei outras opções com melhor custo-benefício.

Achei uma medicação similar, de um outro laboratório, que conseguiria usar mais vezes e por mais tempo. Meu médico liberou o uso. Na época, pagava R$ 500, hoje compro por R$ 300. Além de ser mais barata, a vantagem é que não sofro com nenhum efeito colateral, me adaptei bem.

Esse ano até testei outra medicação menos invasiva, que é tipo uma caneta com uma ponta de silicone. Usei duas vezes, mas deixou a desejar, voltei a usar a antiga injeção. Às vezes, tenho ereção mesmo sem tomar remédio, mas ela dura pouco, coisa de dois minutos, não se sustenta.

Já trato a disfunção erétil há cinco anos, perguntei ao médico se vou precisar tomar medicação a vida toda. Ele disse que, no meu caso, o uso será contínuo, que se fosse para voltar a ter ereção sem remédio já era para ter acontecido.

Sou bem-resolvido com essa questão, nunca me senti menos homem por ter disfunção erétil. Claro que não saio falando para todo mundo, pois é um assunto íntimo, só as pessoas mais próximas sabem. Nunca fiz drama ou me coloquei como vítima, porque isso só me prejudicaria.

Nesse sentido, sou uma pessoa prática, se tem medicação para resolver o problema, acho ótimo. Dou graças a Deus por estar vivo e curado do câncer. Sei que a cirurgia foi a escolha certa, a vida sexual é secundária, a gente se adapta.

Muitos homens ainda têm o pensamento machista de que não querer ir ao médico, de não fazer exames e principalmente o de toque. Por conta de atitudes como essas, eles podem ter um diagnóstico tardio e viver menos.

Como sempre fui bem esclarecido em relação a isso, consegui descobrir o câncer no início. Hoje, aos 54 anos, estou saudável, feliz e satisfeito com a minha vida sexual. Tenho dois filhos homens, um de 19 e outro de 26, preciso dar o exemplo para eles, de que nós, homens, precisamos cuidar da saúde”.

Entenda a relação entre câncer de próstata e disfunção erétil

1) O que acontece com a próstata numa cirurgia de retirada?
Na cirurgia –tratamento comum para o câncer de próstata– é retirada a próstata e uma parte dos nervos da região superior são removidos juntos. Tenta-se, ao máximo, preservar os nervos laterais, mas como eles são milimétricos e muito sensíveis, podem sofrer alguma alteração com a manipulação. Também existem tumores mais avançados, em que o câncer envolve esses nervos. Nesses casos, é preciso remover a próstata e a enervação junto. Por isso, pode acontecer a disfunção sexual nos pacientes que se submetem à retirada da próstata.

2) A consequência será sempre a disfunção erétil?
A impotência sexual pode acontecer após a cirurgia para a retirada da próstata ou no tratamento com hormonioterapia e tratamento de radioterapia do câncer de próstata combinado com hormonioterapia.

Não são todas as cirurgias para câncer de próstata que que podem acarretar impotência sexual. Muitos pacientes terão as funções sexuais preservadas. Após a remoção da próstata, o homem poderá chegar ao orgasmo como antes da operação, entretanto, não haverá mais a ejaculação, pois não há mais a produção dos líquidos prostático e seminal (esperma). A impotência depende de vários fatores como idade do paciente e estadiamento (grau) do tumor.

No caso de pacientes com menos de 65 anos, com excelente função sexual e tumores detectados precocemente, a chance de impotência é pequena. Já em pacientes com mais de 65 anos, que já tinham problemas de ereção, descobriram o tumor em fase avançada e necessitam de cirurgias mais amplas, a chance de impotência aumenta.

Há pacientes operados que têm vida vida sexual normal logo após a cirurgia. Já em outros casos, os pacientes podem levar de 18 a 24 meses para voltarem ao normal.

A notícia do câncer também pode impactar a condição psicológica do paciente, deixando-o ansioso e influenciando na qualidade da função erétil do pênis. Isso pode ser amenizado com uma franca conversa entre o paciente, o médico e sua parceria sexual, com orientações e suporte psicológico se necessário. Dessa forma, teremos expectativas realistas a respeito da função sexual pós-tratamento.

3) Quais os principais tratamentos para tratar a disfunção erétil?
A volta da função erétil pode levar um tempo. Pode-se começar com medicamentos orais, administrados diariamente ou antes de cada relação sexual. Também há injeção intracavernosa, que o homem aplica no pênis minutos antes da relação e que pode ser usada cerca de duas vezes por semana.

As ondas de choque são indicadas para disfunção erétil leve. Os estudos, nesse caso, não são claros e ainda não há indicação clínica habitual para pacientes submetidos a cirurgia.

Se os pacientes não responderem bem a esses tratamentos pode ser indicada a colocação de uma prótese peniana. Existem as maleáveis, que são mais baratas, e as infláveis, que são mais caras, ambas têm vantagens e características específicas que devem ser discutidas antes da escolha terapêutica.

4) Como o homem deve lidar com a disfunção erétil pós-cirurgia?
O primeiro passo é o homem entender que o corpo sofre alterações e que serão necessárias adaptações. Há muitos métodos que podem ajudar a tratar a disfunção erétil. O tratamento do câncer de próstata não é o fim da vida sexual do homem.

O paciente e sua parceria sexual devem conversar abertamente com o médico de sua confiança e entender que não há tabus. Além disso, é importantíssimo que haja diálogo entre os parceiros.

Fonte: Stenio Zequi, líder do Centro de Referência de Tumores Urológicos do A.C. Camargo Cancer Center.

*O nome foi trocado para preservar a identidade do entrevistado.

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