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Círio 226º celebra amor, fé e devoção à Nossa Senhora de Nazaré

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Romeiros pagam promessas e choram ao homenagear a Virgem de Nazaré em Belém.
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Por Dedé Mesquita/Comus Fotos: Alessandra Serrão e Dedé Mesquita

 

Quando, anos atrás, o padre Fábio de Melo, ao ver a multidão que acompanha o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, escreveu, em uma canção: “Há de ser mistério agora e sempre/ Nenhuma explicação sabe explicar/ É muito mais que ver um mar de gente/ Nas ruas de Belém a festejar/ É fato que a palavra não alcança…”, ele sabia muito bem do que falava – e sentia.

Neste domingo (14), a capital paraense viveu mais um de seus momentos em que “a palavra não alcança”, no 226º Círio de Nazaré, que este ano teve como uma das novidades a de sair uma hora mais tarde, às 7 horas, da Catedral de Belém, após missa solene celebrada pelo arcebispo de Belém, dom Alberto Taveira.

O Círio de Nazaré é uma realização conjunta da Arquidiocese de Belém, Basílica Santuário de Nazaré, Diretoria da Festa de Nazaré, Governo do Estado do Pará e Prefeitura Municipal de Belém.

Em meio à multidão, com um terço na mão, a dona de casa Izabel Conceição Pompeu, de 60 anos, rezava, contrita, ao lado da filha e de uma das netas. Às 4 horas, elas saíram do bairro da Condor para assistir à missa na Catedral de Belém. “Sempre assisto ao Círio, mas há dez anos comecei a vir para assistir à missa aqui na Sé. Tenho sete filhos, 20 netos e cinco bisnetos e estamos todos bem, com saúde, em paz, com trabalho. E é por isso que eu venho agradecer, porque sei que Nossa Senhora cuida de todos nós”, contou, muito emocionada.

Procissão

Com a estimativa de ter levado cerca de 2 milhões de pessoas às ruas, que se espraiam num percurso de 3,6 quilômetros, entre a igreja da Sé e a Basílica de Nazaré e transversais, o Círio 2018 teve com tema Uma Jovem Chamada Maria.

O percurso foi vencido em cerca de cinco horas e ao meio-dia a berlinda que conduz a imagem da Virgem de Nazaré adentrou a praça Santuário.  A berlinda, que ganhou 35 centímetros a mais de altura este ano, veio ornamentada em tons dourados e com menos flores, o que deu mais visibilidade à Rainha da Amazônia, a Virgem de Nazaré.

Após a saída da berlinda, pontualmente às 7 horas, a procissão seguiu, com Nossa Senhora sendo conduzida, basicamente por membros da Guarda da Santa e percorreu rapidamente a avenida Boulevard Castilho França e às proximidades do convento dos Mercedários a berlinda se encontrou com a corda dos promesseiros.

Nesse momento – que este ano foi às 7h30 -, sempre carregado de tensão, porque o atrelamento precisa ser muito rápido, a multidão passou a conviver com o empurra-empurra dos promesseiros na corda, um dos maiores símbolos do Círio.

Em meio ao aperto de tanta gente, em tão pouco espaço, os exemplos de sacrifício físico começam a surgir e, com o forte calor àquela hora da manhã, muitas pessoas acabam passando mal e desmaiam. É aqui surgem os voluntários que cuidam dos romeiros, entre eles o que se voluntariam na Defesa Civil do Município.

O estacionamento do prédio dos Correios, na rua Ó de Almeida com a avenida Presidente Vargas, é um dos mais movimentados. Tanto que precisa de uma pessoa que, com um apito na boca, coordene a entrada das macas trazidas do meio da multidão.

Quem fez esse serviço este ano foi o estudante Renan Barbosa, que faz parte do voluntariado da Defesa Civil do Município desde o ano passado. “Aqui é um ponto muito buscado, porque a procissão já começou há algum tempo, o calor está forte e o sol também, então muitas pessoas passam mal e são trazidas para cá. Aqui só podem entrar os maqueiros e algum acompanhante, se a pessoa tiver”, explicou Renan, sem deixar de coordenar a entrada das macas.

Defesa Civil reforçada

A Defesa Civil do Município atuou neste Círio com 2 mil pessoas, superando o número do ano passado. O treinamento dos voluntários foi realizado durante três dias, no mês de setembro. O grupo atuou na Trasladação e no Círio com serviços de primeiros socorros e ficou estabelecido em sete postos ao longo da procissão, localizados na sede do Clube do Remo; na antiga sede da Secretaria Municipal de Administração (Semad), na avenida Nazaré; nos Correios, Casa da Linguagem, estacionamento do Bradesco, Mercado de Carne e restaurante Avenida, com 80 socorristas e três técnicos em cada posto de atendimento.

Para Yan Miranda, coordenador da Defesa Civil, o sentimento é de dever cumprido. “O trabalho foi desenvolvido da melhor forma possível, e tivemos uma estrutura muito boa para nossas ações. Demos suporte a quem precisou e nos unimos aos outros órgãos de segurança, tanto que tivemos uma pessoa da Defesa Civil dentro da central com outras entidades do Estado e Município, todos juntos, o que facilitou bastante o nosso trabalho. Estamos muito felizes com mais este Círio e com o sucesso da operação”, enfatizou Yan.

A Guarda Municipal de Belém começou a atuar no Círio à meia-noite de domingo, com um efetivo de 156 agentes com o apoio de 11 motos e 11 viaturas, distribuídos em toda a extensão da procissão e no entorno, fazendo bloqueios de vias, a segurança das estações, o policiamento e a operação saturação nas praças da República e Santuário.

A Diretoria da Festa de Nazaré trabalha em parceria com os órgãos de saúde, segurança e trânsito para garantir melhor fluidez e segurança nas romarias. Neste ano, permaneceram as vias do corredor do Círio e suas transversais fechadas mais cedo, um dia antes, para garantir maior organização das procissões, ação da qual participaram também agentes da Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (Semob). Outra providência foi a instalação de dezenas de banheiros químicos ao longo do percurso do Círio.

Celebração e homenagens

Ao longo da romaria, muitas homenagens são prestadas à Nossa Senhora. Os integrantes da Banda da Guarda Municipal de Belém tocaram para os romeiros na avenida Nazaré.

Na arquibancada na avenida Presidente Vargas, em frente ao Cinema Olympia, um coral com integrantes de idades variadas cantou hinos e músicas à Nossa Senhora. O coral teve o apoio da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel).

Na sede da Companhia de Desenvolvimento e Administração da Área Metropolitana de Belém (Codem), o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, recebeu autoridades, servidores e convidados da Prefeitura de Belém e, juntos, assistiram à passagem da berlinda de Nossa Senhora e prestaram homenagens.

O prefeito não deixa dúvidas sobre ser devoto de Nossa Senhora de Nazaré. “Sou devoto e não nego. Neste momento forte de renovação de nossa fé, a cidade ganha com as pessoas que aqui moram e também com quem vem de fora do Estado, mas principalmente de nossos interiores, neste momento tão especial em que tudo ao nosso redor pulsa nessa grande corrente de fé”, destacou.

Limpeza eficiente

 Mal a procissão do Círio passava e entravam em ação os mais de mil agentes da Prefeitura de Belém responsáveis pela limpeza do percurso por onde passaram mais de 2 milhões de fiéis.

Os trabalhos realizados pela Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) são acompanhados por mais de 280 catadores de materiais recicláveis que recebem apoio da Prefeitura. A expectativa é recolher em torno de 500 toneladas de lixo e 100 toneladas de materiais que serão destinados para reciclagem e fonte de renda aos catadores.

Após a passagem da romaria, as vias foram varridas e lavadas com mais de 15 mil litros de água da maré.

Foram aproximadamente 150 máquinas e equipamentos como carros coletores, caçambas, carro-pipa, hidrojato e caminhão muck utilizados para a limpeza, desde a Catedral Metropolitana de Belém até a Basílica Santuário de Nazaré, atendendo também vias transversais.

“O trabalho de limpeza antecede todas as procissões do Círio, em ruas, canais e redes de drenagem. Após a passagem dos romeiros, mais de mil agentes de limpeza realizam varrição e lavagem do trajeto. É um trabalho complexo e que conta com empenho de vários profissionais da Sesan”, detalhou Claudio Mercês, titular da Sesan.

“Buscamos, cada dia mais, aproximar nosso trabalho de limpeza ao envolvimento da comunidade.  Com o sentimento de pertencimento e o cuidado com os espaços públicos, conseguimos avançar no trabalho integrado de limpeza e melhorar o espaço que é de todos”, completou o secretário.

 

 

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Círio chega cedo e sem incidentes à Praça Santuário

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Berlinda de Nossa Senhora de Nazaré passa pela av. Presidente Vargas
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Milhares de romeiros acompanharam o Círio de Nazaré desde cedo nas ruas estreitas de Belém

Movimento nas ruas desde cedo

A berlinda de Nossa Senhora de Nazaré, chegou à Praça Santuário, em frente à Basílica de Nazaré,  no centro de Belém,  às 11h45 deste domingo (14), após horas de romaria, completando o  226º Círio de Nazaré. Não houve registro de incidentes, a não ser os costumeiros desmaios de romeiros, no calor da procissão, mas que são prontamente atendidos pelos homens do exército, da Marinha, do Corpo de Bombeiros e da Cruz Vermelha. Pelo menos 2 mil homens estavam envolvidos com a segurança em geral do fiéis.

Ainda era madrugada quando a movimentação nas ruas de Belém já estava intensa em direção à Catedral, de onde a procissão partiu às 6h45 para cumprir a 266ª  edição do Círio de Nossa Senhora de Nazaré,  neste ensolarado domingo (14). Gestos de devoção e fé à padroeira dos paraenses marcaram a procissão de 3,6 km até a Praça Santuário.

A procissão começou às 6h45, acompanhada por mais de 2 milhões de pessoas, que espremiam nas ruas estreitas do centro histórico da capital paraense. A  berlinda, com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, fez o trajeto até chegar à Basílica,  seu destino final, com bastante organização.   A imagem foi retirada da berlinda na entrada da Praça Santuário, onde foi celebrada uma  missa como parte de  uma das maiores manifestações de fé em todo o país.

A romaria tomou a Avenida Nazaré, por volta das 10h25, chegando ao cruzamento da travessa  Quintino Bocaiúva, rapidamente.  Logo após  dobrar na avenida Nazaré, na esquina do Edifício Manoel Pinto da Silva,  o núcleo da 5ª estação da teve a corda cortada pelos impacientes fiéis,  em frente à sede do Paysandu.  A ação desses romeiros,  que utilizaram facas para cortar um dos maiores símbolos do Círio,  provocou algum tumulto na procissão. A organização da romaria fez  campanhas, pedindo para que os romeiros não cortassem a corda antes do Colégio Santa Catarina, usando é desatrelada da Berlinda, mas,  infelizmente, não foi atendida.  Na Praça Santuário, muitos romeiros pagaram promessas, caminhando de joelho até o altar, rezando e cantando em louvor à Virgem de Nazaré que, no mesmo horário, também era homenageada em Macapá (AP), onde vivem muitos paraenses e realizam um círio idêntico ao Belém.

Romeiros agradecem por graças alcançadas à Virgem de Nazaré

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Círio de Nazaré: Corações banhados em fé tomam as ruas de Belém do Pará

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Milhares de fiéis de diversas partes do país participaram neste sábado (13) do segundo dia da 226ª edição do Círio de Nossa Senhora Nazaré, tradicional evento religioso realizado anualmente na capital paraense, Belém. O círio é composto por 12 romarias oficiais.

O dia mal havia clareado e romeiros já tinham assistido à missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora das Graças, em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, e partido com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, com destino a Icoaraci, distante cerca de 24 quilômetros.

Ao longo de todo o trajeto, devotos se aglomeraram para presenciar a passagem da imagem de menos de 30 centímetros de altura da Padroeira dos Paraenses. De Icoaraci, a imagem seguiu até a capital a bordo de um navio hidroceanográfico da Marinha do Brasil, o Garnier Sampaio, acompanhada por centenas de embarcações.

Oficialmente, ao menos 335 embarcações se inscreveram na Capitania dos Portos para acompanhar o trecho chamado Círio Fluvial. Enfeitadas para a ocasião, embarcações de todos os tipos, de voadeiras a motos aquáticas e potentes lanchas particulares, coloriram a Baía do Guajará, fazendo com que as autoridades redobrassem a atenção e os alertas para evitar acidentes.

Ao fim de duas horas de procissão marítima, nenhum incidente grave foi registrado, e a programação seguiu com a Moto Romaria. Um dos momentos mais aguardados do dia, a Trasladação do Círio até a Catedral da Sé, teve início às 17h30.

Como de costume, a presença de milhares de romeiros alterou a rotina da capital paraense. O tráfego de veículos foi interditado em algumas das principais vias de Belém, principalmente na região central da cidade. O trajeto de várias linhas de ônibus foi alterado. Hotéis e pousadas estão praticamente lotados.

Na terça-feira (9), logo após participar da missa e da cerimônia de acendimento das luzes da fachada da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, que marcam o início oficial do evento, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, destacou que, durante esta época, todos os serviços públicos se preparam para garantir a segurança da população.

“As ações preventivas da prefeitura, seja na área da mobilidade ou da segurança, através da Guarda Municipal, como também as secretarias de Saúde, de Saneamento, de Urbanismo, ou seja, todos os órgãos estão integrados para contribuir com este grande evento que é patrimônio da humanidade e faz parte da nossa cultura. A gente fica muito feliz por participar deste momento e contribuir para a realização dele.”

Considerada a maior festa religiosa do mundo, o Círio este ano tem como tema “Uma jovem chamada Maria”. O auge da festa, que vai até o dia 29, ocorre no segundo domingo de outubro, quando uma grande procissão percorre as principais ruas de Belém, saindo da Catedral Metropolitana/Sé às 6h30 em direção à Basílica Santuário de Nazaré. A expectativa é que a procissão reúna mais de 2 milhões de fiéis.

Em 2015, o Círio de Nazaré e seu conjunto de manifestações religiosas e culturais recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade. Em 2004, foi inscrito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial Brasileiro.

Milhares de católicos acompanham a procissão do Círio de Nazaré em Belém. A romaria que homenageia Nossa Senhora de Nazaré é a maior procissão católica do mundo (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

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ESPECIAL – MEMÓRIAS DE BELÉM DO GRÃO-PARÁ

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Recordando o Arraial de Nazaré

 

Sebastião Piani Godinho*

O velho arraial de Nazaré, hoje transformado num sensaboroso parque de diversão sem características próprias, igual a todo e qualquer parque de diversão do seu nível, deixou muitas recordações naqueles que tiveram a ventura de conhecê-lo quando ele era ainda armado no Largo fronteiro à Basílica, numa época em que valia a pena frequentá-lo em vista do seu caráter tipicamente regional, onde se destacavam atrações produzidas aqui mesmo em Belém, como é caso das célebres “revistas nazarenas”.

Oficialmente crismado com o nome do republicano histórico Justo Chermont, hoje o espaço abriga o Centro Arquitetônico de Nazaré, conhecido pela horrenda sigla CAN, nada mais lembrando o arraial de outros tempos que durante muitos anos, no mês de outubro, se transformava no ponto de encontro das famílias paraenses, que lá se confraternizavam com o melhor do entretenimento que a cidade podia oferecer, sob as bênçãos da Virgem Santa.

Naquela época, a montagem do arraial tinha início nos primeiros dias do mês de setembro. Barraquinhas de madeira ordinária eram armadas, após o sorteio dos espaços promovido pela diretoria da festa. Os brinquedos também começavam a ser montados por esses dias, destacando-se, dentre todos, o grande carrossel que ocupava tradicionalmente o centro do largo, e era um dos preferidos da garotada e dos adultos também. Movido a vapor, sua proprietária, uma peruana gorda já entrando em anos, fora no passado amante de um ex-prefeito, relação que lhe teria facilitado à aquisição do carrossel e a sua exploração no arraial, de acordo com o testemunho das filhas da Candinha.

Um velho de cor bronzeada, permanentemente sem camisa e com um pano enrolado na cabeça, era o responsável em alimentar a caldeira com achas de lenha, fechando e abrindo os registros que movimentavam o aparelho. Suas pernas demasiadamente arqueadas sugeriram o apelido com o qual ficou conhecido não sendo outro mais apropriado: “Alicate”. Desde as primeiras horas da manhã até o encerramento das atividades do arraial, lá estava

“Alicate” limpando as peças que compunham o conjunto, polindo seus metais e removendo os restos de pipocas e lanches que os usuários lançavam no seu interior, para deixa-lo limpo e em ordem para à tardinha, mais uma vez, coloca-lo em movimento, deleitando seus muitos usuários que faziam fila para a compra do ingresso e, também, para aguardar a sua vez de montar o animal de sua predileção. Como se tratava de esculturas grandes, aos adultos também era permitido usufruir daquele prazer sem igual.

Na verdade, nós paraenses jamais o chamamos por carrossel. A expressão de origem francesa parece que não vingou por aqui, pois todos o conheciam como “Cavalinho”, muito embora dentre os animais que o compunham havia outros quadrúpedes, tais como porcos, tigres, leões, zebras e outros.

O mecanismo movimentado pela força do vapor girava o gigantesco aparelho e, ao mesmo tempo, fazia subir e descer alguns espécimes dessa estranha fauna cujo grave realismo, em certas expressões de alguns animais, acabava por provocar medo nas crianças mais tímidas que, revelando descontentamento ou enfado, se recusavam a montá-los.

Todos os anos, antes de entrar em funcionamento, o “Cavalinho” passava por uma ligeira reforma. Como as esculturas eram antigas, havia sempre a necessidade de repor massa em alguma lesão que, porventura, se apresentasse na madeira ou em outra parte do grandioso equipamento. Também uma demão de pintura era aplicada em todas as figuras, emprestando a elas um novo ar cromático sempre necessário, em casos semelhantes, para transmitir ao distinto público a ideia de novidade ou, pelo menos, de renovação.

Mas o arraial tinha outras atrações além do “Cavalinho”, como “Monga, a Mulher Gorila”, que se apresentava num teatrinho armado de forma canhestra, porem se destacando pelas pinturas temáticas em sua fachada e pela persuasão comunicativa de um locutor que ficava do lado de fora anunciando o espetáculo com uma voz cheia de verve, seduzindo a curiosidade dos passantes.

Certa vez, eu e meu irmão Otávio, ambos naquela idade que sucede a infância, cedemos ao fascínio dessa propaganda e, literalmente, pagamos pra ver a sua veracidade.

O espaço era pequeno e quente e, rapidamente, se entulhou de outros espectadores interessados em testemunhar a extraordinária transformação

de uma mulher, um ser humano, num macaco, fenômeno que desafiava a razão de qualquer criatura, por mais cética que ela se mostrasse.

Pois bem. Poucos minutos após o nosso ingresso, o espetáculo tem inicio. Uma jovem de biquíni preto surge no interior de uma jaula e, pouco a pouco, seu corpo vai se repletando de pelos que a distância sugere ser de um primata. De igual modo, tem inicio a desfiguração do seu rosto até assumir integralmente a caraça medonha de um colossal gorila, completando a metamorfose e provocando frêmito entre os incrédulos assistentes.

O apresentador do espetáculo, o mesmo que na porta fazia exercícios vocais, chamou à vida o monstruoso animal que se achava adormecido, sempre incrementando suas frases com sons que criava com a sua criatividade teatral, fazendo aumentar a tensão entre os presentes.

O gorila abre os olhos que se acenderam como brasas, e encara a pequena plateia. Tomado de cólera selvagem ele começa a rugir de forma estrepitosa, aterrorizando os circunstantes. Nessa altura, eu sem perceber, já completamente submisso aos domínios daquela ilusão, me achava agarrado com as duas mãos no ombro de uma velhota a minha frente que, sobressaltada, como todos os que ali se encontravam, nem dava conta do que estava acontecendo além da cena espantosa que lhe prendia totalmente a atenção.

Urrando sem parar e balançando forte e repetidas vezes a grade da jaula em cujo interior estava encarcerada, a criatura simiesca logrou desprende-la de seus gonzos e investiu para cima dos assistentes que, numa átimo, esvaziaram o teatrinho não acreditando naquela transformação, muito embora ela tenha ocorrido diante de seus próprios olhos.

O locutor, aproveitando o momento de excitação nervosa que contagiava o ambiente, redobrava sua a inventividade no velho e pesado microfone de metal que ele trazia enrolado num pedaço de pano encardido, inventando sons apropriados para aumentar ainda mais a perplexidade dos que, ao contrário de São Tomé, viam, mas não acreditavam.

Diante do furor estampado no rosto da fera e de seu arranco em direção á plateia, todos, ao mesmo tempo, correram em direção à pequena porta da barraca e, nessa debandada, houve quem levasse no peito algumas tábuas que compunham a fachada da tosca construção. A velhota que se achava na minha frente, gritava como uma condenada e, deixando de lado os

achaques da velhice, botava sebo nas canelas e corria célere feito uma maratonista.

Era um Deus nos acuda que durou alguns poucos segundos, mas que foram suficientes para que, num instante, todos os que se achavam no recinto sumissem como baratas ao acender da luz.

Saí de lá com a roupa amarfanhada e um arranhão no braço, além de intrigado com a notável apresentação, cujo realismo, bem convincente, foi capaz de produzir o reboliço que provocou.

Na década de 1970, o arraial passou a ser montado no terreno lateral à Basílica, onde se acha até hoje, perdendo a sua feição original.

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*É advogado e membro da Academia Paraense de Letras

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