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Efeméride e série jogam dúvidas em caso de morte de promotor que denunciou Cristina Kirchner

Folha de S. Paulo

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Alberto Nisman investigou a ex-presidente por suposto encobrimento do Irã em atentado contra centro de convivência de judeus

A morte ainda misteriosa do promotor argentino Alberto Nisman (1963-2015) completa cinco anos no próximo dia 18, vira documentário na Netflix (“O Fiscal, A Presidente e o Espião”) e ressurge com novas investigações e um processo contra a vice-presidente Cristina Kirchner (baseado na denúncia elaborada por ele).

O episódio foi um dos casos de maior projeção internacional na Argentina na última década. Naquela madrugada de domingo, entre as TVs se deslocarem até o edifício no bairro nobre de Puerto Madero onde morava o promotor e os rumores virarem realidade, os argentinos viveram horas de muita tensão. Nas semanas seguintes, não se falava de outra coisa. 

Alberto Nisman estava às vésperas de comparecer ao Congresso para apresentar uma denúncia contra a então presidente Cristina Kirchner, acusando-a de encobrir as investigações sobre o atentado terrorista contra a entidade judaica Amia (Asociación Mutual Israelita Argentina), que deixou 85 mortos em 1994.

Mas o promotor morreu em seu apartamento, vítima de um tiro. Na segunda-feira, a arma foi encontrada ao lado do corpo, ambos envoltos numa poça de sangue.

Até aqui vão as certezas. Adiante, só dúvidas, especulações e teorias, que vão ganhando novos capítulos e elementos. 

Assim como até hoje não se sabe quem atacou a Amia —a maior suspeita recaí sobre o grupo libanês Hizbullah com apoio do Irã— e a razão, não se sabe tampouco se Nisman se suicidou ou se foi assassinado. Neste caso, por quem e por quê.

O documentário ouve os envolvidos na investigação, acusados e familiares. E segue as principais teorias. A avaliação inicial apontou para um suicídio, talvez sob ameaça, pois não se encontraram indícios de outra pessoa ter entrado no apartamento naquela noite. E porque, ao revisar sua denúncia, Nisman tinha encontrado buracos importantes que podem o ter levado ao desespero pessoal. Além disso, no dia anterior, o promotor tinha pedido uma arma a seu principal assessor, Diego Lagomarsino —hoje sendo julgado por cumplicidade num possível homicídio.

Depois, vêm as teorias de assassinato. Poderia ter sido um acerto de contas por desentendimentos dentro do sistema de inteligência do país. Aí entramos no território mais pantanoso, pois surge a figura de “Jaime” Stiuso, um homem que parece saber de todos os segredos do poder na Argentina, uma vez que estava à frente da secretaria de inteligência havia mais de 40 anos e era conhecido por usar seus contatos e informações para manipular políticos, julgamentos e até presidentes. 

Outras possibilidades para um assassinato envolvem alguém enviado ou fiel à própria Cristina Kirchner, que temia a apresentação da denúncia.

O caso foi altamente politizado. Num primeiro momento, Cristina defendia que havia sido suicídio, e há suspeitas de que ela tenha pressionado a polícia a chegar a essa conclusão —e por isso ela também enfrenta um processo na Justiça. Depois, durante a gestão de Mauricio Macri (2015-2019), o caso foi transferido para a Polícia Federal, que realizou um novo laudo e concluiu que havia sido um assassinato. Isso apesar de não ter reunido provas suficientes que indicassem o autor do crime.

O atual presidente, Alberto Fernández, agora, anuncia que todas as perícias serão analisadas novamente e que a ministra de Segurança, Sabrina Frederic, cuidará do caso. “Vamos fazer uma revisão técnico-administrativa dos procedimentos e fazer de tudo para eliminar as controvérsias”, diz Frederic.

A ideia é entregar à Justiça um novo relatório juntando as evidências revistas.

Por outro lado, o processo contra Cristina Kirchner que foi o resultado da denúncia de Nisman continua. O promotor defendia que um acordo comercial que a então presidente queria fazer com o Irã em troca de um julgamento mais brando, e fora da Argentina, dos principais suspeitos pelo atentado da Amia era uma ação de encobertamento. 

Por causa da polêmica levantada na época, e por reclamações do próprio Nisman, o acordo foi considerado inconstitucional, e os membros do Hizbullah acusados de envolvimento no atentado ainda são procurados pela Interpol.

Não se sabe o que pode acontecer com Cristina Kirchner se ela for considerada culpada —como vice-presidente, ela tem direito a foro privilegiado.


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