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Eleitor transverso

Gerson, meia da Selção, celebrizou o dito "levar vantagem em tudo"

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Emanoel Reis*/Da Redação em Macapá (AP)

 

Nas últimas semanas, a “síndrome de Gérson” (levar vantagem em tudo), cuja origem remonta 1976, após o meio-campista da Seleção Brasileira de 1970 protagonizar uma propaganda do cigarro Vila Rica, em que recomendava “levar vantagem em tudo” ao final da peça publicitária, ganhou evidência no cenário político. Desde então, o conceito enviesado vem ganhando adeptos no exercício da (má) política, ancorada por outra sinecura, lamentavelmente inspirada na oração de São Francisco de Assis: “(…) é dando que se recebe”.

No decorrer desse campanha eleitoral, evidenciaram-se as distorções de caráter do eleitor brasileiro, estimulado pelo alto índice de impunidade em relação às malfeitorias cometidas por figurões da política nacional. Estimulado pela ideia enviesada do “levar vantagem em tudo”, homens e mulheres – de todos os segmentos sociais – transformaram o título de eleitor em mercadoria e comercializam o voto de acordo com as próprias conveniências. Ou seja, todos sabem que nessa época o eleitorado vislumbra a possibilidade de “ganhar algo” em troca do voto. De preferência, cargos nos escalões do governo, ou nos legislativos estadual e federal. Na falta desses, servem algumas dúzias de tábuas, tijolos ou telhas para construção ou reforma de imóveis. É assim que candidatos desonestos são eleitos em qualquer dos 5.561 municípios brasileiros.

Meses atrás, o dominical Fantástico da TV Globo exibiu reportagem em que políticos são acusados da compra de votos. De acordo com o programa, os tribunais eleitorais têm mais de mil processos que investigam a compra de votos nas eleições para prefeito. Uma eleitora entrevistada pela reportagem revelou que “(…) se a pessoa for ‘esperta’, [pode] ganhar de R$ 100 a R$ 150”. O próprio eleitor, que mais tarde estará reclamando de ruas esburacadas, da falta de saneamento (água encanada, principalmente), do mau atendimento na saúde pública, do transporte urbano ruim, é o mesmo que vendeu o voto e com isso avalizou o político corrupto.

O “levar vantagem em tudo” correlaciona-se à terceira síndrome entranhada no ânimo do povo brasileiro: a síndrome de Zé Carioca. A ideia do bom malandro, aquele que deve, não nega e ainda assim não paga (vive fugindo dos credores), detesta ganhar dinheiro com trabalho honesto – e digno -, e tem como passatempo preferido bolar falcatruas para “levar vantagem” em qualquer circunstância, pontifica no Brasil como norma natural de sobrevivência. Com base no princípio de que “malandro é malandro e mané é mané”, danem-se os escrúpulos, o que vale é ganhar (vencer) independente dos métodos empregados. Lamentavelmente, o desempenho do craque Neymar na Copa da Rússia foi um exemplo nada lisonjeiro dessa síndrome.

Quem já ouviu “política só ganha quem tem dinheiro?”. Ou: “Quem não tem dinheiro, não entra em política?”. Pois é. Há quem aposte que consegue (re)eleger-se somente com dinheiro. A Justiça Eleitoral sabe disso. A Polícia Federal também sabe disso. Hoje tramitam no Tribunal Superior Eleitoral, pelo menos, 10,5 mil processos que questionam candidatos e prefeitos eleitos em 2016. Em cerca de 1,2 mil, a acusação principal é a compra de votos. Algum candidato está preso porque comprou voto?

É amparado nesta impunidade que nas eleições deste ano candidatos à cargos majoritários e proporcionais estão reservando para os dois dias antes da votação o grosso do dinheiro escondido para esta finalidade criminosa. É na madrugada de sábado (antes do dia da votação) que os candidatos inescrupulosos e seus bandos agem nas periferias, junto aos eleitores carentes, moradores das baixadas, dos alagados e das pontes.

E boa parte desse eleitorado é conivente com o prática criminosa, tornando-se ele mesmo, um criminoso. Numa súbita manifestação de ”

sincerocídio”, representante da Frente Nacional dos Prefeitos, José Fortunati, foi lapidar: “Os dois lados têm responsabilidades. É muito fácil acusar que [o candidato] comprou votos, mas e quem vendeu o seu voto?”. Fortunati está certo. “Prometer alguma coisa, que é um dever público isso faz parte da campanha, isso é lícito, isso é permitido. O que não é permitido é oferecer um bem, dar uma camiseta, alguma vantagem que leve esta pessoa a ficar comprometida com aquele candidato”, define o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Antonio Dias Toffoli.

Infelizmente, é o que comumente deve ter acontecido nas últimas semanas. O comércio criminoso da compra e venda de votos. É o “eleitor zé carioca” dando uma de malandro quando, na verdade, é um tremendo “mané”.

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