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CÍRIO DE NAZARÉ

ESPECIAL – MEMÓRIAS DE BELÉM DO GRÃO-PARÁ

Publicado

em

Recordando o Arraial de Nazaré

 

Sebastião Piani Godinho*

O velho arraial de Nazaré, hoje transformado num sensaboroso parque de diversão sem características próprias, igual a todo e qualquer parque de diversão do seu nível, deixou muitas recordações naqueles que tiveram a ventura de conhecê-lo quando ele era ainda armado no Largo fronteiro à Basílica, numa época em que valia a pena frequentá-lo em vista do seu caráter tipicamente regional, onde se destacavam atrações produzidas aqui mesmo em Belém, como é caso das célebres “revistas nazarenas”.

Oficialmente crismado com o nome do republicano histórico Justo Chermont, hoje o espaço abriga o Centro Arquitetônico de Nazaré, conhecido pela horrenda sigla CAN, nada mais lembrando o arraial de outros tempos que durante muitos anos, no mês de outubro, se transformava no ponto de encontro das famílias paraenses, que lá se confraternizavam com o melhor do entretenimento que a cidade podia oferecer, sob as bênçãos da Virgem Santa.

Naquela época, a montagem do arraial tinha início nos primeiros dias do mês de setembro. Barraquinhas de madeira ordinária eram armadas, após o sorteio dos espaços promovido pela diretoria da festa. Os brinquedos também começavam a ser montados por esses dias, destacando-se, dentre todos, o grande carrossel que ocupava tradicionalmente o centro do largo, e era um dos preferidos da garotada e dos adultos também. Movido a vapor, sua proprietária, uma peruana gorda já entrando em anos, fora no passado amante de um ex-prefeito, relação que lhe teria facilitado à aquisição do carrossel e a sua exploração no arraial, de acordo com o testemunho das filhas da Candinha.

Um velho de cor bronzeada, permanentemente sem camisa e com um pano enrolado na cabeça, era o responsável em alimentar a caldeira com achas de lenha, fechando e abrindo os registros que movimentavam o aparelho. Suas pernas demasiadamente arqueadas sugeriram o apelido com o qual ficou conhecido não sendo outro mais apropriado: “Alicate”. Desde as primeiras horas da manhã até o encerramento das atividades do arraial, lá estava

“Alicate” limpando as peças que compunham o conjunto, polindo seus metais e removendo os restos de pipocas e lanches que os usuários lançavam no seu interior, para deixa-lo limpo e em ordem para à tardinha, mais uma vez, coloca-lo em movimento, deleitando seus muitos usuários que faziam fila para a compra do ingresso e, também, para aguardar a sua vez de montar o animal de sua predileção. Como se tratava de esculturas grandes, aos adultos também era permitido usufruir daquele prazer sem igual.

Na verdade, nós paraenses jamais o chamamos por carrossel. A expressão de origem francesa parece que não vingou por aqui, pois todos o conheciam como “Cavalinho”, muito embora dentre os animais que o compunham havia outros quadrúpedes, tais como porcos, tigres, leões, zebras e outros.

O mecanismo movimentado pela força do vapor girava o gigantesco aparelho e, ao mesmo tempo, fazia subir e descer alguns espécimes dessa estranha fauna cujo grave realismo, em certas expressões de alguns animais, acabava por provocar medo nas crianças mais tímidas que, revelando descontentamento ou enfado, se recusavam a montá-los.

Todos os anos, antes de entrar em funcionamento, o “Cavalinho” passava por uma ligeira reforma. Como as esculturas eram antigas, havia sempre a necessidade de repor massa em alguma lesão que, porventura, se apresentasse na madeira ou em outra parte do grandioso equipamento. Também uma demão de pintura era aplicada em todas as figuras, emprestando a elas um novo ar cromático sempre necessário, em casos semelhantes, para transmitir ao distinto público a ideia de novidade ou, pelo menos, de renovação.

Mas o arraial tinha outras atrações além do “Cavalinho”, como “Monga, a Mulher Gorila”, que se apresentava num teatrinho armado de forma canhestra, porem se destacando pelas pinturas temáticas em sua fachada e pela persuasão comunicativa de um locutor que ficava do lado de fora anunciando o espetáculo com uma voz cheia de verve, seduzindo a curiosidade dos passantes.

Certa vez, eu e meu irmão Otávio, ambos naquela idade que sucede a infância, cedemos ao fascínio dessa propaganda e, literalmente, pagamos pra ver a sua veracidade.

O espaço era pequeno e quente e, rapidamente, se entulhou de outros espectadores interessados em testemunhar a extraordinária transformação

de uma mulher, um ser humano, num macaco, fenômeno que desafiava a razão de qualquer criatura, por mais cética que ela se mostrasse.

Pois bem. Poucos minutos após o nosso ingresso, o espetáculo tem inicio. Uma jovem de biquíni preto surge no interior de uma jaula e, pouco a pouco, seu corpo vai se repletando de pelos que a distância sugere ser de um primata. De igual modo, tem inicio a desfiguração do seu rosto até assumir integralmente a caraça medonha de um colossal gorila, completando a metamorfose e provocando frêmito entre os incrédulos assistentes.

O apresentador do espetáculo, o mesmo que na porta fazia exercícios vocais, chamou à vida o monstruoso animal que se achava adormecido, sempre incrementando suas frases com sons que criava com a sua criatividade teatral, fazendo aumentar a tensão entre os presentes.

O gorila abre os olhos que se acenderam como brasas, e encara a pequena plateia. Tomado de cólera selvagem ele começa a rugir de forma estrepitosa, aterrorizando os circunstantes. Nessa altura, eu sem perceber, já completamente submisso aos domínios daquela ilusão, me achava agarrado com as duas mãos no ombro de uma velhota a minha frente que, sobressaltada, como todos os que ali se encontravam, nem dava conta do que estava acontecendo além da cena espantosa que lhe prendia totalmente a atenção.

Urrando sem parar e balançando forte e repetidas vezes a grade da jaula em cujo interior estava encarcerada, a criatura simiesca logrou desprende-la de seus gonzos e investiu para cima dos assistentes que, numa átimo, esvaziaram o teatrinho não acreditando naquela transformação, muito embora ela tenha ocorrido diante de seus próprios olhos.

O locutor, aproveitando o momento de excitação nervosa que contagiava o ambiente, redobrava sua a inventividade no velho e pesado microfone de metal que ele trazia enrolado num pedaço de pano encardido, inventando sons apropriados para aumentar ainda mais a perplexidade dos que, ao contrário de São Tomé, viam, mas não acreditavam.

Diante do furor estampado no rosto da fera e de seu arranco em direção á plateia, todos, ao mesmo tempo, correram em direção à pequena porta da barraca e, nessa debandada, houve quem levasse no peito algumas tábuas que compunham a fachada da tosca construção. A velhota que se achava na minha frente, gritava como uma condenada e, deixando de lado os

achaques da velhice, botava sebo nas canelas e corria célere feito uma maratonista.

Era um Deus nos acuda que durou alguns poucos segundos, mas que foram suficientes para que, num instante, todos os que se achavam no recinto sumissem como baratas ao acender da luz.

Saí de lá com a roupa amarfanhada e um arranhão no braço, além de intrigado com a notável apresentação, cujo realismo, bem convincente, foi capaz de produzir o reboliço que provocou.

Na década de 1970, o arraial passou a ser montado no terreno lateral à Basílica, onde se acha até hoje, perdendo a sua feição original.

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*É advogado e membro da Academia Paraense de Letras
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