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MUNDO

Medo do terrorismo volta a assombrar Paris após ataque com facas

(crédito: AFP / Alain JOCARD)

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Homem esfaqueia dois funcionários de uma produtora audiovisual de Paris, na rua da antiga redação do jornal satírico Charlie Hebdo. Vítimas são internadas em estado grave. Ministro do Interior confirma terrorismo islâmico. Sete suspeitos estão presos

A França ainda convivia com as dolorosas memórias daquele 7 de janeiro de 2015, quando os irmãos Said e Chérif Kouaichi invadiram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo e fuzilaram 12 funcionários, incluindo jornalistas e cartunistas. O massacre teria sido em retaliação à publicação de charges do profeta Maomé, um crime, de acordo com o islã. Em meio ao julgamento de 14 cúmplices do atentado, o terrorismo tornou a assombrar Paris. Por volta das 11h45 (6h45 em Brasília) de ontem, dois funcionários da produtora audiovisual Premières Lignes fumavam do lado de fora do prédio — situado na Rua Nicolas Appert, a mesma da antiga sede da Charlie — quando foram golpeados com uma espécie de cutelo ou faca de açougueiro. A primeira vítima a ser atingida foi uma recepcionista da agência, e a segunda, um assistente de produção. Ambas foram hospitalizadas em estado grave.

Dois suspeitos foram presos logo depois dos eventos. O autor dos ataques é um paquistanês de 18 anos; o segundo homem tem 33 anos e seria argelino. As autoridades tentavam, ontem, estabelecer a ligação entre eles. Mais tarde, outros cinco suspeitos foram detidos em Pantin, nos arredores de Paris.

O ministro do Interior, Gérald Darmanin, declarou que este “é claramente um ato de terrorismo islamita”. “É a rua onde ficava o Charlie Hebdo, é o modo de operar dos terroristas islamitas; está claro, sem dúvida alguma, que é um novo ataque sangrento contra nosso país”, declarou à emissora de TV France 2. Por sua vez, o primeiro-ministro, Jean Castex, destacou que o ataque se deu “em um lugar simbólico, ao mesmo tempo em que ocorre o julgamento dos cúmplices dos autores de atos indignos contra o Charlie Hebdo”.

Na última quarta-feira, a Torre Eiffel foi esvaziada e fechada por duas horas, após uma ameaça de bomba feita por telefone. Policiais fizeram uma busca no monumento, nada encontraram e consideraram o incidente como um trote. Em 2 de setembro, a Charlie Hebdo voltou a publicar caricaturas de Maomé. A edição de 200 mil exemplares esgotou nas bancas. O Irã denunciou uma “provocação” aos muçulmanos, e a rede terrorista Al-Qaeda tornou a ameaçar o jornal satírico pelas “caricaturas desprezíveis”.

“Do nada”

Paul Moreira, fundador da Premières Lignes, relatou à agência France-Presse que viu quando “um cara apareceu do nada”. “Sem dizer nada, ele começou a agredi-las (as vítimas), elas gritaram e, felizmente, tiveram energia suficiente para fugir e escapar do atacante”, disse, ao explicar que os funcionários foram feridos “na parte superior do corpo”, uma delas na cabeça. “Eu vi um dos meus colegas, manchado de sangue, ser perseguido por um homem com um facão na rua”, afirmou outro empregado da produtora.

Também funcionário da Premières Lignes, o jornalista franco-português Pedro Brito da Fonseca contou ao Correio que viajava de carro rumo ao norte da França, para uma reportagem sobre imigrantes, quando soube do ataque. “Às 11h40, telefonei para a agência e conversava com uma colega, quando o atentado ocorreu. Eu entendi, pelas palavras dela, que a situação não era normal e que tinha ocorrido um ato terrorista. Fiquei em silêncio por um minuto, mais ou menos, tentando compreender o que se passava. Ainda estava na periferia de Paris. Manobrei o carro e me dirigi ao centro da capital”, afirmou. “Uns 40 minutos depois, quando cheguei ao bairro, a polícia fechava o entorno da agência. Apenas mais tarde eu soube que dois colegas tinham sido feridos. Depois, fiquei no bairro e vi policiais e soldados entrarem na região. Duas horas depois, a rua de trás da agência foi liberada para o trânsito.”

Por e-mail, Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris, em Paris), explicou ao Correio que, desde o início do julgamento dos cúmplices do ataque à Charlie Hebdo, houve um aumento de ameaças contra o jornal satírico e contra o país. “A republicação das caricaturas do profeta do islã foi vista como declaração de guerra em alguns países, como o Paquistão. No entanto, a principal razão pela qual a Al-Qaeda ameaça a França é porque nosso exército combate os militantes da organização na África, com sucesso”, disse. “A comunidade de inteligência francesa aprimorou sua capacidade depois dos atentados de 2015, recebeu financiamento extra e recrutou muitas pessoas altamente competentes nos ramos da comunicação e da criptografia, além de especialistas em África ocidental e Índia. A coordenação entre as diferentes unidades da polícia é melhor do que cinco anos atrás.”

» Eu acho…

“O Estado Islâmico (EI) e a Al-Qaeda seguem como ameaças potenciais. A grande diferença em relação à década anterior é que os terroristas que operavam na Europa eram, em sua maioria, jihadistas que lutaram no Afeganistão, na Síria e no Iraque. Agora, com a derrota do califado islâmico, o EI pede aos muçulmanos que ajam como ‘lobos solitários’ ou em pequenas células, as quais não precisam de ordens para lançar um ataque. Temos uma pequena comunidade paquistanesa aqui em Paris, bem menor do que no Reino Unido. Mas, agora, há partidários do islã radical em suas fileiras.” Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris, em Paris).

» Memória

Massacre de jornalistas

Em 7 de janeiro de 2015, os irmãos franceses muçulmanos Chérif e Said Kouachi invadiram a sede do jornal satírico Charlie Hebdo, na Rua Nicolas Appert, e começaram a abrir fogo na recepção. O editor da publicação à época, Stéphane Charbonnier, mais conhecido como Charb, foi um dos quatro cartunistas famosos mortos durante o massacre.

Os extremistas — vestidos de preto, encapuzados e armados com fuzis Kalashnikov — mataram quatro jornalistas, quatro cartunistas, dois policiais, um visitante e a recepcionista. Os terroristas foram executados pelas forças de segurança depois de 48 horas.

Dias depois, em ataque ligado à ação dos irmãos Kouachi, o jihadista Amedi Coulibaly matou três clientes e um funcionário de mercado kosher (de comida judaica), durante uma tomada de reféns, em Porte de Vincennes, no leste de Paris.

Antes de entrar no estabelecimento, Coulibaly matara uma policial, também na capital francesa. As forças de segurança invadiram o comércio, mataram o homem e libertaram 15 reféns. Durante o cerco, Coulibaly teria se comunicado com os irmãos Kouachi e ameaçou matar funcionários e clientes do mercado, caso os autores do ataque à Charlie Hebdo fossem capturados ou mortos.

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