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CINEMA

Morre, aos 77 anos, em Roma, Bernardo Bertolucci, diretor de ‘O Último Tango em Paris’

Bertolucci era considerado um mestre do cinema italiano e mundial Foto: Fred Prouser / Reuters

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Cineasta italiano recebeu uma Palma de Ouro honorária em 2011 no Festival de Cannes pelo conjunto de sua obra

O Estado de S. Paulo

ROMA – O cineasta italiano Bernardo Bertolucci, conhecido por filmes como O Último Tango em Paris e Os Sonhadores, morreu em Roma aos 77 anos, anunciou a imprensa italiana nesta segunda-feira (26).

 A emissora italiana RAI disse que Bertolucci morreu em sua casa, cercado por sua família.
 Os filmes do diretor frequentemente exploraram as relações sexuais entre personagens presos em crises psicológicas, como em O Último Tango. O autoproclamado marxista também não se privou de temas políticos e ideológicos, como em O Conformista (1970), o qual alguns críticos consideram sua obra-prima.

Apesar de trabalhar com estrelas do cinema americano e internacional, Bertolucci sempre defendeu sua própria maneira de fazer cinema contra o que ele chamava de pressão da indústria cinematográfica dos EUA. Ele manteve sucesso crítico durante boa parte de sua carreira, atravessando as controvérsias que o seu trabalho sexualmente provocativo causou, além de alguns fracassos de público.

“Quando se trata de cinema comercial, tenho o estranho prazer de sentir que sou de outra tribo, um infiltrado”, disse ao Corriere Della Serra em 1990.

Os filmes de Bertolucci também carregavam a experiência do diretor com a psicanálise. Ele sempre dizia que fazer filmes era sua forma de se comunicar com o público. Era a sua própria língua.

“Talvez eu seja um idealista, mas ainda penso no cinema como uma catedral em que todos vamos juntos sonhar”, disse numa ocasião em que foi premiado pelo Sindicato dos Diretores dos EUA.

Poeta, produtor, roteirista e diretor, Bertolucci era considerado o último “grande mestre” do cinema italiano, responsável por produções como O Último Imperador, filme vencedor de nove Oscars em 1988, entre eles os de melhor filme, diretor e roteiro.

Nascido em Parma, no norte da Itália, em 16 de março de 1941, sua chegada ao mundo da cultura e da sétima arte não foi casual, já que ele pertencia a uma família de reconhecidos escritores e cineastas italianos.

Suas obras nunca deixaram público e crítica indiferentes, e algumas suscitaram enormes polêmicas como Último Tango em Paris (1972), que narra a conflituosa história de amor protagonizada por Maria Schneider e Marlon Brando e foi censurada em diversos países.

Entre os vários prêmios que recebeu, Bertolucci foi agraciado com o Leão de Ouro à carreira no Festival de Veneza em 2007 e com a Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes em 2011, além dos Oscars de Melhor Diretor e Roteiro (dividido com Mark Peploe) em 1988.

Bertolucci entrou para o mundo do cinema com 20 anos, pelas mãos de Pier Paolo Pasolini, de quem foi assistente durante as gravações de Accattone – Desajuste Social (1961).

Sua primeira produção cinematográfica foi A Morte (1962), o ponto de partida a uma carreira destacada como cineasta, que o colocou entre os mais importantes da história italiana, sempre em busca do intimismo e de uma análise contínua da juventude.

Após esse filme, Bertolucci dirigiu Antes da Revolução (1964) e O Conformista (1970), obras com as quais se consagrou como um diretor que trabalhava na introspecção de seus personagens.

A carreira internacional de Bertolucci chegou com Último Tango em Paris, que recebeu duas indicações ao Oscar – melhor diretor e melhor ator (Marlon Brando) – em 1973 e, naquele mesmo ano, também recebeu outras duas indicações ao prêmio Globo de Ouro, a melhor filme e melhor diretor.

O cineasta não conseguiu nenhum desses prêmios, mas as indicações o situaram no primeiro escalão do cinema internacional.

Bertolucci continuou seu sucesso internacional com 1900 (1974-1976), um filme dividido em dois atos, que retrata a vida camponesa da Itália da Grande Guerra e do fascismo.

Em 1987, o italiano lançou o longa metragem que lhe trouxe maior reconhecimento, O Último Imperador, que acabou recebendo quatro Globos de Ouro e nove Oscars, e que resgata a figura de Puyi, o imperador da China derrubado pela revolução de 1911.

Seis anos depois, em 1993, estreou outro grande sucesso, O Pequeno Buda, a história de uma criança americana que monges budistas acreditavam ser a reencarnação de um de seus lamas.

Em 2003, Bertolucci dirigiu Os Sonhadores, depois do qual sofreu um grave problema nas costas que o obrigou a ficar em cadeira de rodas.

Seu último filme é de 2012, Eu e Você, no qual voltou a tratar o tema dos jovens (AFP, AP e EFE).

Bernardo Bertolucci era um mestre tanto no épico quanto no intimismo

Eixo político de sua obra nunca deixou de conviver com outra de suas preocupações, a questão da subjetividade humana, em leitura psicanalítica

Luiz Zanin Oricchio/ O Estado de S. Paulo

Um gigante do cinema nos deixou hoje. Aos 77 anos, foi-se Bernardo Bertolucci, autor de filmes polêmicos como O Último Tango em Paris, políticos como 1900, grandiosos como O Último Imperador, minimalistas como Eu e Você, seu último longa.

 Filho do intelectual e poeta Atílio Bertolucci, Bernardo deu início à sua carreira com La Comare Secca (A Morte) em 1962, numa época áurea do cinema italiano, quando o neorrealismo já havia acabado, mas os grandes, como Fellini, Antonioni, De Sica, Pasolini e o próprio Rossellini estavam não apenas na ativa, mas no auge de suas carreiras. Um ambiente de tal forma competitivo em termos da excelência artística mostra-se extremamente estimulante para um novato.

Bernardo Bertolucci

Bernardo Bertolucci, à direita, durante a filmagem de ‘O Último Imperador’, na Cidade Proibida de Pequim, na China. Foto de 2 de maio de 1987 Foto: AP Photo/Neal Ulevich

E, desse modo, o jovem Bertolucci já brilha com seu segundo longa, Antes da Revolução (1962), uma adaptação livre da Cartuxa de Parma, de Stendhal, reflexão sobre o sentido das revoluções. Tema que ele reencontraria mais tarde no épico Novecento, 1900 (1976) um painel extenso e emocionante sobre o ímpeto incontornável de mudar o mundo.

1900 faz parte do, digamos assim, “núcleo duro político” da obra de Bertolucci, eixo que nunca deixou de conviver com outra de suas preocupações — a questão da subjetividade humana, em leitura psicanalítica (seu extremo, nessa tendência, seria La Luna (1979) sobre a relação entre filho e mãe em chave edipiana explícita).

Por isso, uma de suas maiores obras, O Conformista (1970), tirado do romance de Alberto Moravia, analisa a questão do fascismo na Itália em suas determinações sociais, mas também nas raízes psicológicas do personagem principal, vivido por um Jean-Louis Trintignant em estado de graça. Ele é o “conformista” do título, pois deseja confundir-se com a multidão; mas é também o reprimido sexual, que transforma seu impulso primário recalcado em ressentimento e violência política. O filme disse muito sobre a realidade italiana da época e talvez ainda tenha umas duas ou três palavras a dizer sobre a atualidade brasileira. Filme a ser revisto em nossos dias.

Bertolucci gostava de apoiar-se em grandes autores. Stendhal em Antes da Revolução, Moravia em O Conformista e Jorge Luis Borges em A Estratégia da Aranha. Neste último, que é outro de seus grandes filmes políticos, Bertolucci inspira-se no breve relato de Borges Tema do Traidor e do Herói, para falar da ascensão de Mussolini e dos crimes políticos na Itália fascista — uma de suas obsessões.

Bertolucci já era amplamente conhecido por esses filmes, mas seu nome tornou-se universal com um sucesso de escândalo como O Último Tango em Paris (1973). Um desesperado viúvo de meia idade (Marlon Brando) inicia caso terminal com uma jovem (Maria Schneider) numa Paris crepuscular. O sexo é menos exercício de prazer ou afeto e mais tentativa frustrada de remediar o vazio existencial. O filme é de uma beleza convulsiva, como recomendava André Breton, e marcou época. Resistiu ao tempo e às tentativas tolas de vinculá-lo a duvidosos bastidores de filmagem. A crítica Pauline Kael comparou a importância do Tango, para o cinema, à da estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, para a música.

Bertolucci, que sabia trabalhar tão bem na contenção como no épico, não deixou de ser mordido pela mosca azul do êxito universal que, no cinema, atende pelo nome de Hollywood. Seu grande êxito nesse terreno foi com grandiloquente O Último Imperador (1987), ganhador de nove Oscars, entre os quais os de melhor filme e diretor. Bertolucci é o único diretor italiano a possuir essa estatueta.

Sua outra incursão oriental, em O Pequeno Buda (1993), não teve o mesmo sucesso — e nem foi apreciado pela crítica. É um trabalho bastante artificial e inconvincente, um dos raros pontos baixos numa carreira em que cumes e cordilheiras são comuns.

Já em outro de seus filmes “americanos”, O Céu que nos Protege(1990), adaptado de Paul Bowles, foi bastante feliz, retomando o tema do estranhamento entre culturas, que também nunca deixou de fasciná-lo.

A fase final de carreira inclui uma bela peça de câmera de retorno à Itália, como Beleza Roubada (1996), uma antevisão do que seria um tema comum nos anos 2000 com O Assédio (1998), uma revivescência dos anos rebeldes do maio francês de 1968 com Os Sonhadores(2003), e a questão familiar em tom minimalista com Eu e Você (2012), seu último trabalho. Pinceladas finais de um mestre, cuja obra há de permanecer.

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