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CIÊNCIA

O Observatório de Arecibo – famoso por Carl Sagan e Joy Division – é desativado

Time Life Pictures / Colaborador / Joy Division/Getty Images

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Se você é vivo e mora na Terra, já viu uma camiseta com a ilustração abaixo. É a capa do álbum Unknown Pleasures (1979), do Joy Division. As 80 linhas – que originalmente eram pretas em um fundo branco, e não contrário – representam 80 pulsos de rádio emitidos pela estrela de nêutrons PSR B1919+21 a 51 anos-luz da Terra e captados pela antena de 304 metros de diâmetro do Observatório de Arecibo, em Porto Rico.

O telescópio começou a ser desmontado na última quinta (19) após dois cabos com importante função estrutural terem arrebentado – um em 10 de agosto e outro em 7 de novembro deste ano. Engenheiros do Exército americano averiguaram que uma obra de reforma e revitalização seria extremamente insegura, já que não é possível garantir que outros cabos não vão arrebentar durante a reposição dos que cederam. O Arecibo também foi danificado pelo Furacão Maria em 21 de setembro.

A capa que simboliza o pós-punk não foi a única contribuição desse imenso equipamento astronômico à cultura pop. Também na década de 1970, o astrônomo Frank Drake, junto de Carl Sagan e outros especialistas, redigiu uma mensagem endereçada a civilazações extraterrestres tecnológicas. Ela continha informações sobre a estrutura da molécula de DNA, a posição da Terra no Sistema Solar, a anatomia humana etc. 

Essa mensagem foi codificada em forma de ondas de rádio e disparada pelo Arecibo em 16 de novembro de 1974 – data da reinauguração do telescópio após uma reforma. O alvo foi o aglomerado de estrelas M13, a 25 mil anos-luz da Terra. Até então, a humanidade era apenas uma observadora passiva do cosmos. Nesta data, deixamos uma impressão digital no tecido do espaço-tempo – uma evidência arqueológica de nossa existência, que permanecerá circulando no vácuo muito após a extinção de nossa espécie.

O telescópio seria retratado posteriormente no livro (que virou filme) Contato, escrito por Sagan.

Pode soar estranho que uma estrela emita ondas de rádio em intervalos regulares – ondas de natureza idêntica às usadas para transmitir a mensagem a potenciais alienígenas espertinhos. Mas embora a palavra “rádio” esteja associada às telecomunicações no imaginário popular, ela significa muito mais do que isso para os astrônomos.

As ondas que usamos para transmitir notícias (rádio), esquentar comida (micro-ondas), enxergar (luz visível), fazer imagens do interior do corpo (raios X) e criar o Hulk (raios gama) na verdade são todas variantes da mesma coisa: ondas eletromagnéticas. A diferença é que cada uma dessas modalidades tem um comprimento diferente – sendo o comprimento a distância entre dois picos da onda. Quando menor o comprimento, mais energia a onda carrega. As ondas de rádio são longas e preguiçosas, os raios X são curtos e energéticos.

Muitos astros emitem ondas eletromagnéticas em todos esses comprimentos; captá-las permite obter informações que a luz visível, sozinha, não oferece. Por exemplo: se um corpo celeste está disparando raios X em quantidade razoável, é porque ele gera um calor e uma luz muito superlativos: não estamos falando de estrelas, e sim de núcleos galácticos ativos, abastecidos pela energia potencial gravitacional de buracos negros supermassivos.

O telescópio de Arecibo foi construído para observar ondas de rádio, e por isso não tinha lentes ou espelhos: consisitia em um enorme disco de 304 metros de diâmetro, deitado no berço esplêndido da mata nativa de Porto Rico, uma antiga colônia espanhola no Caribe que permanece desde o século 19 sob o guarda-chuva dos EUA – ainda que tenha autonomia administrativa e não seja considerada um estado (como é o caso do Havaí).

A estrela de nêutrons PSR B1919+21 foi descoberta pela astrônoma Jocelyn Bell Burnell em 1967 na Inglaterra. Foi o primeiro astro do tipo observado. Na época, ela e seu supervisor pensaram que os pulsos de rádio, por sua regularidade, fossem uma mensagem extraterrestre. Eles apelidaram a observação de Little Green Men (“pequenos homens verdes”). Posteriormente, esse tipo de estrela foi batizado de pulsar

O gráfico da PSR B1919+21 que foi parar na capa do Joy Division foi gerado pelo estudante de doutorado Harold Craft em 1970, usando o telescópio de Arecibo. Estrelas de nêutrons – o nome contemporâneo dos pulsares – são cadáveres de estrelas de alta massa. Uma estrela gera energia fundindo átomos em seu núcleo. Isso gera átomos mais pesados. No final de sua vida útil, a estrela, quase sem combustivel, pega esses átomos mais pesados e os funde novamente, gerando átomos ainda mais pesados.

Quando os átomos fundidos atingem uma certa massa (correspondente ao elemento ferro na tabela periódica) a energia necessária para fundi-los é superior à energia liberada pela fusão. E aí o saldo total de energia fica negativo. Sem liberar energia, a estrela não consegue conter a gravidade e desaba sobre si mesma.

Essa compressão gera um núcleo minúsculo e extremamente denso, que pode colapsar em um buraco negro ou – caso a massa total seja inferior a um certo limite – formar uma estrela de nêutrons.

Uma estrela de nêutrons é tão espremida que funciona na prática como um enorme núcleo atômico. Todos nós somos formados por núcleos atômicos mantidos a uma distância segura entre si por nuvens de elétrons. Nas estrelas de nêutrons, não há nuvens: apenas os núcleos, achatados contra outros núcleos.

A maior parte do volume do átomo – e portanto, do volume do seu corpo e de todos os objetos – consiste justamente na nuvem de elétrons. Sem a contribuição desse volume, as estrelas de nêutrons ficam minúsculas para os padrões cósmicos: têm um diâmetro de algumas dezenas de quilômetro, equivalente a uma cidade como São Paulo. E como a maior parte da massa do átomo está no núcleo, elas também atingem uma densidade altíssima, que corresponde a bilhões de elefantes concentrados em uma caixa de fósforo.

Em certo sentido, a estrela de nêutrons PSR B1919+21 é muito parecida com Ian Curtis, vocalista do Joy Division: ambos morreram em circunstâncias trágicas, mas suas mensagens ainda reverberam pelo cosmos. Os sinais da estrela chegaram à Terra sem querer na década de 1970, de carona em ondas de rádio, após viajar por mil anos-luz. Já os sinais de Ian Curtis viajam pelo cosmos até hoje, em transmissões que um dia alcançaram inúmeros aparelhos de rádio pelo mundo – e hoje viajam pelo Sistema Solar.

Que o Arecibo seja eterno como Curtis e a estrela: sua antena pode ser desmontada, mas suas contribuições à astronomia vão reverberar por séculos – e a mensagem que ele transmitiu, um dia, pode alcançar outros ouvidos, de outras vidas além da nossa.

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