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BELÉM

Pandemia afetou comércio de pipas em Belém

Apesar do momento, ‘pipeiros’ buscam alternativas para manter viva a arte

Foto: Ivan Duarte/O Liberal / Fonte: O Liberal

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A pandemia do novo coronavírus afetou o tradicional e colorido comércio de papagaios e pipas em Belém. E, por esse motivo, os “pipeiros” buscaram alternativas para manter essa arte. Reginaldo da Costa Mourão tem 75 anos e é conhecido como “Cobra”. Tem quase 60 anos de experiência no mercado dos papagaios. Trajetória essa que lhe rendeu o apelido de “Cobra, o Rei dos Papagaios”.

“Sem linha, como o povo vai empinar? Belém toda está sem linha (usada para a confecção do objeto). As fábricas estão trabalhando muito pouco, os funcionários foram mandados embora, outros estão de férias”, disse ele. “A linha fica para Rio, São Paulo. Pra cá, não vem quase nada. A procura está grande, mas não tem linha. A venda não é nem 10% do que era. Se fosse um junho normal, estava ‘estourando’”, afirmou.

No entanto, Cobra informou que de 20 a 30 pessoas vão todo dia em seu ateliê, no Reduto, mas não encontram linha. “Afetou as fábricas de linha. Papagaio é por época. Agora está chegando a época do verão, é nosso verão agora. Passando isso, dá uma parada. Só fim do ano, mas tem o inverno. As vendas são muito reduzidas, pois tem muita chuva. Tem que aproveitar agora. Mas devido a isso aí…”, contou. Ele afirmou que a demanda também aumentava por causa do festival que, todo ano, era realizado no Portal da Amazônia. “Tinha muita procura por causa do evento o Portal, mas foi cancelado. É um lugar bom para empinar, mas ninguém tá podendo empinar lá, a prefeitura não deixa, os guardas, a polícia”, contou.

Pandemia teve lado negativo e também lado positivo, diz “pipeiro”

Otávio Luís Wanderley Lima, conhecido como Otávio Pipas, também tem experiência nessa área. “Pra gente, que trabalha com pipas diretamente, a pandemia teve dois lados. Um lado bom e um lado ruim. O bom é que as vendas começaram um pouco mais cedo e bem mais forte, porque, devido à campanha mundial do “fique em casa”, a gente também aproveitou e tentou conscientizar o pessoal a não ir para a rua soltar pipa. Que, ao soltar pipa, que o fizesse em sua laje ou no quintal de sua casa. Isso fomentou uma antecipação no comércio da venda de pipas, linhas, carretilhas e outros acessórios”, contou.

“O ponto negativo foi que a gente cancelou o nosso evento, o Festival Nacional de Pipas, que, na verdade, se tornaria, este ano, um Festival Internacional. A gente traria gente de outros países para conhecer a pipa no Pará. Há eventos mundiais de pipa no Chile, na França. Este ano, viria uma equipe do Chile para participar deste evento”, explicou.

“O evento estava todo encaminhado. A gente já tinha dado entrada na Fumbel (Fundação Cultura do Município de Belém) e em todos os órgãos. Pessoas com passagens compradas desde o ano passado para vir para o evento em Belém. Pessoas que viriam de São Paulo, Bahia e Manaus. Esse foi um ponto super negativo pra gente. Era a quinta edição do evento, que traz benfeitorias para várias famílias, direta e indiretamente, não só a fomentação da venda de pipas e linhas. Os comerciantes no entorno do Portal da Amazônia (onde esse evento era realizado nos anos anteriores) têm esse festival como o segundo Natal deles. São vendedores de água mineral, água de coco, churrasquinho, o pessoal que aluga mesa. Todo mundo ganha alguma coisa com a realização desse evento, que foi cancelado”, acrescentou. O evento seria realizado nos dias 1, 2 e 3 de maio.

Comerciantes venderam em um mês o que levariam dois meses

Outro ponto negativo apontado por ele: “Vendemos a primeira leva de material e não conseguimos mais comprar material de São Paulo. Devido ao lockdown, as transportadoras não estavam trabalhando frequentemente. Nossos fornecedores não puderam estar transitando em São Paulo, onde a gente compra também material. Não podemos comprar materiais para revender para o os nossos clientes. Falo como lojista e pipeiro. Estamos impossibilitados de fazer nossas reuniões semanais, por causa da proibição de aglomeração. Teve, portanto, 50% de negatividade e 50% de positividade”.

Otávio Pipas disse que as vendas que eram para ser feitas em dois meses foram realizadas em um mês. “Fizemos em um mês e não tivemos mais material para seguir em frente. Esse mês a gente está sem material. E não sabemos se, em julho, vamos ter material, por tudo está muito difícil de conseguir. A pandemia causou a falta desses materiais e encareceu todos os produtos. Tudo ficou muito caro. Esses foram os pontos negativos para o movimento da pipa”, contou.

“Tentamos mais uma vez caminharmos juntos com os órgãos de segurança, conscientizando as famílias a ficarem em casa e usarem a pipa como distração. Não foi fácil a questão do  confinamento social. Na verdade, não está sendo fácil porque não está 100% liberado”, disse. “A questão das crianças não poderem ir ao shoppings, praças, praias, não poderem fazer uma série de coisas. E, por isso, a pipa se tornou uma distração, não só para crianças, mas para pais de famílias, algo para distrair a mente. Esse foi um dos pontos positivo que a gente tentou passar para a sociedade”, afirmou. “A pipa é muito marginalizada. As pessoas só falam dos malefícios, de acidentes, mas não falam o que a pipa pode trazer de benefícios à sociedade”, contou.

Otávio afirmou que hoje, em Belém, cerca de 1.000 famílias vivem diretamente da venda de pipas e linhas e indiretamente mais de 4.000 famílias vivem da renda extra da venda de pipas e linhas na capital. “Em Belém e Ananindeua o movimento é mais forte, organizado. O interior é o espelho da capital. Pipa tem movimento no Pará todo: comércio, brincantes, mas onde tem mais força é na capital”, afirmou. Ele explicou que a pipa é a tradicionalíssima de Belém, feita com tala de miriti e plástico. Já no papagaio é usado um “rabo de pano’. O Pará, disse, é o único lugar, no mundo, que tem o papagaio

Por causa da covid, pessoas voltaram a empinar pipas, diz Rodrigo

Ewerton Rodrigo, o Rodrigo Pipas, disse que o comércio de pipas foi alavancado pela covid-19. Mas que a grande demanda, aliada à pandemia, causou a falta de materiais para a confecção de pipas. “Eu fabrico pipa há mais de cinco anos, e nunca tinha visto uma comercialização tão grande como estou vendo nesse tempo. A pipa está sendo bastante vendida”, afirmou.

“A covid, para nós, alavancou a venda da pipa. As pessoas que estavam muito tempo sem empinar pipa passaram a empinar. E começou a haver falta de material. Muitas pessoas que não estavam mais acostumadas a mexer com tala estão hoje trabalhando com tala, confeccionando a tala, tirando, limpando. Isso era uma raridade acontecer. E, por causa da procura e da falta de material, a pipa passou a ser mais cara hoje. Era um real no ano passado, hoje custa dois reais. Tem gente vendendo até 2,50. A pipa esse ano foi algo sensacional. A venda só vem crescendo. Mas há falta de mercadoria. Demanda foi tão grande que muitas pessoas estão sem mercadoria. A única opção foi irmos atrás da tala. Voltamos a trabalhar com a tala de miriti novamente”, acrescentou.

Rodrigo diz que a pipa deixou de ser uma brincadeira, um entretenimento, “e passou a ser uma comercialização, de forma direta e indireta. Hoje, centenas de pessoas dependem e vivem da pipa”. E a procura maior, nessa temporada, é pela pipa de plástico. “Tudo o que nós queremos é um ‘pipódromo’, onde possamos soltar de forma legal e justa”, disse.

“Eu tenho amor à arte, não deixo a arte acabar. Vi que acabou o bambu, que vem pra gente do Rio de Janeiro e de São Paulo, e passei a trabalhar com tala. Procurei alternativa. A tala do miriti estava há bastante tempo abandonada. Faço pipa de tala, papagaio de tala (o papagaio, aliás, é feito de tala)”. Mas ele alertou: “Se a covid não acabar o mais rápido possível, se não abrirem as fábricas de linha, o que foi bacana no início pode ser agora complicado pra nós. Para a pipa de plástico, não tem problema, pois temos a tala. Agora eu que, trabalho com corte e recorte, com papel diferenciado, com folhas diferenciadas, para mim vai ser bastante complicado”.

Como fazer uma pipa

Material

2 varetas de bambu ou tala de miriti
Fita adesiva colorida,
Tesoura sem ponta,
Papel de seda,
Papel crepom ou seda (para a rabiola),
Linha nº10

Como fazer

1) recorte o papel de seda em forma de quadrado, com aproximadamente 30 cm;

2) cole um dos palitos na diagonal;

3) Faça um arco com o outro palito e cole -o cruzando por cima do palito que já está colado;

4) faça dois furinhos no lugar onde as duas varetas se cruzam (um furo de cada lado);

5) passe a linha pelos buracos e, sem cortá-la, dê um nó. Amarre a linha para puxar a pipa a partir do nó. (mas deixe um espacinho);

6) por último faça uma rabiola bem colorida, com o papel crepom (é só cortar umas tiras de papel crepom colorido) ou papel seda (corte uns pedaços do papel e cole num fio de linha) e depois é só amarrar na pipa (na parte de baixo da vareta reta).

Por Dilson Pimentel

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