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SAÚDE

Como uma dieta equilibrada pode alterar seu humor e evitar até a depressão

Fonte/Foto: G1 Dieta equilibrada pode alterar seu humor — Foto: Getty via BBC

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Cientistas têm investigado com mais atenção nos últimos dez anos o quanto os hábitos alimentares contribuem para nosso estado mental. Esforço fez surgir, inclusive, uma área nova do conhecimento: a psiquiatria nutricional.

Dias ruins mexem com nossa cabeça e apetite. Períodos de estresse fazem não apenas o humor oscilar, mas também a fome. Alguns ficam mais famintos. Outros param de comer. É comum associar ansiedade e depressão a transtornos alimentares.

O que médicos, nutricionistas e psiquiatras têm investigado com atenção nos últimos dez anos é o quanto nossos hábitos alimentares contribuem para nossos estados mentais de euforia e tristeza. Surgiu, inclusive, uma área nova do conhecimento: a psiquiatria nutricional.

Experimentos em laboratório com camundongos têm ajudado a desvendar como a alimentação nos deixa mais felizes ou tristes. A origem disso não está só em nossa cabeça: para entender como a comida altera nosso humor, é preciso olhar também para o intestino.

O que a ciência já sabe

Somos o que comemos. A influência da dieta em nosso estado mental é imensa. Há uma farta literatura médica sobre esse assunto.

De modo geral, os especialistas observam o equilíbrio entre dois grupos alimentares: açúcares e gorduras. É com eles que obtemos a maior parte da nossa energia, mas também são eles que, em excesso, causam desequilíbrios importantes.

Comer mal danifica o cérebro, por um processo conhecido como estresse oxidativo — a liberação de radicais livres de oxigênio no corpo acontece naturalmente e se avoluma com a idade, mas a dieta pode acelerar esse acúmulo.

A obesidade induzida por dietas ricas em açúcar e gorduras saturadas promove resistência do nosso organismo à ação da insulina, hormônio responsável por “colocar” a glicose dentro das células. Isso aumenta a glicemia, que é a quantidade de açúcar presente no sangue.

Persistindo nesses hábitos alimentares, pode ocorrer o desenvolvimento de diabetes. Além disso, gorduras saturadas comprometem o fluxo sanguíneo e causam inflamação nos órgãos.

Mas o que faz bem ao cérebro? Alimentos anti-inflamatórios, gorduras simples (monossaturadas ou poli-insaturadas) e antioxidantes, como frutas, legumes, nozes e vinho, parecem ter um efeito restaurador sobre o órgão, protegendo-o do estresse oxidativo e da inflamação, que afeta o equilíbrio entre os neurotransmissores, responsáveis por regular nossas emoções.

“Já sabemos que dietas ricas em gorduras saturadas e/ou açúcares são capazes de alterar o estado de humor tanto em animais de laboratório como em seres humanos. O consumo de alimentos gordurosos, como as típicas ‘junk foods’, está associado ao aumento de depressão e ansiedade”, afirma Cristiano Mendes da Silva, do Laboratório de Neurociência e Nutrição da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A nutricionista Catherine Ássuka Giriko constatou uma correlação entre dietas ricas em gordura e estados de depressão e agressividade numa prole de ratos adultos cujas mães ingeriram alimentos gordurosos enquanto os amamentavam.

“Usando modelos animais, constatamos que uma gestante cuja dieta é rica em gorduras pode gerar uma prole com atraso neurodesenvolvimental e que tem alterações moleculares importantes na região do cérebro envolvida com processos de memória e aprendizado”, explica Mendes da Silva.

Dieta mediterrânea Bem Estar (arquivo) — Foto: Mariana Garcia/G1

A epidemiologista Camille Lassale, pesquisadora do University College, no Reino Unido, diz que determinados hábitos alimentares podem levar à depressão.

“O vínculo é claro. Não quero dizer que uma dieta ruim nos deixa tristes porque engordamos e nos sentimos mal com o ganho de peso. Nossos hábitos alimentares nos fazem realmente adoecer, mexem com o sistema imunológico, além de afetar a saúde mental.”

Lassale fez uma análise, publicada em 2018 no periódico “Nature Molecular Psychiatry”, em que comparou dados de 41 artigos científicos sobre o tema. Ela concluiu que incluir alimentos anti-inflamatórios na dieta é mais saudável e pode ajudar a prevenir a depressão.

“Indivíduos que adotam dieta mediterrânea (com mais fibras, azeite, verduras, frutas e legumes in natura e poucos produtos processados) tiveram um risco 33% menor de desenvolver depressão do que aqueles cuja dieta menos se assemelhava à mediterrânea”, afirma a cientista.

“De todo modo, creio que a dieta ajuda, sim, a algumas pessoas, e temos agora explicações biológicas de como isso acontece. Dieta e exercícios físicos evitam e combatem a depressão, mas só podem ser vistos como peças de um complexo quebra-cabeças da mente humana.”

Deprimir é inflamar

É difícil dizer não a uma colher de brigadeiro quando alguma coisa vai mal em nossas vidas.

Em situações de cansaço, fadiga ou preocupação, o organismo parece pedir uma recompensa química, na forma de uma descarga de serotonina, um neurotransmissor responsável por nossa sensação de bem-estar, produzida a partir da ingestão de açúcares e gorduras.

Quanto mais simples estes alimentos, em termos químicos, mais fáceis de digerir, e maiores os “picos” de euforia. O açúcar refinado das sobremesas chega mais rápido e de forma mais forte ao cérebro do que quando comemos alimentos mais complexos, verduras e grãos integrais.

Mas o prazer é passageiro, e a glicose em excesso pode prejudicar o funcionamento do nosso corpo. Há evidências neurobiológicas que apoiam a “hipótese neuroinflamatória” da depressão, a qual estabelece que comportamentos de ansiedade e depressão podem ser induzidos por dietas ricas em gordura.

Mendes da Silva explica que uma dieta gordurosa e açucarada compromete o fluxo sanguíneo. O colesterol ruim (LDL-colesterol) se oxida e promove um estado pró-inflamatório no interior de vasos sanguíneos, o que pode gerar uma resposta das células de defesa do organismo (monócitos), que irão fagocitar (“comer”) essas moléculas até “estourarem”.

Isso forma uma camada de gordura de dentro para fora do vaso sanguíneo, conhecida como placa de ateroma, que provocam infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

O mesmo pode ocorrer em nível cerebral: se moléculas desse tipo atravessam a barreira hematoencefálica, que protege o sistema nervoso central, chegam aos neurônios e ativam receptores que disparam uma cascata de reações, entre elas a produção e liberação de moléculas que estimulam a formação de uma inflamação.

“A inflamação reduz os níveis de serotonina, o ‘neurotransmissor da felicidade’, e aumentam o risco de depressão”, diz Mendes da Silva. Ou seja, o mesmo agente da alegria é capaz de perturbar o organismo e causar tristeza depois.

A epidemiologista Débora Estadella, do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp, afirma que o vilão não são alimentos ou nutrientes isolados, mas sim um padrão alimentar.

Boas refeições equilibram os possíveis efeitos nocivos de uma barrinha de chocolate, por exemplo.

“A maior parte dos estudos de nutrição e epidemiologia relata isso, e o que se investiga são padrões macroalimentares, como a análise comparativa entre vegetarianos ou não vegetarianos, os que comem alimentos processados ou não, as dietas regionais, como a mediterrânea, asiática e as ocidentais”, afirma Estadella.

A influência dos micro-organismos

A relação entre o que acontece no intestino e saúde mental é um dos tópicos mais intrigantes e controversos da pesquisa sobre nossa metagenômica, termo científico para o conjunto de bactérias, vírus e fungos que fazem parte de nosso organismo.

Essa abordagem é bastante recente dentro da Medicina e tem se popularizado nos últimos anos.

Os microorganismos que habitam o corpo humano – calcula-se que sejam mais de 100 trilhões – são fundamentais para a absorção de nutrientes, vitaminas e o equilíbrio químico de neurotransmissores. Isso porque eles “quebram” os nutrientes que ingerimos e criam as moléculas que estimulam atividade neural.

A maior parte desse exército está em nossos intestinos, cujas paredes estão repletas de terminações nervosas, no chamado sistema nervoso entérico.

É no intestino, inclusive, que estão 90% dos receptores de serotonina, que além de interferir no humor e inibir a dor, regulam o sono e o apetite.

Embora haja consenso entre pesquisadores de que a metagenômica seja formada nos primeiros anos de vida de um indivíduo, é possível alterar o ambiente intestinal ao longo da vida. Nossas dietas fazem isso constantemente.

“A complexa comunicação entre intestino e cérebro é orquestrada por diferentes sistemas, incluindo os sistemas nervosos endócrino, imune, autonômico e entérico. As bactérias que vivem em nós têm função essencial para que a conexão aconteça”, afirma Estadella.

O trato gastrointestinal secreta dezenas de moléculas diferentes. Essas substâncias podem “ativar” receptores em células do sistema imunológico, permitindo, assim, uma espécie de conversa indireta entre cérebro e intestino.

A relação entre metagenômica, intestino e cérebro tem sido explorada sobretudo em estudos com animais. Mas essas pesquisas dão pistas importantes do que pode ocorrer em nossos organismos.

Um estudo publicado por biólogos belgas no início de 2019, na revista “Nature Microbiology”, concluiu que bactérias Faecalibacterium e Coprococcus podem sintetizar no intestino uma substância derivada da dopamina, o “neurotransmissor do prazer”.

Outro trabalho, de autoria de Julieta Schachter, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com imunologistas de Taiwan, correlacionou a obesidade, o microbioma intestinal — o conjunto de bactérias que habitam este sistema — e a depressão.

“A diversidade de microbiomas intestinais tem sido fortemente associada a distúrbios do humor, incluindo transtorno depressivo maior.

Pesquisas em roedores mostraram um início de comportamento depressivo após transplantes fecais de pacientes com este transtorno. Por outro lado, a indução de estresse e comportamento depressivo em roedores resultou na redução da riqueza e diversidade do microbioma intestinal”, explica Mendes da Silva.

Terapia combinada

A depressão é uma doença de múltiplas causas e prejuízos visíveis. Calcula-se que mais de 300 milhões de pessoas no mundo convivam com o transtorno. A doença atinge mais mulheres que homens. São pessoas que dormem e comem mal, perdem a vontade e a alegria de viver e também a saúde — a Organização Mundial da Saúde afirma que o custo econômico da depressão, em perda de produtividade, é de US$ 1 trilhão ao ano.

Ao longo das últimas décadas, psiquiatras tratam esses pacientes com medicamentos que agem sobre os neurotransmissores. O intuito é reequilibrar a química do cérebro. Apesar do avanço significativo, o tratamento não é eficaz em todos os casos. Além disso, trata-se de uma condição que é frequentemente recorrente. Alguém que tenha tido depressão em alguma fase da vida tem 50% de voltar a tê-la.

Há pouco mais de dez anos, estudos realizados por neurocientistas, nutricionistas e biólogos têm proposto uma abordagem multidisciplinar em relação à doença. A psiquiatria nutricional é um campo emergente que combina descobertas do campo da epidemiologia e dos efeitos das dietas regionais sobre o microbioma no tratamento da depressão.

“Quando alguém recebe uma receita de antidepressivo, os efeitos colaterais mais comuns estão relacionados ao intestino. Muitas pessoas têm náusea, diarreia ou problemas intestinais”, diz Lassale. Para ela, a abordagem nutricional é crucial no tratamento da doença.

O pesquisador Wolfgang Max trabalha no Food & Mood, centro de pesquisa multidisciplinar da Universidade Deakin, na Austrália. O instituto reúne diferentes áreas do conhecimento, como psicologia, dietética, biomedicina e psiquiatria, para entender as formas complexas pelas quais os hábitos alimentares influenciam cérebro, humor e saúde mental. Max afirma que o Food & Mood conduz atualmente 20 estudos sobre a relação entre comida e humor em vários níveis, da microbiologia a ensaios clínicos e saúde pública.

O grupo, do qual faz parte a cientista Felice Jacka, pioneira nos estudos que associaram a qualidade da dieta e a saúde mental de crianças e adolescentes, recomendou recentemente que a psiquiatria nutricional “se torne parte rotineira da prática clínica em saúde mental”.

Max investiga como os polifenóis, compostos encontrados em pimentas, frutas e verduras, agem sobre o microbioma e a saúde mental. “Há nutrientes complexos em alimentos crus ou pouco processados. Carnes magras e outras fontes de zinco, ferro e ômega-3 garantem a ação antioxidante benéfica ao cérebro.”

Estadella, da Unifesp, diz haver evidências fortes de que o consumo de certos peixes e frutos do mar está ligado a uma menor probabilidade de o indivíduo ter depressão, por serem alimentos que contêm o ácido graxo ômega-3. “Ele melhora a fluidez das membranas neuronais. Alguns estudos utilizaram ômega-3 junto com antidepressivos e tiveram resultados positivos”, afirma a pesquisadora.

Mas ela afirma que, antes de mexer com os intestinos e adotar o consumo frequente de alimentos prebióticos, que servem de comida para nossos micro-organismos, e probióticos, que contêm estes micro-organismos, é importante corrigir a dieta e evitar alimentos ultraprocessados e refinados e preferir os integrais.

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Cinco maneiras de prevenir as hemorroidas

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Fonte: noticiasaominuto Foto: Reproducao

A doença hemorroidária é extremamente frequente na população adulta

Estima-se que cerca de metade da população possa sofrer de hemorróidas. As hemorróidas são vasos sanguíneos dilatados, localizados no ânus ou no baixo reto e podem ser internas (dentro do ânus) ou externas (à volta do ânus).

De forma geral, manifestam-se através de perdas de sangue, desconforto, dor e/ou prurido (comichão) na região anal. Algumas situações apenas encontram solução com a intervenção médica, mas o Lifestyle ao Minuto apresenta-lhe cinco formas de prevenir o problema. 

  • Evite estar demasiado tempo em pé ou sentado: isto faz com que a pressão sobre as veias do ânus aumente.
  • Beba entre 8 a 10 copos de água por dia: hidrate o organismo. 
  • Tenha uma alimentação equilibrada e rica em fibras: as fibras são essenciais para o bom funcionamento do intestino e para prevenir a obstipação. Não retire a casca quando comer fruta. 
  • Não ‘prenda’: um dos fatores associados às hemorroidas é a pressão aumentada no abdômen. Ao banheiro sempre que tiver vontade. 
  • Pratique exercício físico: a atividade física obriga o intestino a funcionar de forma regular. 
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Remédio para diabetes usado para emagrecer preocupa médicos

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Ozempic: remédio usado para tratar diabetes também é utilizado na luta Fonte: Exame

Medicamento pode provocar enjoos, vômitos, diarreia e outros sintomas digestivos

Ozempic: remédio usado para tratar diabetes também é utilizado na luta 

Um medicamento lançado no Brasil em 2019 para o tratamento de diabete tem sido utilizado indiscriminadamente para a perda de peso. Isso acontece, muitas vezes, sem prescrição médica nem acompanhamento especializado de possíveis efeitos colaterais, como vômitos, problemas intestinais e no fígado. O uso indevido está sendo impulsionado por grupos no WhatsApp e no Facebook formados por pessoas que trocam dicas e relatos.

Alguns consultam endocrinologistas antes de tomar a semaglutida (nome genérico do medicamento). Outros iniciam o uso seguindo só orientações obtidas na internet, o que eleva o risco de efeitos indesejados.

No Facebook, um grupo fechado para falar sobre o Ozempic, nome comercial do produto, já soma mais de mil membros. Embora em sua descrição, a página não aborde especificamente o uso para a perda de peso, praticamente todos as publicações dos membros são sobre emagrecimento.

São frequentes na página relatos do histórico de quilos perdidos e da ocorrência de sintomas indesejados; indicações das doses mais adequadas para cada caso e até anúncio de pessoas revendendo o remédio. No WhatsApp, as publicações são semelhantes, mas os participantes também trocam dicas de alimentação saudável e mensagens incentivando colegas a seguirem com o objetivo da perda de peso, mesmo após dietas com pouco resultado ou efeitos colaterais do medicamento.

Segundo médicos, o remédio tem atraído cada vez mais adeptos porque, além de poder ser comprado sem receita, só exige uma aplicação semanal (ao contrário de outros medicamentos, que devem ser tomados ou aplicados diariamente).

“Algumas pessoas que usavam outros remédios estão migrando para esse por causa da praticidade do uso semanal, mas é muito perigosa a automedicação”, destaca Lívia Porto Cunha, endocrinologista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

“Esse remédio até pode ser prescrito para obesidade na condição off label (quando o medicamento é indicado para algo diferente do expresso na bula), mas toda indicação desse tipo tem de ser muito criteriosa, feita por um especialista que vai avaliar os possíveis benefícios e potenciais efeitos colaterais”, explica a médica.

Riscos

Diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, Mário Carra concorda e ressalta que o acompanhamento médico é importante porque nem todos os pacientes respondem da mesma forma. “As pessoas querem tratar a obesidade sem ir ao médico. Acontece que as doses podem ser diferentes para cada paciente e há riscos e contraindicações”, destaca.

De acordo com os médicos, entre os efeitos colaterais mais comuns estão enjoos, vômitos e alterações intestinais, podendo o remédio causar tanto constipação quanto diarreia. “O remédio é um análogo de um hormônio que retarda o esvaziamento gastrointestinal, então a pessoa se sente mais cheia, saciada. Se ela mantém o hábito alimentar de antes, comendo a mesma quantidade de comida, pode ter esses efeitos colaterais”, afirma Lívia.

Especialistas ressaltam ainda que o remédio é restrito para gestantes, mulheres que amamentam, pessoas com problemas no fígado ou pâncreas ou com histórico de câncer de tireoide na família. “Há também risco de alergia a algum componente do remédio ou reação inflamatória no lugar da picada”, explica Carra.

Outro problema do uso sem orientação médica é a rápida recuperação do peso perdido após a suspensão do uso. “Quando o alicerce do tratamento é apenas medicamentoso, há grande risco de novo ganho de peso ao fim do tratamento”, diz Lívia. Ela ressalta que a estratégia para perder peso com remédios deve ser complementada com dieta e atividade física.

O laboratório farmacêutico Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, afirmou que “de nenhuma forma endossa ou apoia a promoção de informações de caráter off label” e ressaltou que “o medicamento não foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento da obesidade”.

Histórico

Não é a primeira vez que um remédio para diabete é usado de forma indevida para a perda de peso. Em 2011, o medicamento liraglutida (mais conhecido por seu nome comercial, Victoza) chegou ao Brasil para o tratamento de pacientes diabéticos. Ficou popular, porém, entre os interessados em perder peso. Na época, médicos também fizeram o alerta para os riscos do uso sem acompanhamento. Cinco anos depois, a mesma substância foi lançada para o tratamento da obesidade, mas em nova versão e com dosagens diferentes.

Nas redes, ela criou coragem para tomar

Embora esteja animada com o resultado obtido até agora com o remédio semaglutida, a empresária Luciana Manzo, de 48 anos, demorou a tomar coragem para iniciar o tratamento, mesmo após consultar um endocrinologista. Desde que começou a aplicar o medicamento, há um mês, já perdeu 3,5 quilos, mas conta que teve muito medo de iniciar o uso ao ler relatos de efeitos colaterais na internet.

“Entrei em grupos no Facebook e, quando vi os relatos, fiquei um pouco assustada porque tinha gente que passava muito mal. Embora eu tivesse comprado a injeção no começo de novembro, fiquei por quase um mês com ela na geladeira, sem coragem de tomar”, diz ela.

Luciana decidiu iniciar o uso ao tirar dúvidas com seu médico e, principalmente, ao ser incentivada por outras pessoas nas redes sociais. “Meu médico é de muita confiança, mas eu tinha medo de passar mal. Então fui lendo os relatos no Facebook e decidi criar um grupo no WhatsApp para falar sobre o assunto porque acho que lá os diálogos são mais participativos, diretos e dinâmicos. Teve um rapaz que me incentivou muito, então o grupo me ajudou a criar coragem para tomar.”

A empresária conta que os únicos efeitos colaterais que sentiu até agora foram uma leve dor de cabeça e intestino preso. Diz, no entanto, conseguir contornar os sintomas.

Luciana diz que, mesmo sabendo dos riscos de efeitos colaterais, optou pelo tratamento porque, além de estar sendo acompanhada por um especialista, estava frustrada com outras alternativas que havia tentado para emagrecer.

“Em 2016, tive um problema de saúde muito sério e tive de tomar corticoide. Engordei 15 quilos. Já tentei várias dietas e outros medicamentos, mas não tive o resultado esperado”, conta. “Minha mãe desenvolveu diabete por causa da obesidade e não quero passar por isso, quero continuar tentando emagrecer”, acrescenta.

Frustração

Ao contrário de Luciana, a advogada Cláudia Vieira, de 50 anos, não teve resultado com o uso do medicamento. “Estou usando há um mês e não sinto essa sensação maior de saciedade”, conta. “O problema é que é um remédio caro. Paguei R$ 600, e não estou tendo resultado nenhum”, conta ela.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

1. Como funciona o remédio semaglutida e para quais doenças ele é indicado?

O medicamento é um análogo do hormônio GLP-1, que, entre outros efeitos, aumenta a secreção de insulina e, portanto, é indicado para o tratamento de diabete tipo 2. Ele recebeu o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em agosto de 2018, mas chegou ao mercado só no ano seguinte.

2. Por que o remédio também está sendo usado como emagrecedor?

Porque, embora não tenha sido estudado para esse fim, o hormônio GLP-1 também tem a capacidade de retardar o esvaziamento do estômago, reduzindo o apetite e aumentando e prolongando a sensação de saciedade.

3. Ele foi aprovado para o tratamento da obesidade?

Não. Segundo indicação da bula, deve ser usado somente para o tratamento de diabete tipo 2. Isso porque, embora ele tenha demonstrado efeito emagrecedor, os estudos clínicos foram feitos somente com pacientes diabéticos. Segundo o fabricante do medicamento Ozempic, nome comercial da semaglutida, os estudos mostraram que o remédio promoveu uma redução da taxa de açúcar no sangue, do risco de morte cardiovascular, enfarte não fatal e Acidente Vascular Cerebral (AVC) não fatal.

4. Mesmo sem ser indicado para a obesidade, ele pode ser prescrito com esse fim?

Sim, mas somente por especialistas e com cautela. Os médicos até podem prescrever remédios na condição off label, ou seja, para uma doença ou condição diferente daquela indicada na bula, mas isso deve ser feito de forma muito criteriosa, com a análise do perfil de cada paciente e dos possíveis riscos. Os especialistas advertem que nem todos os pacientes respondem da mesma forma ao remédio.

5. Quais os riscos e efeitos colaterais do semaglutida?

O medicamento pode provocar enjoos, vômitos, diarreia e outros sintomas digestivos. Pode ser contraindicado para gestantes, mulheres que amamentam, pacientes com problemas hepáticos ou no pâncreas, pessoas com alguns tipos de tumor na tireoide ou histórico na família desse tipo de câncer. A análise detalhada dos riscos para cada paciente só pode ser feita por um médico especialista.

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Parteiras renascem com mais segurança e técnicas tradicionais

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Por Heloisa Cristaldo - Repórter da Agência Brasil Brasília

Profissão ainda precisa de auxílio financeiro e regulamentação

Os sonhos frequentes com nascimento de bebês conduziram Naoli Vinaver, de 54 anos, para os caminhos da chamada parteria tradicional. A profissão milenar comemorada nesta segunda-feira (20) tem atraído o interesse de mulheres em todo o país.

Embora seja a única alternativa em diversos municípios, o parto normal e domiciliar auxiliado por parteiras ainda é cercado de mitos e desinformação. Para reverter esse cenário, mulheres que atuam na área buscam regulamentação e visibilidade para se consolidar como alternativa segura e natural.

A parteira Naoli cresceu na área rural de San Andres Tlalnelhuayocan, estado de Veracruz, no  México, e alia o conhecimento biomédico às práticas tradicionais, como aplicação de massagens para aliviar as dores do parto e o uso de chás com plantas medicinais. Ao longo de 40 anos de atividade, mais de 1,6 mil crianças já nasceram por meio de suas mãos.

“Durante três meses fiquei sonhando com partos e todos eles eram mulheres parindo, os bebês nascendo e eu ajudando. Os partos vinham com muitos detalhes, como se eu estivesse assistindo uma televisão e eu tinha que ajudar a essa mãe e esse bebê a um nascimento bem-sucedido. Depois dos sonhos, eu tinha que correr para biblioteca e começar a ler para entender o que eu tinha sonhado em um nível de fisiologia, anatomia, compreensão dos processos dos partos”, conta.

Naoli Vinaver segura bebês gêmeos após parto
Naoli Vinaver segura bebês gêmeos após parto – Arquivo pessoal

Segundo Naoli, nos casos em que atua, a taxa de transferência de mães e bebês para o hospital está abaixo de 2% – semelhante ao registrado pelas parteiras japonesas, consideradas referência no assunto. “Não conto com nenhuma morte materna, nenhuma morte de recém-nascido que não fosse por malformação incompatível com a vida, nenhum bebê morreu na minha mão. Eu me considero bem vinculada com a energia vital, de atrair a vida, de cuidar da vida”, diz.

Em geral, a gestante que opta pelo parto domiciliar com parteiras também faz o acompanhamento com a profissional. Segundo Naoli, o pré-natal inclui toda avaliação padrão, como acompanhamento de pressão sanguínea da mãe, crescimento do bebê, altura uterina, auscultação dos batimentos cardíacos do bebê. Há casos em que a gestante mantém as consultas regulares com médico obstetra.

As consultas com as parteiras, em sua maioria, são realizadas no local onde a gestante fará o parto, se estendem ao período após o nascimento do bebê e incluem o auxílio para amamentação. Quando é identificado risco para mãe ou bebê, o parto domiciliar pode ser descartado.

“É importante que a mulher entenda que biologicamente foi feita numa perfeição para engravidar, parir e maternar. Então, ela tem que reconectar, limpar preconceitos e medos culturais de que ela não é capaz, de que ela não é completa, de que o parto é perigoso. Isso é importantíssimo. A segurança vem do conhecimento, da informação e da conexão dela com o próprio bebê, com os processos do próprio corpo”, destaca.

Clarice Andreozzi atua como parteira em Brasília
Clarice Andreozzi atua como parteira em Brasília – Clarice Andreozzi/Arquivo pessoal/Direitos reservados

Para Clarice Andreozzi, de 44 anos, ser parteira tradicional foi um chamado divino, uma missão espiritual. Há 22 anos ela atua na área e já trouxe ao mundo 262 bebês. A decisão, segundo ela, ocorreu após sofrer violência obstétrica em sua primeira gestação. “A minha experiência de maternidade e pós-parto me colocou no apoio às mulheres. Por toda a violência que eu sofri durante o parto, no trabalho de parto. Uma gestação com pouca informação e um parto de muito desamparo e muita dificuldade me fez com que eu tivesse o desejo de acolher, pelo menos, as mulheres que estavam próximas a mim para que elas não sofressem como eu sofri”, conta.

Formada em biologia, a parteira associa conhecimentos técnicos e a espiritualidade para aliviar dores e facilitar a chegada de crianças ao mundo. “Uso muitas ervas durante os partos, banhos de assento e trabalho muito com a esfera da fé, o que a parteria tradicional acrescenta, que são os usos das ervas, das orações. Alio essa parte da parteira tradicional com o conhecimento da técnica para garantir que o trabalho de parto está desenvolvendo bem”, descreve. “Não tem nada mais gratificante, não tem preço e nem como valorar a grande dádiva de ver bebê chegando de uma maneira harmônica. Cada bebê que eu tenho prazer de receber em minhas mãos é uma benção”, acrescenta.

Segundo Clarice, a mulher que opta pelo parto natural tem que buscar informações. “É necessário ter muita consciência do seu corpo, um pré-natal muito bem feito, alimentação boa, estar consciente”, esclarece.

No Distrito Federal, o acompanhamento por uma parteira tradicional varia de R$ 5 mil a R$ 10 mil. O valor é negociado conforme as condições financeiras das gestantes e inclui tanto o período pré-natal, quanto parto e o atendimento após o nascimento do bebê. O trabalho também pode ser remunerado por meio de trocas – tanto de serviços como bens.

Cenário

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 140 milhões de nascimentos acontecem todos os anos, a maioria sem complicações para mulheres e bebês. A organização considera como “razoável” o índice de 15% dos nascimentos por meio de cesárias. No Brasil, 55,6% do total de partos realizados anualmente são cirúrgicos.

Para reverter esse cenário, a Agência Nacional de Saúde (ANS) realiza uma campanha voltada para gestantes e profissionais de saúde sobre os riscos da realização de cesáreas desnecessárias. Um dos objetivos da campanha é reduzir as altas taxas de cesarianas no país e também melhorar a experiência da maternidade para mães e bebês.

A aprendiz de parteira Mariana Almeida, de 33 anos, atua há seis anos na área para assegurar que mulheres possam escolher o parto domiciliar de forma segura e evitar aumentar as estatísticas brasileiras de partos por cesárias de forma desnecessária. Com apoio de ferramentas da medicina chinesa, como acupuntura, ervas e oráculos, Mariana afirma que “auxilia na comunicação do ventre e coração”.

“O parto não se resume apenas ao momento do nascimento, é necessária uma rede de apoio e atenção à mãe e bebê nas primeiras semanas, que são fundamentais para o desenvolvimento humano. Parto é um evento em comunidade, muitas funções estão envolvidas e ocupo hoje lugares orgânicos de acordo com a necessidade de cada família”, afirma.

Segundo Mariana, é preciso assegurar que o parto domiciliar seja realizado em segurança. “[É gratificante] ver o quão revolucionário é para a vida da mulher e para o desenvolvimento de seu bebê passar por uma gestação, parto e pós-parto, de forma respeitosa, com informação de qualidade, baseada na vida e não na doença, com seus direitos preservados, com autonomia sobre seu corpo e seu bebê. É ver a sabedoria que nos antecede tomando seu lugar de volta”, ressalta.

Possibilidade de escolhas

Segundo a ANS, o parto normal favorece o vínculo do bebê com a mãe, fortalece o sistema imunológico e melhora o ritmo cardíaco e o fluxo sanguíneo do bebê, além de favorecer o aleitamento e promover uma recuperação pós-parto mais rápida e menos dolorosa para a mãe.

A musicista e professora Valéria Lehmann Cavalcanti, de 35 anos, espera seu sexto filho e, pela sexta vez, deve realizar o parto em casa. Com gestações de baixo risco, quatro dos seus filhos vieram ao mundo com a ajuda de uma parteira tradicional.

As parteiras Mayra Calvete (esquerda) e Naoli Vinaver (direita) fazem checagem em bebês após o parto
As parteiras Mayra Calvete (esquerda) e Naoli Vinaver (direita) fazem checagem em bebês após o parto – Ana Paula Andrade/Arquivo pessoal/Direitos Reservados

“Às vezes, as pessoas acham que é falta de conhecimento [a escolha pelo parto normal], pelo contrário. Depois de estudar muito sobre o assunto, decidi por isso. Vi que era o mais adequado, o mais correto para a minha situação, porque não era uma gravidez de risco. Avaliando todas as evidências e pesquisas médicas, vi que é melhor do que ir para um hospital”, conta.

De acordo com a OMS, geralmente, um primeiro trabalho de parto não se estende além de 12 horas. Trabalhos subsequentes geralmente não se estendem além de 10 horas.

“O meu primeiro [trabalho de parto] foi o que mais demorou. Foram oito horas de trabalho de parto e aí depois só foi diminuindo o número de horas nas outras gestações. Achei muito bom poder estar livre em casa, na posição que eu quisesse, com meu marido, em um ambiente totalmente confortável para mim. [Um dos meus filhos] nasceu no chuveiro. Cada filho nasceu em um canto da casa”, lembra. “A melhor experiência que tive foi em uma piscina comprada especificamente para o parto. A água alivia muito a dor. O quarto filho foi tão rápido que não deu nem tempo de entrar na piscina”, completa.

Assim como Valéria, a psicóloga Marília Tomé, de 33 anos, também optou pelo parto natural e teve seu filho, o pequeno Tito, de 5 meses, em uma casa de parto particular, em Brasília. A casa tem estrutura hospitalar com o acompanhamento de obstetras e doulas.

“Não queria nenhuma intervenção médica desnecessária no meu corpo ou no corpo do meu bebê, entendendo que o parto natural é um evento biológico natural da mulher, quando não há nenhum problema de saúde com a mulher ou com o bebê, pode acontecer sem nenhuma intervenção medicamentosa ou hospitalar”, explica. “Em um hospital, existe um protocolo de intervenções onde algumas são desnecessárias e agressivas para o bebê, e a mãe tem pouca participação nessas decisões, muitas vezes até sobre as posições mais confortáveis para parir e aliviar as contrações”, completa.

Regulamentação da profissão

Mayra Calvete com mãe Renata e bebê após o parto
Naoli Vinaver com mãe Renata e bebê após o parto – Arquivo pessoal

Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei (PL) que regulamenta a profissão das parteiras tradicionais. De autoria do deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), a proposta prevê qualificação básica de parteira tradicional, pelo Ministério da Saúde ou por secretarias estaduais de Saúde, além do pagamento de um salário mínimo.

O PL 912/19 estabelece ainda que o Sistema Único de Saúde (SUS) fornecerá às parteiras tradicionais todos os equipamentos, os instrumentos cirúrgicos e os materiais de consumo necessários à adequada prestação dos serviços. Além disso, determina que a parteira deverá encaminhar a gestante ou a parturiente para avaliação médica quando for constatada gestação ou parto considerado de alto risco.

“Utilizando-se de suas mãos, de uma bacia com água e de uma tesoura ou material cortante, fazem o parto de acordo com as condições encontradas no local: à luz de vela, de lamparina ou, até mesmo, de fogueira. Dirigem-se à casa da grávida a pé, a cavalo, de bicicleta, da forma que for possível. E se não fosse pela atuação dessas mulheres resolutas, não temos dúvidas de que a mortalidade materna e perinatal apresentaria números muito maiores”, avalia o autor da proposta, deputado Camilo Capiberibe.

Segundo o parlamentar, estima-se que existam mais de 60 mil parteiras em atuação no Brasil, sendo 45 mil nas regiões Norte e Nordeste. No Estado da Bahia, conforme cálculo da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais, haveria entre 7 mil e 8 mil. No Pará, 6 mil, no Tocantins, em Mato Grosso e em Minas Gerais, mais de 5 mil. Elas são responsáveis pela realização de 450 mil partos todos os anos.

“Mesmo diante da expressividade dos números apresentados, verificamos que as parteiras ainda trabalham em condições muito aquém das desejadas. Isso deve-se, em grande parte, ao preconceito com que a categoria é vista, sendo evidente a resistência que determinadas corporações profissionais oferecem à disseminação do parto humanizado”, argumenta Capiberibe.

Data

O Dia da Parteira Tradicional foi incluído no calendário nacional em 2015. A data tem como base a comemoração celebrada no estado do Amapá, que já homenageava a categoria em 20 de janeiro.  A data é o aniversário da parteira tradicional mais antiga de Macapá, Juliana Magave de Souza. Nascida em 1908, ela teria realizado cerca de 400 partos.

Atualmente, o Ministério da Saúde define como parteira tradicional a profissional que presta assistência ao parto domiciliar baseada em práticas tradicionais e é reconhecida pela comunidade como parteira.

Segundo a pasta, o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais recolocou a melhoria do parto e nascimento domiciliar assistidos por parteiras tradicionais na pauta de discussão com estados e municípios, como uma responsabilidade do SUS e uma atribuição da Atenção Primária à Saúde.

Essas profissionais não são remuneradas pelo governo federal. A pasta informou que, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realiza capacitação de parteiras tradicionais no estado do Amazonas, região onde a prática é bastante estabelecida. Até o momento, 416 parteiras tradicionais foram capacitadas.

Brasília: Mariana Almeida, que está estudando para ser parteira.  (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Mariana Almeida está estudando para ser parteira em Brasília – Marcelo Camargo/Agência Brasil
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