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Respiradores russos comprados pelos EUA vieram de empresa sob sanções americanas

Caixas com equipamentos e suprimentos médicos enviados pela Rússia aos EUA, na quarta-feira Foto: RUSSIAN DEFENCE MINISTRY / via REUTERS

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Equipamentos chegaram aos EUA na quarta-feira após uma conversa entre líderes dos dois países; pagamento também pode ter envolvido fundo sancionado pelo Tesouro

NOVA YORK — A chegada de um avião de carga russo Antonov An-124 carregado com toneladas de equipamentos e suprimentos médicos ao Aeroporto John Kennedy, em Nova York, na quarta-feira, foi recebida com festa pelos controladores de voo e com alívio pelas autoridades locais de saúde.

Contudo, um dos itens a bordo chamou atenção em especial:  um respirador modelo Aventa-M, fabricado pela empresa russa KRET. A companhia está, desde 2014, na lista de empresas sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA, medida relacionada à anexação russa da Península da Crimeia naquele ano. Em tese, a operação pode ser classificada como “humanitária”, ou seja, as regras do Departamento do Tesouro que vetariam esse tipo de compra não se aplicariam. Mas há uma certa burocracia envolvida.

— A Ofac (órgão responsável por aplicar as sanções) sempre pode emitir uma licença interna para uma transação envolvendo uma entidade sob sanções — afirmou Brian O’Toole, conselheiro da Ofac durante o governo de Barack Obama, em entrevista à TV russa RBC. — Mas o governo Trump pode não ter emitido uma licença específica.

Neste caso, os EUA teriam violado as sanções aplicadas pelo próprio governo americano, uma situação que não seria inédita, mas que desta vez está envolta em circunstâncias confusas.

Na segunda-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, ofereceu a ajuda a Trump durante um telefonema, um gesto que o líder americano chamou de “muito bom”. A aeronave com os suprimentos médicos chegou aos EUA na quarta-feira, e era ate entao tratada como uma doação “do povo da Russia” — uma  ideia corroborada pela classificação da viagem como “voo humanitário“.

Contudo, o Departamento de Estado esclareceu, no dia seguinte, que se tratava de uma compra de material acertada pelos dois presidentes. Horas depois, foi a vez da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, trazer uma perspectiva diferente: segundo ela, os EUA pagaram metade do valor da carga, e a Rússia doou a outra metade, usando para isso recursos do fundo soberano de investimentos do país, ironicamente também alvo das sanções dos EUA.

— O Fundo de Investimento Direto da Rússia (nome do fundo soberano) está sujeito a sanções setoriais, que não se aplicam a transações relacionadas a equipamentos e suprimentos médicos — afirmou um funcionário do Departamento de Estado, em entrevista à NBC.

Além dos aspectos político e econômico, a importação americana de itens médicos russos provocou uma onda de críticas aos dois governos. Nos EUA, muitos acusaram a Casa Branca de servir de plataforma para uma ação de “propaganda do regime russo”. Na Rússia, médicos reclamaram que o país não tem equipamentos para enfrentar o coronavírus e, portanto, não deveria estar mandando para o exterior artigos que podem fazer falta em breve.

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