Da Yamada ao Nazaré, a capital paraense viu gigantes regionais sucumbirem enquanto o comércio migra das megastores para formatos menores, atacarejos e telas
Durante décadas, crescer no varejo significou abrir lojas. Em Belém, significou também ocupar esquinas, avenidas e grandes terrenos, criar marcas conhecidas por gerações e transformar o ato de comprar em parte da rotina da cidade. Agora, esse modelo está sob pressão.
No Brasil, cinco grandes redes reduziram em mais de 1.100 o número de lojas físicas desde o fim de 2022: Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza. Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico ganhou espaço e passou a disputar o consumidor diretamente na tela do celular. Belém conhece esse filme há mais tempo.
A capital paraense assistiu, sobretudo a partir dos anos 1990, à consolidação de grandes grupos locais que entenderam melhor o consumidor amazônico do que muitas redes nacionais. Líder, Nazaré, Formosa, Yamada, Amazônia e Cidade formaram uma espécie de muralha regional contra a concorrência de fora. O modelo combinava proximidade, crédito, variedade e conhecimento dos hábitos locais.
O símbolo maior foi a Yamada. Fundado em 1950, o grupo cresceu de uma casa de representações para um império regional de magazines, supermercados, crédito e outros negócios. No auge, chegou a ter dezenas de lojas e milhares de funcionários. A partir de 2016, porém, entrou em uma crise administrativa e financeira que levou ao fechamento de unidades importantes em Belém e no interior e à recuperação judicial.
A história é reveladora porque a Yamada não desapareceu por falta de reconhecimento. Ao contrário: era uma das marcas mais conhecidas do Pará. O problema foi sustentar uma estrutura construída para uma época em que escala significava vantagem quase automática.
O supermercado Nazaré oferece outro retrato. Uma das redes mais tradicionais da cidade, chegou a figurar entre as principais empresas supermercadistas brasileiras por produtividade. A crise levou ao fechamento das lojas e, posteriormente, à transferência ou negociação de imóveis e pontos com o Grupo Líder.
O que está acontecendo em Belém, portanto, não é apenas a substituição de uma loja por outra. É a mudança de uma lógica urbana. A cidade já viu esse processo em outros setores. Mesbla, Visão e Capri desapareceram do mapa comercial. Jinkings, Fox, O Mandarim e outros estabelecimentos tradicionais também ficaram pelo caminho.
A lista de empresas que já foram grandes demais para passar despercebidas e que hoje pertencem à memória afetiva de Belém é extensa. A diferença agora é a velocidade.
O consumidor não precisa mais atravessar a cidade para comparar preços. O concorrente pode estar em outro Estado, até outro país. Em 2025, as vendas online no Brasil movimentaram R$ 423 bilhões, segundo estimativa do UBS BB, equivalente a 14,4% do varejo. A projeção para 2026 é de R$ 518 bilhões.
Em Belém, a resposta tem sido particularmente visível nos supermercados. O avanço do atacarejo, a busca por lojas mais compactas e a ocupação de pontos deixados por antigos concorrentes mostram que o varejo não está acabando. Está mudando de tamanho, formato e endereço.
O Grupo Líder é um exemplo. Enquanto antigas operações desaparecem, a empresa amplia sua presença e reaproveita imóveis que pertenceram ao Nazaré. O movimento não é simplesmente de substituição de marcas. É uma seleção de pontos capazes de produzir mais, com menos estrutura e maior aderência ao consumo atual.
É a mesma lição que emerge do mercado nacional: loja física não morreu. O que morreu foi a ideia de que quantidade, sozinha, representa força. Uma rede pode ter menos lojas e ser mais saudável se cada unidade vender mais, custar menos e estiver conectada ao digital.
Belém, que já viu gigantes virarem lembrança, talvez esteja diante de uma nova seleção natural do comércio. No varejo do passado, sobrevivia quem conseguia crescer. No varejo de agora, sobrevive quem consegue ser relevante sem precisar ser gigante.
Por Paulo Silber (Cidade 091/Imagem: Reprodução)





