Especialista explica quando a doença pode causar sintomas incapacitantes e comprometimentos graves à saúde cognitiva e intelectual
Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
O ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, informou ao Exército Brasileiro que sofre de doença de Alzheimer desde 2018. A informação foi repassada ao Exército durante exame de corpo de delito realizado na terça-feira (26).
O procedimento foi realizado já no Comando Militar no Planalto, em Brasília, para verificar as condições de saúde do militar antes de sua entrada no sistema prisional e para identificar doenças prévias.
O Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que se manifesta com a deterioração cognitiva e da memória, além de comprometimento progressivo das atividades diárias e alterações comportamentais, de acordo com o Ministério da Saúde.
Por ser uma doença progressiva, os sintomas são mais leves nas fases iniciais. Por isso, é possível que o paciente consiga manter a autonomia, capacidade de decisão e preservação funcional em grande parte das atividades cotidianas e profissionais, de acordo com Diogo Haddad, head do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
“O diagnóstico precoce, hoje mais viável graças aos novos biomarcadores e exames de imagem, permite identificar o quadro ainda na fase chamada de Comprometimento Cognitivo Leve amnéstico, quando há alterações de memória e atenção, mas o funcionamento global ainda está preservado”, afirma.
Segundo o especialista, nessa fase, a estimulação cognitiva, a rotina estruturada e a continuidade das atividades intelectuais e sociais são fundamentais.
“Trabalhar, ensinar, ler, escrever, resolver problemas são tarefas que ativam redes neurais que favorecem a compensação funcional e retardam a manifestação clínica mais significativa da doença”, explica. “O cérebro possui uma ‘reserva cognitiva’ que, quando estimulada, ajuda a manter o desempenho mesmo diante da presença de alterações neuropatológicas iniciais”, completa.
Quando o Alzheimer começa a impactar atividade cognitiva?
O Alzheimer pode causar efeitos mais graves na cognição conforme avança, mas o tempo em que isso acontece varia de uma pessoa para outra e depende de fatores como o tipo de trabalho, nível de exigência cognitiva, grau de escolaridade, presença de comorbidades e até o apoio emocional e social que o paciente recebe.
“De forma geral, nas fases leves, muitas pessoas seguem produtivas por alguns anos com adaptações no ritmo e nas demandas de concentração. À medida que o comprometimento de memória, atenção e julgamento se intensifica, as atividades complexas passam a ser mais difíceis de executar com segurança e consistência”, explica Haddad.
Quando a doença evolui para estágios moderados, o impacto funcional se torna mais evidente, segundo o especialista: tarefas que envolvem planejamento, tomada de decisão, responsabilidade sobre outras pessoas ou finanças tendem a ser comprometidas. “Nesse ponto, a retirada gradual do trabalho costuma ser orientada para evitar riscos e preservar a dignidade do paciente”, afirma.
Inclusive, a pessoa diagnosticada com Alzheimer pode solicitar a aposentadoria por invalidez se estiver incapacitada de forma total e permanente para o trabalho. Para isso, é preciso agendar uma perícia médica no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) pelo site ou aplicativo Meu INSS ou pelo telefone 135.
Como manter a cognição boa após um diagnóstico de Alzheimer?
Após o diagnóstico de Alzheimer, é possível cuidar da cognição por meio de mudanças no estilo de vida e maior engajamento intelectual, de acordo com Haddad.
Recomenda-se uma rotina com múltiplos estímulos, como atividades cognitivas (leitura, aprendizado de novas habilidades, jogos mentais), exercícios físicos regulares, interação social, boa qualidade do sono e controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular e metabólico, como hipertensão, diabetes e obesidade.
“Manter-se no trabalho, quando possível e seguro, pode ser benéfico, pois ajuda a preservar a identidade, o senso de propósito e o engajamento cognitivo. O importante é ajustar as demandas à capacidade atual, criando um ambiente de apoio e acolhimento”, afirma o especialista.
“Essa combinação de estimulação mental, suporte emocional e hábitos saudáveis tem mostrado resultados concretos na preservação da função cognitiva e na melhora da qualidade de vida, mesmo diante do diagnóstico de Alzheimer”, completa.
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