Histórias de ex-professoras e costureiras na Cooperbem revelam a transformação do descarte em esperança e preservação ambiental
“Não chame de lixo, chame de material reciclável. A reciclagem a gente transforma”. O tom firme de Maria Raimunda, 67 anos, carrega a autoridade de quem há uma década retira das ruas da capital paraense resíduos que ganham uma nova destinação.
Ao lado de Altamira Fiel, sua companheira na cooperativa Cooperbem, ela personifica a resistência e a consciência ambiental que movem centenas de trabalhadores neste 1º de março, Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis. Mais do que coletar resíduos, essas mulheres resgatam a dignidade de uma profissão que é o verdadeiro pilar da economia circular e da preservação de Belém.
Para Altamira Fiel, a trajetória na reciclagem começou por uma percepção de urgência social e ambiental. Ex-professora de um projeto de alfabetização, a catadora conta que a necessidade de organizar uma cooperativa surgiu ao observar a realidade de áreas como o Telégrafo e a Vila da Barca. “Vimos que era uma área na qual muito material jogado fora ia para baixo das palafitas. Começamos a fazer educação ambiental para que esse resíduo não enchesse os esgotos e as casas das pessoas”, relembra Altamira.
Altamira ressalta que a profissão é fundamental e muda a realidade da capital paraense. “Se tudo o que a gente retira todos os dias das ruas, das casas e do ecoponto fosse para o aterro sanitário seria muito complicado”, alerta a catadora, enfatizando que o trabalho da categoria é o que garante o equilíbrio entre a cidade e a natureza.

Além da coleta, a catadora explica que a CooperBem atua na transformação dos materiais. Altamira explica com orgulho como uma garrafa de vidro pode virar peça de decoração, enquanto o papelão e caixas de leite ganham vida nova como agendas, cadernos e bolsas. “Em vez de descartar esse material, ele contribui para a sustentabilidade e para o alimento de cada catador na sua casa”, pontua Altamira.
Identidade e transformação
A história de Maria Raimunda reforça que a catação é, acima de tudo, uma escolha de identidade. Ex-costureira, ela conta que passou por outras ocupações, mas foi na reciclagem que se encontrou.
“Eu tive outros trabalhos, mas há dez anos estou como catadora e me identifico mais com esse trabalho. Eu até fico brava quando confundem com lixo, porque isso aqui não é lixo. O que retiramos das ruas é material reciclável”, destaca Maria Raimunda.

Ela relata que o trabalho de campo é uma das partes mais gratificantes, pois permite o contato direto com a comunidade. Para Maria, sair às ruas para buscar o material é uma forma de conhecer novas pessoas e histórias, transformando a coleta em um ato de cidadania. Além disso, ela ressalta a importância da capacitação.
“Eu já fiz vários cursos como por exemplo para aprender a manusear o papelão. A gente dá um novo sentido para esse material. Eu gosto de coletar o material também porque me faz ouvir novas histórias e conhecer novas pessoas.”
Ecoponto de Belém: renda e sustentabilidade
A valorização mencionada por Maria Raimunda ganha força com as recentes políticas públicas da Prefeitura de Belém. A CooperBem é uma das parceiras fundamentais na operação do primeiro Ecoponto de Belém, inaugurado em janeiro deste ano. O espaço foi projetado para o descarte adequado de entulhos, materiais volumosos e recicláveis, combatendo o descarte irregular em canais e vias públicas.

Desde a sua inauguração, o Ecoponto já recebeu mais de 30.000 kg de materiais, que em vez de sobrecarregarem os aterros sanitários, retornam ao ciclo produtivo pelas mãos de cooperativas. O local não apenas organiza a gestão ambiental da cidade, mas garante a inclusão produtiva, gerando renda direta para famílias que vivem da reciclagem.
O compromisso com esses profissionais também se estende aos catadores autônomos. Por meio do Projeto Conexão Cidadã, implantado em Belém em janeiro de 2025, a Prefeitura atua na identificação e acolhimento de quem trabalha na informalidade.

Coordenado nacionalmente pela Associação Nacional dos Catadores (ANCAT), com apoio do Banco do Brasil e do Governo Federal, o projeto em Belém une diferentes frentes como Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), Secretaria Municipal de Saúde (SESMA), Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Direitos Humanos (SEMCAD) e Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (SEZEL) para garantir que o catador tenha conhecimento e acesso a direitos básicos, além de políticas de moradia e documentação. É um esforço conjunto para garantir que quem cuida do meio ambiente de Belém também seja cuidado pelo poder público.
Para marcar o Dia Mundial da categoria, a Prefeitura de Belém realizou, na última sexta-feira (27), uma ação integrada no espaço da Rede Catapará. Cerca de 100 catadores participaram de atividades voltadas à saúde e segurança no trabalho, com palestras sobre higienização e segurança no trabalho, encaminhamentos para consultas médicas e emissão de documentos. A manhã também contou com a entrega de cestas básicas e um café da manhã coletivo.
Crédito: Ascom – SEZEL









