domingo, março 1, 2026
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Belém celebra Dia dos Catadores com avanços na coleta seletiva

Histórias de ex-professoras e costureiras na Cooperbem revelam a transformação do descarte em esperança e preservação ambiental

“Não chame de lixo, chame de material reciclável. A reciclagem a gente transforma”. O tom firme de Maria Raimunda, 67 anos, carrega a autoridade de quem há uma década retira das ruas da capital paraense resíduos que ganham uma nova destinação.

Ao lado de Altamira Fiel, sua companheira na cooperativa Cooperbem, ela personifica a resistência e a consciência ambiental que movem centenas de trabalhadores neste 1º de março, Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis. Mais do que coletar resíduos, essas mulheres resgatam a dignidade de uma profissão que é o verdadeiro pilar da economia circular e da preservação de Belém.

Para Altamira Fiel, a trajetória na reciclagem começou por uma percepção de urgência social e ambiental. Ex-professora de um projeto de alfabetização, a catadora conta que a necessidade de organizar uma cooperativa surgiu ao observar a realidade de áreas como o Telégrafo e a Vila da Barca. “Vimos que era uma área na qual muito material jogado fora ia para baixo das palafitas. Começamos a fazer educação ambiental para que esse resíduo não enchesse os esgotos e as casas das pessoas”, relembra Altamira.

Altamira ressalta que a profissão é fundamental e muda a realidade da capital paraense. “Se tudo o que a gente retira todos os dias das ruas, das casas e do ecoponto fosse para o aterro sanitário seria muito complicado”, alerta a catadora, enfatizando que o trabalho da categoria é o que garante o equilíbrio entre a cidade e a natureza.

Altamira Fiel atua como presidente da Cooperativa Cooperbem

Além da coleta, a catadora explica que a CooperBem atua na transformação dos materiais. Altamira explica com orgulho como uma garrafa de vidro pode virar peça de decoração, enquanto o papelão e caixas de leite ganham vida nova como agendas, cadernos e bolsas. “Em vez de descartar esse material, ele contribui para a sustentabilidade e para o alimento de cada catador na sua casa”, pontua Altamira.

Identidade e transformação

A história de Maria Raimunda reforça que a catação é, acima de tudo, uma escolha de identidade. Ex-costureira, ela conta que passou por outras ocupações, mas foi na reciclagem que se encontrou.

“Eu tive outros trabalhos, mas há dez anos estou como catadora e me identifico mais com esse trabalho. Eu até fico brava quando confundem com lixo, porque isso aqui não é lixo. O que retiramos das ruas é material reciclável”, destaca Maria Raimunda.

Maria Raimunda descobriu que trabalhar com reciclagem era o que realmente gostava

Ela relata que o trabalho de campo é uma das partes mais gratificantes, pois permite o contato direto com a comunidade. Para Maria, sair às ruas para buscar o material é uma forma de conhecer novas pessoas e histórias, transformando a coleta em um ato de cidadania. Além disso, ela ressalta a importância da capacitação.
“Eu já fiz vários cursos como por exemplo para aprender a manusear o papelão. A gente dá um novo sentido para esse material. Eu gosto de coletar o material também porque me faz ouvir novas histórias e conhecer novas pessoas.”

Ecoponto de Belém: renda e sustentabilidade

A valorização mencionada por Maria Raimunda ganha força com as recentes políticas públicas da Prefeitura de Belém. A CooperBem é uma das parceiras fundamentais na operação do primeiro Ecoponto de Belém, inaugurado em janeiro deste ano. O espaço foi projetado para o descarte adequado de entulhos, materiais volumosos e recicláveis, combatendo o descarte irregular em canais e vias públicas.

Ecoponto de Belém recebe materiais que são triados e ganham nova destinação pelas catadoras

Desde a sua inauguração, o Ecoponto já recebeu mais de 30.000 kg de materiais, que em vez de sobrecarregarem os aterros sanitários, retornam ao ciclo produtivo pelas mãos de cooperativas. O local não apenas organiza a gestão ambiental da cidade, mas garante a inclusão produtiva, gerando renda direta para famílias que vivem da reciclagem.

O compromisso com esses profissionais também se estende aos catadores autônomos. Por meio do Projeto Conexão Cidadã, implantado em Belém em janeiro de 2025, a Prefeitura atua na identificação e acolhimento de quem trabalha na informalidade.

Projeto Conexão Cidadã já passou por diferentes bairros da capital paraense

Coordenado nacionalmente pela Associação Nacional dos Catadores (ANCAT), com apoio do Banco do Brasil e do Governo Federal, o projeto em Belém une diferentes frentes como Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), Secretaria Municipal de Saúde (SESMA), Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Direitos Humanos (SEMCAD) e Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (SEZEL) para garantir que o catador tenha conhecimento e acesso a direitos básicos, além de políticas de moradia e documentação. É um esforço conjunto para garantir que quem cuida do meio ambiente de Belém também seja cuidado pelo poder público.

Para marcar o Dia Mundial da categoria, a Prefeitura de Belém realizou, na última sexta-feira (27), uma ação integrada no espaço da Rede Catapará. Cerca de 100 catadores participaram de atividades voltadas à saúde e segurança no trabalho, com palestras sobre higienização e segurança no trabalho, encaminhamentos para consultas médicas e emissão de documentos. A manhã também contou com a entrega de cestas básicas e um café da manhã coletivo.

Crédito: Ascom – SEZEL

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