A partir da manhã dessa quarta-feira, 04, o público pode visitar a exposição “Do que reside na passagem”, na Galeria Ruy Meira, localizada na Casa das Artes, em Belém. A mostra reúne obras dos artistas Carla Duncan e Chico Ribeiro, com curadoria de Cristina Viviani, e foi selecionada pelo edital Prêmio Branco de Melo 2025, promovido pela Fundação Cultural do Pará (FCP). A visitação segue até 24 de abril de 2026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, com entrada gratuita.
A exposição propõe uma reflexão contemporânea sobre cidade, corpo e território em Belém, retomando a pintura como campo de investigação crítica sobre o espaço urbano. O encontro entre os dois artistas apresenta diferentes perspectivas sobre a experiência de habitar a cidade e provoca questionamentos sobre a relação entre sujeitos, paisagens urbanas e territórios públicos e privados.
CIDADE, CORPO E TERRITÓRIO
Nas obras, os corpos que vivenciam o espaço urbano aparecem como superfícies marcadas por tensões sociais, políticas e ambientais. A cidade deixa de ser apenas cenário e assume um papel ativo, dialogando e disputando sentidos com os sujeitos que a atravessam.
O periférico surge nas produções não apenas como geografia, mas também como condição social. As pinturas evidenciam como estruturas urbanas aparentemente estáticas, como vias, edificações e muros, podem carregar marcas de desigualdades que atingem populações que vivem à margem das dinâmicas hegemônicas de poder. Nesse contexto, gestos como plantar na cidade ou pintar em espaços públicos aparecem como formas de questionar modelos urbanos estabelecidos.
Entre feiras e praças do centro de Belém, Carla Duncan revela a beleza do cotidiano. Seus retratos destacam personagens que ocupam espaços da cidade associados tanto aos cartões-postais quanto a processos de marginalização social.
Já Chico Ribeiro amplia a noção de corpo em suas pinturas ao incorporar corpos d’água e elementos vegetais que disputam território com o asfalto. Dessa forma, o urbano é apresentado como uma paisagem viva, marcada pela presença de elementos naturais que resistem e reconfiguram o espaço.

DIÁLOGO ARTÍSTICO
Segundo a curadora Cristina Viviani, o processo de construção da mostra foi marcado pela afinidade estética e pelo diálogo entre os artistas.
“O processo de curadoria com os artistas foi muito prazeroso. Eles já se conheciam e têm afinidades técnicas e poéticas pela pintura. O diálogo entre os dois é instintivo, tanto por conta das trajetórias dos dois artistas, que se cruzam, quanto pelas dimensões e técnicas das obras. Cada um traz uma particularidade muito bonita que complementa a do outro. Ainda que estejam pintando temas distintos, ao fundo há um cenário em comum de viver e sentir o que é ser amazônico na atualidade”, destacou.
Cristina também ressaltou a importância de políticas públicas de incentivo à cultura, como o Prêmio Branco de Melo, para ampliar o acesso e fortalecer a produção artística local.
“É muito importante, porque se cria um espaço e uma oportunidade para artistas que estão fora do circuito institucional de galerias e museus exporem seu trabalho. No caso da Carla e do Chico, cria-se um diálogo entre dois artistas jovens que estão olhando para as complexidades e singularidades paraenses. Ambos criam recortes afetivos ao mesmo tempo em que denunciam as mazelas do território. Um edital voltado para ocupações de seus espaços museais está preocupado não apenas em expor o que tem sido produzido sobre o território, mas também com o acesso a essa produção artística pela sua população”, afirmou.
NARRATIVAS DA AMAZÔNIA
Ao eleger a pintura – suporte historicamente associado ao cânone artístico – como linguagem central, os artistas propõem uma ressignificação simbólica. A tela deixa de exaltar figuras oficiais ou paisagens idealizadas e passa a afirmar narrativas conectadas às experiências amazônicas contemporâneas.
A partir de vivências enraizadas na Grande Belém, Carla Duncan e Chico Ribeiro evocam temas que atravessam a história da região desde o período colonial até os dias atuais, abrindo novas possibilidades de imaginar a cidade para além das ideias tradicionais de progresso urbano.
Serviço:
Exposição: “Do que reside na passagem”
Local: Galeria Ruy Meira – Casa das Artes (Rua Dom Alberto Gaudêncio Ramos, 236, bairro Nazaré, Belém)
Período: 4 de março a 24 de abril de 2026
Visitação: Segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
Entrada: Gratuita
Texto: Aicha Nunes/Agência Pará de Notícias









