Eram meados de 86/87 e eu um menino sempre muito curioso, na idade do meu sobrinho Natan, também cheio de curiosidade, despertei para uma das maravilhas da época, o videocassete.
Lógico que isso demorou pra chegar lá pelas bandas da Cohab (conjunto residencial onde morávamos), afinal ainda tínhamos uma TV Semp Toshiba com os defeitos “consertados” por papai, tendo como seletor de canais um alicate e como controlador de volume uma ponta de caneta Kilométrica.
Não reclamo de nada, pois aquela televisão nos deu muitas alegrias, como a Coca-Cola estourada por papai como champanhe, a quando da bandeirada final do jogo do Enduro, a Copa de 86, Olimpíadas de Seul etc.
Mas bem, vamos ao que interessa! Despertei a curiosidade pelo videocassete quando me deparei com alguns, no perfumado quarto da tia Rúbia, andar superior do imóvel na travessa Vileta, 548, na casa de vovó Colêta.
Olhava, olhava e sempre quis tocar, utilizar, saber como é, e um controle remoto então!
A tia, sempre muito apressada, sempre correndo, um dia compadecida, e ao seu estilo rápido me presenteou com instruções e com filmes locados para que eu pudesse me deleitar no videocassete.
Como ela passava pouco tempo em casa teve o cuidado de deixar instruções bem detalhadas numa folha de papel almaço, escritas com uma letra perfeita que saltaram meus olhos, pois eu poderia me utilizar da maravilha da modernidade, poderia me sentir no que em dias de hoje é chamado de “inclusão digital”.
Papai que me levara à casa de vovó para mais tarde me buscar, ficou comigo. Até hoje não sei se ficou com medo de que meu dedão desastrado pudesse causar algum dano ao controle remoto do aparelho, ou se quis ficar para simplesmente ter a mesma emoção que eu tive.
Pois bem, começamos a manusear os videocassetes. Meus olhos brilhavam, estava valendo mais do que ver o filme em si.
Naqueles filmes locados pela tia tinha o “De volta para o futuro”, de um diretor novato, um tal Steven Spielberg.
Papai sugeriu este tal “De Volta para o Futuro”, dizendo que iria ver o início, mas que logo sairia para realizar algumas tarefas e me buscar à tarde.
Resultado, vimos todo o filme e ele na sua calma ia me explicando tudo. Isso mesmo, ele não saiu logo como pretendia. Ficou até o final do filme. Não sei o motivo até hoje, talvez ele se lembre, e me conte.
Ontem vi pela 23014897146514987416574 vez o filme “De volta para o futuro”, agora na minha TV HD, com minha Sky HD de centenas de canais, com meu Home Theater Blu Ray 8.1 canais, mas com a mesma emoção daquele menino que tinha em casa uma TV que mudava o canal com um alicate (o botão estourara) e aumentava o volume com uma caneta Kilometrica e estava tendo contato pela primeira vez com um videocassete, coisa que talvez meus filhos e até mesmo meu sobrinho Natan, nunca terão esse contato.
Ao término dessa recente e inumerável revisão do dito filme, fiquei pensando. Lembrei de papai naquele dia. Lembrei que a vovó perguntou se o mesmo não iria sair e ficamos ali, por mais de duas horas, foi inevitável vir à minha cabeça o pensamento de proteção. O que será que poderia ter ocorrido com papai naquele dia se ele tivesse logo saído? Lembrei do caso do filho que pediu ao pai para que ficasse em casa no dia 11/9, sendo salvo da explosão das Torres Gêmeas, onde trabalhava. E assim ficamos.
Quando tirei essa foto, lá em Los Angeles, Califórnia (EUA), lembro de ter me arrepiado, me emocionado, recordando aquele dia inesquecível de minha infância! E lágrimas de emoção escorreram de mim, pois, o DeLorean, o carro que leva o personagem Marty McFly do passado ao futuro, fez, faz, e fará sempre parte de minhas (nossas) doces lembranças.
*Este texto foi escrito por meu filho advogado Hermom Dias Monteiro Pimentel, que me enviou por e-mail em 13/01/2014, junto com uma foto sua próximo ao automóvel DeLorean, após uma de suas viagens aos States.
Por Roberto Pimentel
*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ








