quinta-feira, fevereiro 12, 2026
Desde 1876

LITERATURA – Remexendo lembranças

Recordando situações familiares, remexendo suas lembranças, uma das que sempre afloram é a última ida à praia com seus irmãos e seus pais, diferente das demais porque daquela vez havia, não era apenas a já conhecida ansiedade do passeio, mas um fio de ilusão, um fio de esperança.

Lembra que seus pais passaram a contender mais do que de costume, chegando à separação quando ele estava prestes a atingir a maioridade, quando começava a se soltar, a sair com os amigos e ter a tolerância de seu pai, para sair com o carro, isso depois dele fazer numerosas recomendações. E o pai não dormia, ou se dormia, dormia preocupado, mas, nunca foi decepcionado nesse item, pois o retorno era sempre bom.

As discussões se acentuaram. Na cozinha, na sala, no quarto. E ele e seus irmãos viam inevitável a separação. Não sabe bem o que levou o casal a romper o casamento que parecia ser um modelo, quando prestes as bodas de prata.

Pelo que acompanhou, nunca viu motivo para a separação, mas deve ter havido. Os cônjuges se reservam a alguns motivos não revelados, por discrição ou para não horrorizar os circunstantes. E no fim são esses detalhes que prevalecem. Inacessíveis a parentes e amigos, acabando por pesar na decisão.

O pai era funcionário público da rede ferroviária e para afastar-se, não ficar na cidade em que moravam, conseguiu ser transferido para outro lugar e depois para mais distante, de onde, em um de seus telefonemas, falou que lá havia uma linda praia, da qual nunca sonharam ir. E ele e seus irmãos pediram para ir passar alguns dias naquele lugar, tendo o pai concordado.

Quando a mãe soube dessa programação resolveu pegar carona na trupe e pediu que consultassem o papai se ela podia ir, tendo ele não se oposto a ida da mãe para acompanhar os filhos.

Os dias que antecederam a viagem foram de grande expectativa e maior foi a que se apossou dele durante a viagem. Foram quase vinte horas viajando com paradas demoradas e cansativas em cada estação de passageiros. Procurava guardar cada detalhe hoje sempre lembrado. Situações engraçadas, expressões caipiras de passageiros intermediários, vendedores de lanches e gente perambulando nas estações.

Finalmente chegaram e se hospedaram na mesma casa em que o pai morava e ocuparam um grande quarto de hóspedes.

Sentiu como em anos atrás, mesmo que o pai estivesse em outro cômodo. Fez de conta que estavam em situações passadas, quando o pai ia dormir em outro quarto, mas estava em casa.

Sua esperança era de que aquela atmosfera de aproximação fizesse seu pai rever sua posição e voltasse com sua mãe. Esperava que fosse uma questão de tempo.

No dia seguinte passearam pela cidade e na hora do almoço seu pai almoçou com eles. Conversaram, riram, trocaram impressões como nos velhos tempos, recordaram situações familiares engraçadas que haviam convivido. Parecia até que não houvera solução de continuidade.

À noite seu pai voltou a sair com todos, mostrando pontos históricos da cidade.

No terceiro dia chegou o momento que ele mais esperara. Iriam à praia. Foi uma viagem inesquecível. No deslocamento à praia seus olhos bebiam a paisagem que estimulava aqui, ali e acolá uma parada para as fotografias.

A época em que viajaram ocorrera após o término das férias, quando todos os turistas e veranistas tinham deixado o lugar para onde tinham viajado. E assim encontraram uma praia quase deserta, havendo ali no máximo umas vinte pessoas, provavelmente daquele lugar, mas espalhadas. Melhor, a praia ficaria quase somente para eles.

Lembrou que em épocas passadas quando iam à praia, quase sempre fora de época. Todo ano planejavam passar uma semana durante o período de férias nas praias em que visitavam. Queriam encontrar colegas, professores e pessoas importantes na praia. Mas sempre surgia um problema e outro para frustrar os planos de passeio. E quando era resolvido o problema principal, o pagamento mensal de seu pai, o período de férias tinha acabado.

Reclamavam, protestavam, diziam que não havia mais graça, que não queriam mais ir, mas no fim o pai mansamente os convencia e assim na madrugada seguinte lá iam todos com os olhos brilhantes e os corações ardentes de emoção. Alguns deixavam para dormir no carro, pois a noite era de total insônia, espécie de vigília pela grande ansiedade povoada de planos.

E quando chegavam ao local escolhido já não havia ninguém e a praia ficava só pra eles. Assim, tinham a atenção especial, redobrada e quase exclusiva de vendedores querendo ganhar os últimos trocados daquela estação de verão com os turistas retardatários.

Terminada a excursão voltavam felizes, esquecidos de que foram veranistas extemporâneos, porque fora aconchegante a viagem e podiam falar das férias com os colegas da escola.

Naquele último passeio juntos à praia passaram a ser o único alvo do dono de uma venda de refeições e lanches que os dispensou toda sua atenção e seus recursos disponíveis, servindo-lhes como se fossem milionários astros do show bizz. Pescaram, nadaram, conversaram, riram, brincaram, conversaram com os vendedores que se redobravam em atenções.

A um momento ele viu pai e a mãe conversando animadamente, rindo, levando a imaginar que a reconciliação conjugal estava próxima, parecendo se dar bem. Sentiu como em anos atrás.

Tiraram fotos e mais fotos e, no final da tarde retornaram. Mas, reparou que nada de novo acontecera. Os pais continuavam estranhos e distantes.

Ainda passaram mais um dia ali e depois retornaram com os olhos fixos no pai que ficara acenando da estação.

Foi aquela a última vez que foram juntos, pai, mãe e filhos a uma praia. E isso ficou gravado em lugar especial no museu da terra do coração. Lembranças que sempre as remexe com saudade.

Por Roberto Pimentel

*Autor é delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, escritor, poeta e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ

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