A descoberta de belas paisagens que se tornam destinos durante as férias no verão amazônico não apenas causa a ocupação desordenada por turistas e novos habitantes, mas também chama a atenção de autoridades ambientais para o desejo de torná-las Áreas de Proteção Ambiental (APA) e incentivar o monitoramento de bioindicadores da região para manter uma conservação eficaz.
Entre os organismos utilizados para esse acompanhamento biológico, estão os bentônicos (crustáceos, moluscos e ouriços-do-mar), por serem de fácil coleta e sensíveis às variações ambientais. No entanto as observações mais comuns desses seres são com aqueles que fazem parte da macrofauna, que engloba os animais visíveis a olho nu. Todavia, no espaço entre os grãos de areia e no fundo das águas, estão os que habitam a meiofauna: são seres microscópicos, mas essenciais para medir a qualidade da água, por exemplo.
Na meiofauna, há o grupo dos ostracodes, pequenos crustáceos aquáticos que podem indicar mudanças físico-químicas do ecossistema com base na análise da estrutura de suas carapaças. Sabendo disso, o geólogo Mauricio Brito investigou como organismos da meiofauna presentes na Praia do Farol e na Praia da Flexeira, em Cotijuba, podem apontar a qualidade da biodiversidade de uma das ilhas paraenses mais visitadas no verão.
Morfologia e ação humana nas praias: impacto na diversidade da fauna
A escolha das praias não foi por acaso. “A Praia do Farol é uma das mais procuradas pelos banhistas, pela proximidade com o terminal hidroviário e com a área urbana. A da Flexeira tem menor procura pelo difícil acesso e ausência de infraestrutura. Pude comparar a assembleia de ostracodes e demais grupos da meiofauna em uma praia mais e em outra menos antropizada”, explica Mauricio Brito.
Para compará-las, o pesquisador utilizou duas verificações: a primeira foi uma caracterização morfodinâmica em cada ambiente. Utilizando a paleobiologia da conservação, coletou amostras de sedimentos em diferentes zonas de variação de marés e períodos (mais chuvoso, transicional e menos chuvoso), visando à diferença de distribuição de nutrientes.
“Essa técnica avalia a preservação dos organismos da meiofauna, traçando uma linha temporal das características ambientais. Nesta sondagem, fizemos diversas coletas nos sedimentos: quanto mais profunda, mais antiga a amostra. Há uma reconstrução do ecossistema e observam-se as respostas pelas variações das assembleias com organismos mais antigos, recém-mortos e vivos. Como não conseguimos encontrar organismos mais antigos, vimos que, quando eles morrem, não conseguem mais fixar no sedimento e são menos conservados, mostrando a força da maré na região”, afirma o pesquisador.
A Praia da Flexeira apresentou melhores resultados em abundância, já que 89% dos ostracodes foram encontrados em suas amostras, com grande diversidade de outros grupos, sendo 10 de diferentes filos. Além disso, a pesquisa calculou a influência da inclinação das praias. A Praia da Flexeira é considerada dissipativa, pois tem inclinação mais suave e ondas de menor energia na face da praia. Essa característica auxilia no acúmulo de sedimentos mais finos e de matéria orgânica, essenciais para a sobrevivência e alimentação desses organismos.
Já a Praia do Farol, considerada reflexiva, de maior inclinação e sedimentos mais grossos, impede a fixação de matéria orgânica para a permanência da ostracofauna, sendo, portanto, menos numerosa e diversa nas espécies. Além da razão morfológica, existem os impactos antrópicos: a ocupação da praia para fins turísticos, que substituiu parte da vegetação original para abrigar restaurantes, o que pode ter contribuído para alterar a deposição dos sedimentos. Além disso, a maior turbulência das águas em sua região, sobretudo pela proximidade com o terminal hidroviário da Ilha, também é um potente fator.
Mas a Praia do Farol também apresentou questões positivas: foram encontradas boas quantidades de insetos aquáticos da ordem Trichoptera, altamente sensíveis à poluição, o que indica que, apesar da exploração humana, existem teores saudáveis de preservação da fauna.
O clima também impacta os pequenos organismos
A segunda análise foi a bioquímica das águas associada às questões climáticas, especialmente pela variação pluviométrica. Na Praia da Flexeira, por exemplo, o período transicional apresentou certa acidez nas águas, pois, com o aumento das chuvas, há maior escoamento superficial e transporte de matéria orgânica da vegetação para a água, o que muda seu Ph.
O pesquisador também descobriu uma espécie exclusiva de ostracode na Praia do Farol: a Cyprideis cotijubensis sp. nov., que apresentou um exemplar de carapaça pouco calcificada, podendo estar relacionada com variações no pH e a baixa salinidade da água. “Esses dados também chamam a atenção para o controle das mudanças climáticas, que afetam até os menores organismos”, ressalta Mauricio Brito.
Para ele, estudos que incentivem o monitoramento de uma fauna pouco explorada, mas com potencial bioindicador, são essenciais para uma preservação efetiva. “As pessoas vão às praias e acham que é só para aproveitar o verão. Mas tudo ali tem vida. Dentro de sedimentos e nas águas, existem milhões de organismos sobrevivendo. É preciso criar ações que considerem as singularidades de cada praia”, finaliza o autor do estudo.
Como forma de alerta e divulgação científica, a pesquisa resultou na construção da cartilha Preserva Amazônia, que explica os atuais e principais dados científicos da biodiversidade de Cotijuba, além da importância para a região amazônica. Você pode acessá-la clicando aqui.
SOBRE A PESQUISA:
A dissertação Análise ecológica da Ostracofauna (Crustacea) e Meiofauna Bentônica associada como bioindicadores ambientais na Ilha de Cotijuba, Belém (PA), Amazônia foi defendida por Mauricio de Souza Brito, em 2025, no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia (PPGOC/IG), da Universidade Federal do Pará. A pesquisa teve a orientação da professora doutora Ana Paula Linhares Pereira.
Por Karina Moraes/Foto: Geovani Luz/Jornal Beira do Rio/UFPA





