sábado, agosto 15, 2026
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Pesquisa destaca importância da bacia hidrográfica onde estão os lagos Bolonha e Água Preta

Se vives na Região Metropolitana de Belém, com certeza, já ouviste falar dos lagos Bolonha e Água Preta, principalmente durante aquele passeio de domingo no Parque Ambiental do Utinga. Isso porque é nessa localidade que estão situados esses dois mananciais responsáveis pelo abastecimento de cerca de 70% das torneiras em toda a capital paraense. Mas, apesar de sua importância, os lagos enfrentam desafios ambientais devido ao crescimento urbano e à falta de saneamento básico, o que pode levar à degradação da qualidade da água e à diminuição da biodiversidade local.

Essa constatação vem da pesquisa Análise da dinâmica da cobertura e uso do solo na bacia hidrográfica dos lagos Bolonha e Água Preta, Belém, Pará, de Jackison Mateus Lopes Barros. O trabalho analisa as mudanças no uso e na cobertura da terra ao longo dos anos, a forma como ocorreu a gestão da bacia hidrográfica em que estão localizados e a importância da manutenção das áreas de vegetação para a conservação dos seus recursos hídricos. Nesse contexto, a criação de unidades de conservação, como o Parque Ambiental do Utinga e a Área de Proteção Ambiental (APA), se faz fundamental para a recuperação da vegetação local. Ainda assim essas áreas precisam ser constantemente monitoradas e preservadas.

Os lagos Bolonha e Água Preta constituem importantes mananciais utilizados no sistema de captação e tratamento que atende a uma parcela significativa da população da Região Metropolitana de Belém. Eles se caracterizam como microbacias pertencentes à Bacia Hidrográfica do Murutucum, onde estão as nascentes dos mananciais “Buiussuquara”, “Catu” e “Utinga”. Obras de engenharia deram origem aos lagos nos anos de 1945 a 1951. “Esta bacia possui uma importância histórica, pois é usada para o abastecimento da Região Metropolitana de Belém desde 1887, quando as águas dos mananciais “Aureliano”, “Buiussuquara” e “Antão” eram extraídas da mata do Utinga por um sistema de canalização”, explica o pesquisador.

Considerando que a bacia abriga os principais mananciais utilizados no abastecimento de água de Belém, o estudo mostra que, ao longo do tempo, grande parte das bacias urbanas sofreu aterro de áreas alagadas, canalização de igarapés, supressão de vegetação ciliar e ocupação de várzeas e planícies de inundação. Além disso, o aumento populacional nas áreas de bacias hidrográficas também afeta diretamente o sistema público de abastecimento de água, tanto em termos de quantidade, quanto de qualidade da água disponível.

Urbanização desenfreada traz consequências

Com o crescimento populacional na Região Metropolitana de Belém, cresce também o consumo de água para uso doméstico e industrial, o que exige maior captação de água dos mananciais que abastecem a cidade, acarretando o aumento da pressão sobre a infraestrutura de captação, tratamento e distribuição. O crescimento urbano frequentemente resulta, ainda, no lançamento de esgoto doméstico, descarte inadequado de resíduos sólidos e ocupação irregular de áreas de proteção. “Esses processos podem contaminar igarapés, lagos e aquíferos que contribuem para o abastecimento público. Quando a água captada apresenta pior qualidade, as estações de tratamento precisam utilizar mais produtos químicos e processos adicionais para torná-la própria para consumo”, continua Jackison Mateus.

Na pesquisa, o aumento populacional em Belém foi registrado de forma indireta por meio da análise multitemporal de imagens de sensoriamento remoto utilizando a abordagem Geographic Object-Based Image Analysis (Geobia), por meio da qual foram observadas imagens coletadas entre os anos de 1984 a 2023 (missão Landsat). A técnica consiste em segmentar as imagens em diferentes partes homogêneas em cor, textura e forma. Com base nas respostas espectrais dos pixels das imagens, cada segmento foi classificado de acordo com as classes analisadas, entre as quais: Lagos (corpos hídricos em geral), Macrófitas (conjunto de plantas aquáticas desenvolvidas nas superfícies dos lagos), Floresta (floresta ombrófila, nativa e secundária), Pastagem (vegetação herbácea com pequenos arbustos) e Ocupação urbana (assentamentos urbanos).

Os resultados indicam que, considerando a bacia hidrográfica dos lagos estudados, a classe florestal representou o maior aumento, de 1.589 hectares (ha), em 1984 (39,6%), para 2.143,8 ha, em 2023 (53,4%). “Uma comparação para o leitor ter uma noção dessa mudança, um hectare equivale a mais ou menos um campo de futebol, então uma perda de vegetação, por exemplo, de 200 hectares equivale aproximadamente a 200 campos de futebol”, explica o autor.

Já a pastagem teve o maior declínio, caindo de 1.315 ha, em 1984 (32,7%), para 714,2 ha, em 2023 (17,7%). A área urbana apresentou um leve aumento, de 703,1 ha, em 1984 (17,5%), para 836,4 ha, em 2023 (20,2%), semelhante ao aumento de macrófitas aquáticas, de 57,5 ​​ha, em 1984 (1,4%), para 134,5 ha, em 2023 (3,3%). Consequentemente, a cobertura lacustre diminuiu de 8,9% para 5,3%, sendo este último caracterizado pelo ambiente com presença de água doce em interação com vegetação, animais e minerais. Em contraste com a expansão das macrófitas aquáticas, as classes de lagos perderam área, diminuindo de 357 ha, em 1984 (8,9%), para 210,6 ha, em 2023 (5,2%).

Bacias hidrográficas auxiliam na regulação climática

As bacias hidrográficas de Belém são compostas principalmente por igarapés, canais naturais, canais retificados ou urbanizados. Uma bacia hidrográfica é uma área da superfície terrestre delimitada por divisores de água (geralmente áreas mais elevadas do relevo de solo). Outro aspecto relevante é a atuação da bacia na regulação climática local. As áreas vegetadas auxiliam na manutenção da umidade do ar, no sequestro de carbono e na mitigação dos efeitos das ilhas de calor urbanas, desempenhando papel importante no equilíbrio ambiental da cidade. Entretanto a crescente expansão urbana no entorno da bacia representa um desafio para sua conservação.

Sob a perspectiva ambiental, a área está inserida no entorno do Parque Estadual do Utinga, um dos mais importantes remanescentes de vegetação da Amazônia urbana. A cobertura florestal presente na bacia contribui para a proteção dos recursos hídricos e manutenção da qualidade da água. Além disso, a área abriga significativa biodiversidade, funcionando como refúgio para diversas espécies da fauna e flora amazônicas. “Vale ressaltar que este estudo foi finalizado antes da construção da Avenida Liberdade, então a quantidade de área vegetada que foi perdida não foi quantificada”, observa Barros.

Como exemplo, em Maine, nos Estados Unidos, estudos observaram que o Lago Sebago necessita de aproximadamente 79% de cobertura por vegetação permanente para manter a qualidade da água e sustentar seus serviços ecossistêmicos. No caso da bacia dos lagos Bolonha e Água Preta, a área de vegetação permanente hoje está em torno de 53%. Embora esse percentual ainda seja inferior ao observado no exemplo norte-americano, ele representa uma melhora significativa em relação ao primeiro ano analisado, quando a cobertura vegetal era inferior a 40%.

Considerando as variáveis analisadas no estudo, o pesquisador elenca como principais medidas para melhorar as condições socioambientais das bacias da Região Metropolitana de Belém: ampliar o saneamento básico, controlar a expansão urbana desordenada, recuperar áreas de preservação permanente, proteger os mananciais de abastecimento, aumentar as áreas verdes urbanas e fortalecer o monitoramento ambiental por sensoriamento remoto. “Essas ações contribuem para reduzir a poluição, preservar a qualidade da água e garantir maior segurança hídrica para a população”. conclui.

Sobre a pesquisa:

A dissertação Análise da dinâmica da cobertura e uso do solo na bacia hidrográfica dos lagos Bolonha e Água Preta, Belém, Pará” foi defendida por Jackison Mateus Lopes Barros, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geoquímica (PPGG/IG), da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob orientação do professor Pedro Walfir Martins e Souza Filho.

Por Jéssica Souza/Imagem: Geovani Luz/Jornal Beira do Rio/UFPA

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