Foundayo é mais uma aposta da medicina contra uma doença que já atinge mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e alcança 25,7% dos adultos na capital paraense
A humanidade já inventou a roda, chegou à Lua, mandou robôs para Marte e transformou o celular em banco, câmera, televisão e despertador. Mas ainda não descobriu como convencer o corpo humano de que aquela segunda sobremesa talvez não fosse indispensável. Agora, a ciência tenta de novo. E com uma pílula.
Como relata a jornalista Gabriella Florenzano, em matéria publicada no Portal Uruá-Tapera, o Reino Unido autorizou o Foundayo, nome comercial do orforglipron, da Eli Lilly, para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. É o primeiro país europeu a aprovar o medicamento, que será inicialmente vendido na rede privada, mediante prescrição. A chegada ao NHS, serviço público de saúde britânico, ainda depende de avaliação de custo-efetividade.
A novidade tem uma simplicidade quase elegante: é um comprimido. Nem cirurgia, nem injeção. Toma-se uma vez por dia, sem jejum e sem refrigeração. Para quem não gosta de agulhas, já representa uma mudança considerável.
Mas convém não confundir novidade com milagre.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas viviam com obesidade em 2022. Desde 1990, a obesidade entre adultos mais que dobrou no planeta. Entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos, quadruplicou. Não é moda de Instagram. É um dos grandes problemas de saúde pública do século.
No Brasil, o ponteiro também não está colaborando. O Vigitel mostra que a proporção de adultos com obesidade passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. O excesso de peso chegou a 62,6%.
Belém oferece uma fotografia particularmente eloquente. Em 2006, 13,3% dos adultos da capital paraense eram classificados como obesos. Em 2023, já eram 25,7%. Praticamente o dobro. Entre as mulheres, o índice chegou a 28,2%.
É aí que convém tirar a conversa da balança e colocá-la na medicina. Obesidade não é simplesmente falta de disciplina ou uma coleção de más escolhas. É uma doença crônica e multifatorial, relacionada a fatores biológicos, ambientais, sociais e comportamentais.
A medicina vem tentando enfrentá-la por vários caminhos: alimentação adequada, atividade física, acompanhamento nutricional, medicamentos e, para determinados pacientes, cirurgia bariátrica. Nos últimos anos, as canetas mudaram o jogo. Ozempic e Wegovy popularizaram a semaglutida. Depois, a tirzepatida ganhou o palco com o Mounjaro. Em 2025, a Anvisa autorizou a tirzepatida para controle crônico do peso em determinadas situações.
Agora, a indústria farmacêutica oferece mais uma opção para quem prefere tratamento sem injeção. O Foundayo é mais um capítulo dessa corrida. Nos estudos, apresentou perda de peso clinicamente relevante, embora inferior à de alguns tratamentos injetáveis. Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, como náusea, constipação, vômito e diarreia.
Há uma ironia interessante: quanto mais sofisticada fica a farmacologia, mais evidente se torna que o problema nunca foi simplesmente “comer demais”.
Talvez essa seja a melhor notícia por trás da nova pílula. Pessoas que vivem com obesidade não precisam de julgamento. Precisam de diagnóstico, cuidado, informação, acesso e tratamentos seguros. Algumas precisarão de mudanças de rotina. Outras, de medicamentos. Outras, de cirurgia. Muitas, de uma combinação dessas estratégias.
E haverá quem prefira a caneta. Quem prefira o comprimido. Quem não possa pagar por nenhum dos dois. A pílula pode ser nova. A caneta pode ser revolucionária. A cirurgia pode ser decisiva para quem tem indicação. Mas, em Belém, onde um em cada quatro adultos já aparece nas estatísticas de obesidade, a resposta precisa ser maior que qualquer cartela.
A guerra ainda não acabou. E, finalmente, estamos entendendo que ela nunca foi apenas contra a balança.
Por Paulo Silber/Imagem: Cidade 091





