A Operação Hermes, que levou 70 pessoas à condição de rés por crimes ligados ao comércio ilegal do produto, expõe apenas a ponta de uma tragédia que há décadas contamina peixes, rios e seres humanos na Amazônia
A denúncia do Ministério Público Federal contra 70 pessoas envolvidas na compra e venda ilegal de mercúrio para garimpos da Amazônia revela a dimensão de um negócio criminoso que vai muito além das 5,4 toneladas do metal comercializadas pelo grupo investigado. O esquema desmontado pela Operação Hermes mostra como o veneno chegava aos garimpos. A ciência mostra o que acontece depois: ele entra nos rios do Pará, contamina os peixes e chega ao organismo de populações que, muitas vezes, não têm outra fonte de proteína. O crime termina no garimpo. A contaminação, não.
O Tapajós é um dos capítulos mais graves dessa história. Há décadas, pesquisadores registram a presença de mercúrio em peixes e moradores da região. No médio Tapajós, em pesquisa realizada pela Fiocruz em 2019 com 200 indígenas da etnia Munduruku de três aldeias, todos os participantes apresentaram mercúrio no organismo. Em média, 57,9% tinham concentrações acima de 6 microgramas por grama de cabelo, parâmetro de referência adotado por organismos de saúde. Nas aldeias mais próximas das áreas de garimpo, a proporção chegou a nove em cada dez pessoas.
O número de vítimas, portanto, é impossível de cravar. Não existe um cadastro que permita dizer quantos paraenses foram intoxicados pelo mercúrio usado no garimpo. Os estudos são amostrais e se concentram em comunidades específicas. Mas eles revelam a escala do problema: centenas de pessoas já foram examinadas em diferentes pesquisas no Tapajós, e os resultados repetidamente apontam uma exposição elevada.
Em um levantamento independente com 109 moradores de comunidades do Alto Tapajós, apenas um apresentou nível de mercúrio considerado normal; os outros 108 estavam acima de 10 microgramas por litro de sangue. Mais da metade apresentava concentrações entre 50 e 100 microgramas por litro.
Há um detalhe especialmente cruel nessa história: o peixe é o elo entre o garimpo e a mesa. O mercúrio utilizado para separar o ouro pode ser lançado diretamente no ambiente ou evaporar durante a queima do amálgama. Na água, parte do metal é transformada por microrganismos em metilmercúrio, uma forma extremamente tóxica que se acumula nos organismos e se concentra progressivamente na cadeia alimentar. Peixes predadores, no topo dessa cadeia, tendem a carregar concentrações maiores. No estudo da Fiocruz no território Munduruku, os 88 peixes analisados estavam contaminados.
É por isso que a contaminação não respeita a distância entre a draga e a aldeia. O garimpeiro pode estar quilômetros rio acima. O mercúrio, porém, pode viajar pela cadeia alimentar até chegar ao prato de uma família que nunca participou da atividade ilegal. E o corpo humano não esquece facilmente essa exposição.
O metilmercúrio é capaz de atravessar barreiras biológicas e atingir o sistema nervoso central. A exposição crônica pode provocar alterações de memória, coordenação motora, sensibilidade, visão e audição. Em crianças, o risco é ainda mais grave porque o cérebro está em desenvolvimento. Na gestação, o mercúrio atravessa a placenta e pode comprometer o desenvolvimento neurológico do feto. Os efeitos podem aparecer como prejuízos cognitivos e motores que acompanham a pessoa por toda a vida.
No Tapajós, pesquisadores encontraram associação entre níveis elevados de mercúrio e sintomas neurológicos, além de impactos preocupantes entre mulheres em idade fértil e crianças pequenas. Em uma das comunidades estudadas, uma criança de apenas 5 anos apresentou 22,1 microgramas de mercúrio por grama de cabelo.
Não é a primeira vez que o Pará recebe esse alerta. A contaminação por mercúrio no Tapajós é estudada há décadas. Pesquisas anteriores já haviam encontrado níveis elevados em populações ribeirinhas e indígenas, transformando o caso em um dos exemplos mais conhecidos de contaminação ambiental relacionada ao garimpo na Amazônia.
O problema ganhou uma dimensão ainda maior com a expansão recente da mineração ilegal e o uso intensivo de balsas, dragas e máquinas pesadas nos rios. Houve avanços. A Operação Hermes expôs a cadeia clandestina de fornecimento e levou à abertura de dezenas de ações penais. O Ibama endureceu mecanismos de controle do comércio de mercúrio. Órgãos públicos e instituições de pesquisa passaram a desenvolver protocolos específicos para identificar e acompanhar populações expostas. A Fiocruz também vem trabalhando na capacitação de profissionais de saúde para atender comunidades atingidas.
Mas há uma diferença brutal entre controlar o próximo quilo de mercúrio e reparar o que já foi lançado no ambiente. O próprio MPF passou a tratar o problema também como uma questão de reparação coletiva, buscando responsabilizar financeiramente os envolvidos pelos danos ambientais e à saúde pública. A discussão sobre indenização é importante porque o garimpo privatiza o lucro e socializa o desastre. O ouro vira dinheiro para poucos. A contaminação vira doença para muitos.
No Pará, o mercúrio deixou de ser apenas uma ferramenta do garimpo. Tornou-se parte da paisagem invisível da devastação. A lama vai baixar. A draga pode desaparecer. O garimpo pode fechar. Mas o mercúrio continua circulando entre o rio, o peixe, o prato e o corpo humano. O veneno sempre fica.
Por Paulo Silber (Cidade 091)/Foto: Reprodução





