quinta-feira, outubro 15, 2026
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Apenas 2,5 quilômetros, milhares de histórias: a força da Motorromaria do Círio de Nazaré

Mais de 50 mil participantes e veículos, segundo a estimativa divulgada para a romaria, participaram da homenagem a Nossa Senhora de Nazaré no sábado, 10 de outubro. Criada em 1990, a procissão mostra como a devoção nazarena se renova e incorpora diferentes formas de expressão da fé popular.

A fé que move o Círio de Nazaré também tem duas rodas, capacetes, buzinas e motores. No sábado, 10 de outubro, Belém voltou a testemunhar uma das manifestações mais singulares da quadra nazarena: a Motorromaria, que reuniu uma multidão de motociclistas e outros devotos em uma homenagem coletiva à Virgem de Nazaré.

Em um percurso de aproximadamente 2,5 quilômetros, considerado o mais curto entre as romarias oficiais do Círio, milhares de participantes transformaram as avenidas centrais da capital paraense em um corredor de orações, promessas e demonstrações de gratidão. A estimativa divulgada para a edição de 2026 foi de mais de 50 mil participantes e veículos, dimensão que evidencia a força dessa manifestação religiosa.

Mas a importância da Motorromaria não pode ser medida apenas pela quantidade de motocicletas que acompanha a imagem peregrina de Nossa Senhora. Por trás dos motores ligados e das buzinas que ecoam pelas ruas, existem histórias pessoais de superação, pedidos de proteção, agradecimentos por graças alcançadas e a esperança de que a padroeira continue acompanhando a vida de seus devotos.

Para muitos motociclistas, participar não é apenas cumprir um trajeto. É colocar a própria rotina, o trabalho, a família e os desafios cotidianos diante da santa que ocupa um lugar especial na religiosidade paraense.

Uma procissão jovem que conquistou seu espaço no Círio

Embora o Círio de Nazaré reúna tradições religiosas que atravessam séculos, a Motorromaria é uma manifestação relativamente recente dentro da programação oficial. A primeira edição ocorreu em 1990, por iniciativa da Federação Paraense de Motociclismo, com o objetivo de proporcionar aos motociclistas uma forma própria de homenagear Nossa Senhora de Nazaré.

Ao longo dos anos, a procissão conquistou espaço entre as principais manifestações da quadra nazarena. O que começou como uma homenagem ligada ao universo do motociclismo transformou-se em um encontro de pessoas de diferentes idades, profissões e realidades sociais, unidas pela devoção à Rainha da Amazônia.

A Motorromaria também demonstra a capacidade do Círio de incorporar novas expressões sem perder sua essência. Assim como os promesseiros caminham descalços, acompanham a corda ou seguem a berlinda a pé, os motociclistas encontraram nas duas rodas uma maneira de manifestar sua fé.

A tradição passou a fazer parte da identidade do sábado que antecede a grande procissão de domingo, dividindo a programação com outras demonstrações de devoção que levam a imagem peregrina pelas estradas, pelas águas e pelas ruas da capital.

O menor percurso, uma multidão de histórias

A curta distância percorrida é uma das características mais marcantes da Motorromaria. O cortejo sai da Praça Pedro Teixeira, na região da Escadinha do Cais do Porto, segue pela Avenida Presidente Vargas e entra na Avenida Nazaré, com chegada em frente ao Colégio Gentil Bittencourt. São aproximadamente 2,5 quilômetros, percorridos em cerca de uma hora, conforme a programação prevista para 2026.

A extensão reduzida não diminui a grandiosidade da manifestação. Pelo contrário: a concentração de milhares de motociclistas em um espaço relativamente pequeno dá à procissão uma característica própria, com o ronco dos motores, as buzinas, as bandeiras, as imagens religiosas e as manifestações de fé formando um cenário inconfundível.

Ao longo do trajeto, moradores e pessoas que circulam pelo centro de Belém acompanham a passagem dos participantes. Alguns fazem o sinal da cruz, outros levantam as mãos em oração e há quem espere pela passagem da imagem peregrina para renovar uma promessa.

O encontro entre motociclistas e espectadores ajuda a explicar por que a Motorromaria ultrapassa os limites de uma categoria profissional ou de um grupo de aficionados por motos. É uma manifestação que envolve famílias, trabalhadores e devotos que encontram na passagem da imagem uma oportunidade de agradecer e pedir proteção.

Buzinas, lágrimas e promessas: a emoção de quem participa

A emoção da Motorromaria está nos detalhes. Está na motocicleta enfeitada para receber a imagem, na família que acompanha o cortejo, no trabalhador que reserva parte da manhã para agradecer e naquele devoto que participa todos os anos porque considera a homenagem um compromisso com Nossa Senhora.

Para quem depende da motocicleta para trabalhar, a relação com a santa pode ganhar um significado ainda mais particular. O veículo é instrumento de sustento, meio de transporte e parte da rotina familiar. A homenagem representa, nesse contexto, um pedido de proteção para enfrentar o trânsito, voltar para casa em segurança e garantir o sustento de quem depende daquele trabalho.

A fé também se manifesta na gratidão. Há quem participe para agradecer por uma recuperação, por uma conquista pessoal ou pela superação de um período difícil. Outros acompanham a procissão para pedir saúde, paz e proteção para os familiares.

Cada participante carrega uma história diferente. Reunidas nas ruas de Belém, essas histórias ajudam a transformar o percurso em uma grande demonstração coletiva de religiosidade.

O barulho característico das motocicletas não elimina o caráter espiritual do momento. Ele se mistura às orações, aos aplausos e às manifestações populares, compondo uma linguagem própria de homenagem à padroeira.

A imagem peregrina e a bênção no final do trajeto

A Motorromaria de 2026 foi realizada depois da Romaria Fluvial, quando a imagem peregrina chegou à Escadinha do Cais do Porto, após atravessar a Baía do Guajará a bordo do navio da Marinha do Brasil.

A partir dali, a programação seguiu pelas ruas da capital, levando a imagem ao encontro dos motociclistas e de milhares de outros devotos. A chegada ao Colégio Gentil Bittencourt marcou o encerramento do percurso, com uma bênção especial aos participantes.

Esse momento representa uma das marcas da procissão: a possibilidade de os motociclistas se aproximarem da manifestação religiosa em uma homenagem que combina a identidade de quem vive sobre duas rodas com a tradição católica do Círio.

A bênção também reforça o significado atribuído à participação. Mais do que acompanhar a imagem pelas avenidas, muitos devotos procuram levar consigo uma mensagem de esperança e proteção para os caminhos que ainda terão de percorrer.

Fé e responsabilidade no trânsito

A reunião de milhares de veículos em uma área central de Belém exige planejamento, fiscalização e atenção redobrada. Por isso, a segurança é parte fundamental da organização da Motorromaria.

Antes da edição deste ano, o Departamento de Trânsito do Estado do Pará (Detran) anunciou uma operação especial, com mais de 100 agentes mobilizados para fiscalizar os veículos e orientar os participantes. Entre os pontos de atenção estavam o uso obrigatório do capacete pelo condutor e pelo passageiro, o respeito ao limite de ocupantes, as condições dos veículos e a proibição de conduzir sob efeito de álcool.

A preocupação é importante porque a dimensão religiosa do evento não elimina os riscos inerentes à circulação de tantos veículos. A participação responsável ajuda a preservar a integridade dos motociclistas, dos passageiros e das pessoas que acompanham a passagem do cortejo.

O cuidado com a segurança também faz parte do sentido da homenagem: pedir proteção para os caminhos da vida exige, igualmente, atitudes responsáveis no trânsito.

Uma expressão da identidade paraense

A Motorromaria ocupa um lugar particular no conjunto das manifestações do Círio de Nazaré. Enquanto a grande procissão de domingo reúne uma multidão em torno da berlinda e da corda, a homenagem dos motociclistas acrescenta uma expressão contemporânea à tradição religiosa que mobiliza Belém todos os anos.

A devoção se adapta aos meios de transporte, aos hábitos e às transformações da sociedade, mas mantém o mesmo ponto de encontro: Nossa Senhora de Nazaré.

A procissão também ajuda a mostrar que o Círio não se resume a um único dia nem a uma única forma de participação. São diferentes percursos, símbolos e experiências que se encontram em torno de uma mesma devoção, envolvendo moradores, visitantes, trabalhadores, famílias e pessoas que fazem da fé uma presença cotidiana.

Em 2026, a Motorromaria voltou a ocupar as ruas da capital paraense com a força de uma tradição que, desde 1990, conquistou seu espaço na programação oficial. O percurso é curto, mas o significado é amplo: cada motocicleta representa uma presença, cada buzina se soma à homenagem e cada devoto leva consigo uma intenção.

No fim, quando os motores se calam e as avenidas voltam gradualmente à rotina, permanece aquilo que não pode ser contado em quilômetros ou veículos: a emoção de participar, a gratidão por mais um ano e a esperança renovada sob o olhar de Nossa Senhora de Nazaré.

Por NAZARÉ SARMENTO/Imagens: Ray Nonato/Edição: Roberto Barbosa/Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ

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