Pesquisas sobre o samburá, microbioma das abelhas e produção de bebidas à base de mel mostram novas possibilidades para a cadeia produtiva na Amazônia
O II Meliapibam chega ao último dia de programação neste sábado (7), em Santarém, no oeste do Pará, reunindo pesquisadores, meliponicultores, apicultores, representantes de instituições públicas e profissionais ligados à cadeia produtiva do mel. O encontro, iniciado na quinta-feira, 05, também contempla atividades em Belterra e promove o intercâmbio de conhecimentos sobre criação de abelhas, conservação ambiental, pesquisa científica e aproveitamento econômico dos produtos das colmeias.
Entre os destaques da programação estão as pesquisas relacionadas ao microbioma das abelhas, às propriedades nutricionais do samburá — produto obtido a partir do pólen coletado pelas abelhas sem ferrão — e às possibilidades de transformação do mel em bebidas e outros produtos de valor agregado.

MICROBIOMA DAS ABELHAS
Na primeira palestra, o doutor Carlos Alfredo Lopes de Carvalho abordou a importância do microbioma das abelhas, considerado um patrimônio biológico ainda pouco conhecido pela ciência. O pesquisador destacou o papel dos microrganismos associados às colônias e as possibilidades de utilização dessas bactérias em processos industriais, especialmente na fermentação, com potencial para contribuir com diferentes setores produtivos.
Outro ponto importante foi a relação entre a conservação dos ecossistemas e a sobrevivência das abelhas. A disponibilidade de alimentos de qualidade, a diversidade da flora e a preservação dos ambientes naturais são condições fundamentais para o equilíbrio das colônias e a manutenção dos serviços de polinização.
O pesquisador também chamou atenção para os fatores que provocam estresse nas abelhas, como alterações bruscas de temperatura, excesso de chuvas, agrotóxicos, aplicação de fumacê e queimadas. Essas situações podem comprometer o funcionamento das colônias e prejudicar atividades essenciais, como a polinização e a dispersão de sementes.

SAMBURÁ DESPERTA INTERESSE DA CIÊNCIA
A segunda palestra foi ministrada pela doutora Quemili Kimilla Sarmento Ribeiro, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que apresentou estudos sobre as propriedades nutricionais e o potencial científico do samburá.
O produto é formado pelo pólen coletado pelas abelhas sem ferrão, que passa por um processo de armazenamento e transformação dentro da colmeia, com a participação de néctar e enzimas. O resultado é um alimento com composição nutricional rica em proteínas, fibras, aminoácidos e gorduras insaturadas, além de compostos bioativos.
A pesquisadora também apresentou resultados preliminares de investigações laboratoriais sobre possíveis aplicações do samburá na área da saúde. Entre as linhas de pesquisa estão estudos relacionados à doença de Alzheimer e ao câncer de mama.
Nos experimentos envolvendo moscas utilizadas como organismos-modelo, foram observados resultados relacionados ao retardamento de processos de degeneração neuronal. Já nas pesquisas sobre câncer de mama, os estudos indicaram redução da velocidade de multiplicação de células cancerígenas.
Os resultados ainda pertencem ao campo experimental e precisam de novas etapas de investigação antes que se possa falar em aplicações terapêuticas para seres humanos.
O valor comercial do samburá também chamou atenção durante a apresentação. Segundo as informações divulgadas, um recipiente de 100 gramas pode alcançar aproximadamente R$ 150, demonstrando o potencial de agregação de valor a produtos originados da meliponicultura.

Mel se transforma em bebidas e novos produtos
A terceira palestra foi conduzida pela doutora Samira Cavalcanti, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que apresentou possibilidades de aproveitamento do mel na produção de bebidas e outros derivados.
Entre os produtos abordados está o hidromel, uma bebida alcoólica obtida pela fermentação do mel diluído em água, cuja história remonta a civilizações antigas. A pesquisadora também destacou a produção de vinagre, adoçantes e outras preparações que aproveitam as características naturais do mel.
Durante a apresentação, foram compartilhadas experiências desenvolvidas na Bahia, especialmente na produção de hidromel e de bebidas com características próprias de aroma e sabor. A valorização desses produtos representa uma oportunidade para diversificar a atividade apícola e ampliar as possibilidades de comercialização.
O mel, frequentemente chamado de ouro líquido, foi apresentado como um produto de grande importância alimentar e econômica, com potencial para gerar novos negócios a partir da inovação e do aproveitamento de suas propriedades.

Integração regional e fortalecimento da cadeia produtiva
A realização do II Meliapibam em Santarém e Belterra busca ampliar a articulação entre os municípios do Baixo Amazonas e fortalecer a participação de instituições, cooperativas, produtores e pesquisadores.
A coordenadora do encontro, a apicultora e meliponicultora Adcleia Pires, explicou que a escolha das duas cidades contribui para aproximar diferentes realidades locais e ampliar o alcance regional das atividades.
O secretário de Agricultura de Santarém, Bruno Costa, ressaltou a importância da integração entre instituições públicas, organizações e representantes dos municípios. Para ele, a articulação é especialmente relevante em uma região que reúne 13 municípios e apresenta grande diversidade territorial, social e econômica.
Também participa do encontro Joelma Nunes, presidente da Cooperativa de Apicultores de Primavera (Cooprima), do nordeste paraense. Ela destacou a importância da troca de experiências e do diálogo institucional para fortalecer iniciativas ligadas à produção de mel.
Com o encerramento previsto para este sábado, o II Meliapibam reforça a importância da pesquisa, da conservação ambiental e da inovação para ampliar as oportunidades econômicas da apicultura e da meliponicultura na Amazônia.

Por Pedro Medina e Reginaldo Ramos, da R3 Comunicação, especial para o Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ








