segunda-feira, janeiro 19, 2026
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Profissionais de saúde fazem capacitações nacionais em doação e transplante de órgãos

Em Belém, os três cursos realizados pelo Ministério da Saúde abordaram diversos aspectos do processo de doação, captação e transplante de órgãos

Por Roberta Vilanova (SESPA)

Profissionais de saúde que atuam na área de doação e transplante de órgãos participaram, nesta sexta-feira (16) e sábado (17), no Hotel Sagres, em Belém, de três Capacitações Nacionais organizadas pelo Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot) do Ministério da Saúde, em parceria com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

O objetivo do Prodot é qualificar o processo de doação de órgãos, por meio da capacitação e apoio às equipes hospitalares que identificam doadores, para melhorar a taxa de autorização familiar e a eficiência dos transplantes.

A programação começou na sexta-feira com o Curso de Comunicação em Situações Críticas, realizado das 8h às 17h, abordando assuntos relacionados ao processo de comunicação de más notícias e a influência no processo de doação de órgãos. Foram ofertadas 26 vagas e teve como público-alvo médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos, que atuam em áreas de pacientes críticos e outros envolvidos no processo de doação.

Situação no Pará – À noite, ainda na sexta-feira, das 18h às 22h, aconteceu o Curso de Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante, tendo entre os ministrantes, a gerente administrativa da Central Estadual de Transplantes (CET), enfermeira Perla Corrêa, que apresentou a “Situação das Doações e Transplantes no Estado do Pará”.

A finalidade desse curso é capacitar profissionais de saúde nas diferentes etapas do processo de doação, desde a identificação do possível doador, avaliação e validação, manutenção do potencial doador, comunicação e entrevista familiar. Foram ofertadas 50 vagas para médicos, enfermeiros e demais profissionais que atuam em terapia intensiva e coordenação de transplantes.

Para Perla Corrêa, o curso é de extrema importância porque os profissionais precisam estar capacitados e atualizados. “Essa área de doação e transplante é muito específica e requer isso. Um ponto importante é que a legislação foi alterada em setembro de 2025 e muitas coisas mudaram. Então, esses eventos são fundamentais para deixar os profissionais preparados para prestar um serviço de melhor qualidade ainda mais do que já fazem para a população”, disse.

Curso, em Belém, integra Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot)
Curso, em Belém, integra Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Prodot)

Perla Corrêa afirma que o setor enfrenta desafios no processo de doação, captação e transplante de órgãos. “E os desafios são, principalmente, por conta das dimensões continentais do nosso estado do Pará, uma vez que após a captação há um tempo limite para que o órgão seja transplantado”, ressaltou a enfermeira Perla Corrêa.

Os maiores desafios estão fora da Região Metropolitana de Belém. “Em 2025, houve a primeira captação de órgão no Hospital Regional dos Caetés, em Capanema, e no Hospital Regional Público da Transamazônica, em Altamira. A grande questão é a gente dar continuidade nessas captações e estamos trabalhando para isso”, acrescentou Perla.

Por isso, segundo ela, uma das principais ações deste ano de 2026 da CET é a apresentação do Plano Estadual de Doação e Transplante de Órgãos 2026/2029, que será o primeiro da história no Pará. “O plano vai ser um documento norteador, para que consigamos ampliar e fortalecer essa rede não só aqui na Região Metropolitana, mas nos municípios das demais regiões, que também têm um grande potencial para fazer a captação e quem sabe futuramente até transplante de órgãos, assim como Santarém já faz”, informou Corrêa.

Médico Rafael Lisboa avalia de forma positiva a iniciativa do Ministério da Saúde: A capacitação é fundamental nesse processo
Médico Rafael Lisboa avalia de forma positiva a iniciativa do Ministério da Saúde: “A capacitação é fundamental nesse processo”

Avaliando o trabalho dos últimos dois anos, Perla Corrêa destaca a implantação da Organização de Procura de Órgãos (OPO) da RMB em 2024, a segunda implantada no Pará e que funciona na CET. A primeira foi criada em Santarém.

A OPO é uma equipe multidisciplinar essencial para a captação de órgãos e tecidos, atuando como elo entre hospitais, a Central de Transplantes e as famílias. Ela é composta por médicos e enfermeiros que identificam potenciais doadores, avaliam os órgãos, lidam com as questões documentais e logística, acolhem as famílias, realizam a entrevista para solicitar a autorização, que é indispensável para a realização das doações de órgãos e tecidos no Brasil e, consequentemente, contribuem para o aumento do quantitativo de transplantes.

“Penso que essa foi uma conquista grandiosa para a doação e captação de órgãos, porque sabemos que se não tiver doação não tem transplante. Então essa equipe vem desenvolvendo um trabalho árduo e a gente percebe essas mudanças com os quantitativos alcançados”, assinalou Corrêa.

Equipe de profissionais da Central Estadual de Transplantes (CET) participante da capacitação no Hotel Sagres, em Belém
Equipe de profissionais da Central Estadual de Transplantes (CET) participante da capacitação no Hotel Sagres, em Belém

Dados – Em 2024, o Pará realizou 634 transplantes, sendo 516 de córnea, 54 de rim (falecido), 08 de rim (intervivo), 12 de fígado, 28 de medula óssea, 10 de tecido osteomuscular, e 06 de esclera. Já em 2025, foram 464 transplantes, sendo 340 de córnea, 59 de rim (falecido), 05 de rim (intervivo), 16 de fígado, 37 de medula óssea, 05 de tecido osteomuscular, e 02 de esclera.

Iniciativa – O médico intensivista, Rafael Lisboa, representante da Associação de Medicina Intensiva Brasileira e ministrante dos cursos, avalia como positiva a iniciativa do Ministério da Saúde, junto com a Amib, de realizar essa série de capacitações em todos os estados brasileiros.

“É muito importante porque temos percebido, pelas experiências e estudos, em nível internacional, que o principal fator que influencia na doação de órgãos é a capacitação dos profissionais. A Espanha, que é o país que lidera esse processo no mundo, chegou a esse lugar porque investiu na preparação dos profissionais. No Brasil, os estados de Santa Catarina e do Paraná também têm alcançado sucesso dessa forma”, disse Rafael Lisboa.

Ana Beltrão (CET), Rafael Lisboa (Amib) e Perla Corrêa (CET)
Ana Beltrão (CET), Rafael Lisboa (Amib) e Perla Corrêa (CET)

De acordo com o médico, Santa Catarina replicou o modelo espanhol, o Ministério da Saúde adotou esse modelo e está expandindo para todo o Brasil. “Em Minas Gerais, por exemplo, houve aumento no número de doações de órgãos após a realização dos cursos”, observou Rafael Lisboa.

Segundo ele, apesar da realidade e peculiaridade de cada estado, a ideia é homogeneizar o processo. “Claro que cada estado tem a sua realidade, principalmente em termos técnicos e de logística. Mas, de fato, os profissionais podem ser capacitados da mesma forma em todo o país. E isso, certamente, vai influenciar o número de doadores no Brasil inteiro e vai tornar o processo mais homogêneo”, assegurou Rafael Lisboa.

Doação – Para a médica e assessora técnica da CET, Ana Beltrão, sensibilizar a família para autorizar a doação de órgãos ainda é um grande desafio, porque a família ainda tem muita dificuldade de entender esse processo, principalmente quando a pessoa que faleceu não expressou em vida que gostaria de ser doador de órgãos.

“Há necessidade de uma conversa prévia, pois quando a família já sabe que aquela pessoa gostaria de ser doadora, o processo se torna mais fácil, mesmo que a família não concorde muito”, disse a médica. “É importante que as pessoas expressem sua vontade aos familiares, porque isso vai fazer toda a diferença depois”, acrescentou a assessora da CET.

Ana Beltrão propõe que os profissionais de outras áreas desde a Atenção Básica, também sejam capacitados sobre doação de órgãos. “Todos da área da saúde deveriam ser capacitados e entender um pouco desse processo para explicar para a nossa população, porque o profissional de saúde é sempre escutado em todas as situações. Então se eles estiverem preparados e souberem como é que funciona tudo isso já seria um grande passo”, opinou.

Encerramento – O Curso para Determinação de Morte Encefálica, realizado neste sábado (17), das 8h às 17h, foi o último da série de capacitações em Belém. O objetivo foi trazer aos profissionais as principais atualizações científicas para a determinação da morte encefálica, abrangendo a legislação e regulamentação técnica no Brasil. Destinou-se a médicos que atuam em unidade de tratamento intensivo, emergência, neurologistas e outros envolvidos no atendimento do paciente grave. Participaram 16 médicos dos hospitais que compõem a Rede Hospitalar do Estado

A agenda de cursos pelo Brasil começou em setembro de 2025, já tendo sido realizado nos estados de Mato Grosso, Tocantins, Sergipe, Goiás, Rio Grande do Norte e Piauí. O próximo estado a receber será o Amazonas nos dias 23 e 24 de janeiro.

Foto: Roberta Vilanova/Sespa

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