Preço médio do quilo chegou a R$ 45,27 em julho, segundo levantamento do DIEESE/PA em parceria com a Conab; alta supera com folga a inflação e aumenta pressão sobre o orçamento das famílias paraenses
A carne bovina continua pesando no bolso dos consumidores paraenses. Em Belém, o preço médio do quilo da carne bovina de primeira alcançou R$ 45,27 em julho de 2026, acumulando alta de 13,01% nos últimos 12 meses, segundo levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE/PA), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O avanço chama atenção porque ocorre em ritmo bem superior à inflação geral estimada para o período, em torno de 4,50%. Na prática, significa que a carne bovina ficou proporcionalmente muito mais cara do que a média dos preços da economia, aumentando a pressão sobre as famílias, especialmente aquelas que dependem do salário mínimo.
O levantamento considera os preços médios dos cortes coxão mole (chã), cabeça de lombo e paulista, comercializados em feiras livres, mercados municipais, açougues e supermercados da capital paraense.
Alta vem sendo construída ao longo dos meses
A trajetória dos preços mostra que a carne bovina vem mantendo uma tendência de valorização desde o ano passado.
Em julho de 2025, o quilo custava, em média, R$ 40,06. Em dezembro, o preço havia subido para R$ 42,24. Já em janeiro de 2026, chegou a R$ 42,82.
A elevação continuou nos meses seguintes. Em junho, o preço médio alcançou R$ 45,22, passando para R$ 45,27 em julho.
Na comparação mensal, a alta foi de 0,11%. No acumulado de 2026, considerando dezembro de 2025 como base, o aumento chegou a 7,17%. No período de 12 meses, entretanto, o avanço foi muito maior: 13,01%.
Carne já representa parcela significativa do salário
O impacto fica ainda mais evidente quando o preço é comparado com a renda do trabalhador.
Considerando o salário mínimo de R$ 1.621, uma diária de trabalho corresponde a aproximadamente R$ 54,03. Com esse valor, o trabalhador consegue comprar pouco mais de 1,2 quilo de carne bovina, pelo preço médio registrado em julho.
Para levar 2 quilos do produto para casa, seriam necessários R$ 90,54, o equivalente a aproximadamente 1,7 diária de trabalho.
O levantamento do DIEESE/PA também calcula o impacto da carne na composição da Cesta Básica de Alimentos. Em julho, os 4,5 quilos de carne bovina considerados na cesta representaram um gasto aproximado de R$ 203,72.
Esse valor correspondeu a cerca de 12,57% do salário mínimo vigente. Para adquirir essa quantidade de carne, o trabalhador precisaria dedicar aproximadamente 27 horas e 39 minutos de uma jornada mensal de 220 horas.
Cesta básica cai, mas carne sobe
O comportamento da carne ocorre mesmo em um mês em que a Cesta Básica de Alimentos comercializada em Belém apresentou redução.
Segundo o DIEESE/PA e a Conab, o custo médio da cesta em julho ficou em R$ 724,10, registrando a primeira queda do ano. Apesar do recuo no valor geral da cesta, alguns produtos continuaram apresentando aumentos, entre eles a carne bovina.
O cenário mostra que a redução do custo total da cesta não significa necessariamente queda generalizada dos preços dos alimentos. Produtos importantes para a alimentação das famílias podem continuar subindo e neutralizar parte do alívio provocado pela redução de outros itens.
POR QUE A CARNE ESTÁ SUBINDO?
A formação do preço da carne bovina envolve uma cadeia extensa, que começa na produção e passa pela criação e engorda do gado, transporte dos animais, abate, processamento, distribuição e comercialização.
Entre os fatores que podem pressionar os preços estão os custos de produção, a disponibilidade de animais para abate, a demanda do mercado interno, o comportamento das exportações e os custos logísticos.
No Pará, as despesas de transporte e distribuição ganham importância adicional em razão das características geográficas do Estado e das grandes distâncias entre áreas produtoras, centros de abate, distribuidores e mercados consumidores.
A demanda externa também influencia o mercado brasileiro. Quando as exportações permanecem aquecidas, uma parcela maior da produção nacional é direcionada ao mercado internacional, o que pode alterar a disponibilidade e a formação dos preços no mercado doméstico.
Pará entre os grandes produtores de carne
O comportamento da carne bovina tem importância estratégica para o Pará. O Estado possui um dos maiores rebanhos bovinos do país e uma cadeia produtiva relevante para a economia regional, envolvendo produtores rurais, frigoríficos, transportadores, comerciantes e trabalhadores de diferentes setores.
Isso cria uma situação em que o Estado participa simultaneamente de duas pontas do mercado: é um importante produtor de gado e, ao mesmo tempo, possui consumidores que enfrentam preços elevados no varejo.
Para o consumidor, portanto, o aumento não é determinado apenas pelo preço recebido pelo produtor. Entre a propriedade rural e o prato do consumidor existe uma cadeia de custos que inclui transporte, abate, processamento, armazenamento, distribuição, impostos, perdas e margem de comercialização.
PREÇO PODE CONTINUAR PRESSIONADO
Para os próximos meses, o cenário ainda exige atenção. Caso permaneçam combinados custos elevados de produção, alterações na oferta de animais para abate, demanda externa aquecida e despesas significativas de transporte e distribuição, o preço da carne bovina poderá continuar pressionado.
A possibilidade de novos reajustes preocupa principalmente os trabalhadores que dependem do salário mínimo, pois a alimentação ocupa parcela proporcionalmente maior da renda das famílias de menor poder aquisitivo.
A alta acumulada de 13,01% em 12 meses deixa evidente que o preço da carne bovina vem avançando em velocidade superior à inflação média. Se essa trajetória continuar, o produto poderá ocupar uma fatia ainda maior do orçamento doméstico e reduzir o espaço financeiro das famílias para outras despesas essenciais.
Enquanto isso, o consumidor paraense tende a adotar estratégias como reduzir a quantidade comprada, substituir cortes mais caros por alternativas de menor preço e pesquisar valores entre supermercados, açougues, mercados e feiras.
Para o DIEESE/PA, o comportamento da carne bovina merece acompanhamento permanente, justamente por se tratar de um dos itens de maior peso na alimentação dos trabalhadores e por seu impacto direto sobre o custo da cesta básica.
Fonte dos dados: DIEESE/PA e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Da Redação do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagem: Reprodução





