Com parcelas descontadas diretamente na folha, modalidade cresce no país e desperta preocupação sobre comprometimento da renda das paraenses
O empréstimo consignado privado avança entre os trabalhadores paraenses e revela uma mudança silenciosa na forma como as famílias lidam com o endividamento. O crédito chega como uma solução rápida, mas pode se transformar em uma dívida que fere o orçamento antes mesmo de o salário cumprir seu papel de sustento.
Levantamento da Serasa aponta que 74% dos trabalhadores brasileiros que possuem consignado privado têm dois ou mais contratos ativos. O estudo também mostra que 29% contrataram um segundo empréstimo com juros superiores aos do primeiro. Embora muitos contratos envolvam valores considerados baixos, como R$ 1 mil ou R$ 1,5 mil, a soma dos descontos pode comprometer uma parte importante da renda mensal.
O cenário nacional ajuda a explicar uma realidade visível em Belém. Com o aumento do custo de vida e a pressão sobre o orçamento das famílias, o consignado passou de uma alternativa emergencial para uma ferramenta incorporada ao planejamento financeiro de muitos trabalhadores.
A modalidade ganhou espaço entre empregados da iniciativa privada porque oferece vantagens para bancos e consumidores. Como o pagamento é retirado diretamente da folha, o risco de inadimplência é menor e as condições costumam ser mais atrativas. O problema surge quando o primeiro empréstimo deixa de ser uma ponte para atravessar uma dificuldade e passa a abrir caminho para novos contratos. E multiplica o aperto.
“Uma dívida é usada para cobrir outra, despesas inesperadas pressionam o orçamento e o trabalhador começa a depender de novos empréstimos para manter gastos básicos”, alerta Luiz Carlos das Dores Silva, economista paraense que participa de um quadro sobre finanças populares na TV Liberal.
A diferença em relação a outras formas de endividamento é que o consignado nem sempre aparece nas estatísticas de inadimplência, acrescenta Luiz Carlos. “O consumidor continua pagando, mas passa a administrar o mês com menos recursos disponíveis. A dívida não bate à porta com cobranças, ela retira espaço do salário antes que ele chegue às mãos do trabalhador”, define.
A expansão da modalidade também levanta debates sobre transparência. Órgãos de defesa do consumidor e especialistas defendem que bancos e empresas apresentem com mais clareza o impacto acumulado das parcelas antes da contratação de novos créditos.
O desafio é identificar o momento em que o empréstimo deixa de ser um apoio e passa a funcionar como uma extensão permanente da renda. Em Belém, acompanhar esse movimento é essencial para evitar que uma solução criada para aliviar o bolso acabe ferindo justamente a capacidade das famílias de manter suas despesas.
O consignado pode ser uma ferramenta de equilíbrio, mas, sem planejamento, a mesma operação que promete cura pode se transformar na ferida financeira que acompanha o trabalhador todos os meses.
Por Paulo Silber/Cidades 091






