O Brasil é um país tão grande que até o pão precisa de passaporte para atravessar certas fronteiras
A receita é quase a mesma, a fome é universal, mas o vocabulário muda conforme o CEP. E, quando chega o Dia Mundial do Pão, neste 16 de outubro, fica difícil não desconfiar de que o brasileiro também se reconhece pelo que pede na padaria.
Em São Paulo, o freguês pede pão francês. Em Minas Gerais e na Bahia, pode preferir pão de sal. No Rio Grande do Sul, o pedido é por um cacetinho, palavra capaz de provocar constrangimento em quem desembarca sem conhecer o dialeto local e tem um pé na quinta série.
No Ceará, aparece o carioquinha, que, apesar do nome, não precisa de certidão do Rio. Em Sergipe, há quem peça pão jacó. É o mesmo ritual, com diferentes legendas.
Mas é em Belém que a conversa ganha sabor especial. Aqui, o pão careca tem lugar garantido no imaginário de quem conhece a cidade. E há também o pão de massa grossa e o de massa fina, denominação encontrada em partes do Pará e de outros estados do Norte. O pão francês, tão orgulhoso de sua cidadania imaginária, precisa aprender a conviver com essa diversidade.
A ironia é que o pão francês não é propriamente francês. A versão brasileira ganhou esse nome por influência do modelo de pão claro e crocante associado à França, mas virou uma instituição nacional com identidade própria. Também não consta que os parisienses acordem pensando em pedir uma dúzia de pães carecas. É uma exclusividade nossa, como tantas outras.
Na capital paraense, o pão tem sua liturgia. A padaria é ponto de encontro, o balcão funciona como sala de conversação e o café da manhã pode render mais notícias que muito jornal. Há quem compre pão para a família inteira, quem leve apenas dois e quem jure que entrou só para acompanhar alguém. A manteiga derretendo na massa quente tem uma capacidade de conciliação que falta a muito discurso político.
O pão também ensina uma lição sobre linguagem. Uma palavra pode mudar de roupa sem mudar de essência. O gaúcho pede cacetinho, o paulista pede francês e o paraense chama o seu de careca. Ninguém precisa vencer a discussão: basta que o padeiro entenda o pedido.
Só que existe um detalhe que nenhuma brincadeira deveria esconder. Para milhões de brasileiros, o pão diário pesa no orçamento. Para outros, nem ele está garantido. Celebrar o alimento é também lembrar que a mesa não pode ser privilégio.
Neste 16 de outubro, portanto, fica o brinde, com café, manteiga e, se possível, um pão ainda quente. Que cada região preserve seu sotaque, que Belém continue defendendo o pão careca e que ninguém precise escolher entre o pão e o resto da feira. O pão pode até mudar de nome de um estado para outro. A necessidade de colocá-lo na mesa, não.
Por Paulo Silber/Imagem: Reprodução (Cidade 091)





