Cientistas e organizações apontam lacunas na projeção da World Population Review para a contagem de jumentos no país e criticam o uso da informação por frigoríficos interessados em ocultar o risco de extinção da espécie nordestina
A divulgação de dados de que a população de jumentos no Brasil seria “dez vezes maior que o estimado”, do portal World Population Review, provocou indignação de especialistas de diversas áreas de agroeconomia e medicina veterinária animal, como os cientistas da Universidade São Paulo (Esalq), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), do doutor em Bem-Estar Animal pela Universidade de Cambridge ONGs, além de organizações de direito animal como a The Donkey Sanctuary e a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos. Todos vêm a público para esclarecer as inconsistências graves nas estimativas apresentadas pelo portal norte-americano.
O World Population Review (WPR) é uma empresa criada em 2013 como um blog para reunir tópicos demográficos em uma só plataforma. Aos poucos, passaram a incluir dados sobre economia e outras informações sociais como quantidade de animais de produção, calculados a partir de projeções realizadas com números disponíveis em cada país. No caso dos jumentos brasileiros, a WPR afirma ter usado como fonte números de 2024 da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Para os cientistas e profissionais de medicina veterinária, a contagem da FAO – para estimar o número de jumentos no Brasil – apresenta limitações que merecem ser esclarecidas.
Diferentemente de bovinos, porcos, aves, suínos e outros animais de fazenda criados para a produção de alimentos no Brasil, a população de jumentos, mulas e demais muares não recebem a mesma precisão na contagem devido a pouca importância econômica para questões de pecuária e nutrição, como acontece com as estatísticas sobre o rebanho de gado no país.
Para Roberto Arruda de Souza Lima, doutor em Economia Aplicada pela USP e professor da ESALQ/USP, a FAO não realiza censos próprios, ao contrário do IBGE, e trabalha com estimativas baseadas em dados secundários. No caso dos jumentos no Brasil, essas estimativas têm origem na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), que não é um censo, mas um levantamento baseado em informantes locais, sujeito a imprecisões. “Além disso, a PPM deixou de divulgar dados sobre jumentos em 2013 e, desde então, a FAO passou a utilizar modelos estatísticos para projetar a população. Esses modelos combinam diferentes métodos e tendem a suavizar variações e seguir tendências ao longo do tempo”, explica.
Para o cientista, a World Population Reviewos precisa considerar que os dados da FAO são úteis para identificar tendências gerais, mas inadequados para estimativas detalhadas ou formulação de políticas públicas, sobretudo na questão de jumentos, cuja população entrou em forte declínio desde a permissão do abate dos animais para a exportação de peles para China, de 2016 até hoje.
Adroaldo Zanella, doutor em Bem-Estar Animal pela Universidade de Cambridge, com passagens pela Universidade Luís Maximiliano de Munique e Michigan State University, acrescenta que a FAO não realiza monitoramento específico e contínuo da cadeia dos jumentos, uma vez que seu foco institucional está voltado ao combate à fome, à insegurança alimentar e à desnutrição em escala global. Isso impacta diretamente a qualidade das estimativas.
Um exemplo dessa limitação pode ser observado em 2017, quando o Censo Agropecuário do IBGE registrou cerca de 376 mil jumentos no Brasil, enquanto a FAO contabilizava 844 mil animais no mesmo período, mais que o dobro da quantidade oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística à época. Ora, se de fato existissem hoje 730 mil jumentos hoje no Brasil, isso significaria que a população mais que duplicou em uma década (considerando a estimativa de 376 mil do IBGE, 2017) – o contrário de todas as evidências que apontam para a redução, após o início do abate e da prática extrativista existente no Nordeste.
Um estudo da Esalq/USP revelou que a venda de peles acontece sem uma cadeia de produção organizada, já que não há registros públicos de números de fazendas que criam esses animais nem informações sobre as Guias de Trânsito Animal para o transporte dos jumentos entre os estados, nenhuma informação sobre descarte das carcaças e, principalmente, à inviabilidade econômica para a produção sistemática da espécie, pois os jumentos possuem características biológicas de baixa taxa de reposição, tempo de gestação prolongado, nascimento de um filhote, riscos de aborto espontâneo e outtas particularidades que os diferem da criação de bovinos, aves, suínos e demais produtos agropecuários.
“A leitura equivocada de informações agregadas, especialmente sobre asininos, pode distorcer a realidade e invisibilizar a redução contínua dos jumentos, que se encontra em estado de emergência no Brasil”, pontua Patricia Tatemoto, PhD em Ciências, na área de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela Universidade de São Paulo (USP), lembrando da Carta Oficial assinada por 12 cientistas no ano passado após o Congresso Futuro Sustentável dos Jumentos.
LACUNAS DA FAO
De acordo com o artigo Global donkey and mule populations: Figures and trends, publicado na revista científica Public Library of Science, a FAO possui outras limitações no que se refere à contagem de jumentos: os números dependem de informações enviadas pelos próprios países, o que pode introduzir vieses, subnotificação e inconsistências, especialmente em contextos de informalidade e pouca relevância socioeconômica local; além disso, há lacunas relevantes, já que muitos países não reportam dados, levando a FAO a recorrer a estimativas e modelagens que podem ser revisadas sem novos censos.
O documento também alerta que os dados são excessivamente agregados, sem distinção de idade, sexo, função, raça ou mesmo entre espécies e híbridos, misturando diferentes usos e contextos (trabalho, produção, companhia), o que distorce a leitura populacional. Para os autores, a falta de granularidade impede análises mais precisas, como identificar riscos de extinção ou dinâmicas regionais, e dificulta a interpretação de tendências ao longo do tempo.
A conclusão é de que “os dados da FAO são úteis para observar padrões gerais, mas inadequados para estimativas precisas ou diagnósticos detalhados da realidade e que parte dos dados mais recentes da FAO são imputados, ou seja, baseados em estimativas indiretas e não em levantamentos de campo”.
O especialista Pierre Barnabé, PhD em Ciências na área de Biotecnologia e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), lembra ainda que o jumento nordestino merece uma atenção especial neste debate. “Os dados considerados confiáveis são aqueles produzidos por pesquisadores e cientistas que acompanham diretamente a dinâmica populacional desses animais no Brasil”, diz.
No último levantamento, em 2025, o país contabilizou 78.916 jumentos nordestinos, após um estudo que integrou informações da FAO, do IBGE e do Agrostat (do Ministério da Agricultura, com base nas exportações de carne e pele de asininos para a China). Essa contagem considera a raça de jumentos pêga, com grande presença no estado de Minas Gerais, e de alto valor agregado, devido à criação semelhante a de cavalos de raça no Brasil. A categoria mais nobre de asininos possui uma Associação Brasileira dos Criadores de Jumento Pêga, que contabiliza cerca de 45 mil animais, embora alerte sobre a possibilidade de subnotificação já que os óbitos nem sempre são comunicados à instituição. O jumento Pêga é geralmente animais de porte alto, criado de forma controlada no Brasil, com características genéticas bem diferentes dos jumentos nordestinos – esses últimos, ameaçados de desaparecerem se o atual ritmo de exportação de peles continuar para dar conta da demanda na fabricação de ejiao em países do oriente, sobretudo a China.
Para os cientistas e organizações de defesa animal, sua preservação é de extrema importância dado não apenas a fatores culturais e econômicos para a agricultura familiar no Nordeste, como também pela preservação do genoma único do jumento nordestino. Eles cobram a urgente transparência de dados do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) sobre o tamanho da população, dados sobre o manejo desses animais, locais e condições de saúde e bem-estar para o seu armazenamento, condições de transporte, número de exportações e outros dados ainda não fornecidos pelo governo. “De cada 100 jumentos que existiam no Brasil, há três décadas, hoje restam apenas 6, o que equivale a perda de 94% da população dos jumentos nordestinos entre 1996 e 2024”, lembra Vânia Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal.
Também soa curioso o fato de que os dados da World Population Review, que elevou em dez vezes os dados divulgados pelos cientistas, vêm sendo divulgados com os comentários do proprietário do único abatedouro de jumentos hoje em atividade, o Frinordeste Ltda, localizado em Amargosa (BA). Nas reproduções de releases nos sites de notícias, o dono do estabelecimento Alex Bastos se apresenta apenas como “zootecnista e administrador rural”, ocultando uma informação que pode comprometer a imparcialidade da fonte da reportagem.
“A afirmação de que existiriam centenas de milhares de jumentos no país decorre de uma projeção irreal de dados, divulgados por partes interessadas na continuação do abate, sem interesse no risco iminente de extinção da espécie e com forte apelo de negacionismo científico desta emergência ambiental”, conclui Patricia.
Fonte e imagem: Agência Pauta Social








