Estudo com mais de 5,5 mil pessoas indica que monitorar os níveis do hormônio e controlar o peso são medidas essenciais para evitar mortes prematuras
Rafael Saldanha, da CNN Brasil, em São Paulo
Um estudo com mais de 5,5 mil voluntários acima de 50 anos acendeu um alerta: pessoas que têm obesidade abdominal e falta de vitamina D apresentam um risco de morte 123% maior que aquelas sem as duas condições — ou seja, mais que o dobro.
Os resultados do trabalho indicam que, embora cada condição já seja perigosa isoladamente, juntas elas multiplicam o risco de mortalidade. Para Tiago Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e coordenador da pesquisa, o acompanhamento é essencial para evitar mortes prematuras.
“A obesidade abdominal é um conhecido fator de risco por estar associado à inflamação e a problemas metabólicos. Já a vitamina D é um hormônio que atua em vários órgãos, e sua deficiência compromete diversas funções do corpo. Quando essas duas condições aparecem juntas, uma potencializa os efeitos da outra, elevando ainda mais o risco de morte”, explica.
Os dados coletados mostram que a deficiência de vitamina D sozinha representa um risco maior do que a obesidade abdominal isolada – definida como circunferência abdominal maior que 102 centímetros para homens e 88 centímetros para mulheres. Enquanto ter apenas obesidade abdominal aumenta o risco de morte em 47%, a deficiência de vitamina D isolada pode elevar esse risco em até 81%.
De acordo com Alexandre, as duas condições criam um ciclo vicioso. Isso porque a gordura abdominal “sequestra” a vitamina D circulante e a armazena nos adipócitos (células de gordura), impedindo que ela chegue ao sangue. “Isso significa que, embora o corpo possa ter a vitamina guardada na gordura, ela não está livre no sangue para realizar suas funções vitais em outros órgãos e sistemas”, afirma.
O especialista ainda detalhe que pessoas com obesidade têm menor circulação de vitamina D. Essa deficiência, por sua vez, prejudica o sistema imunológico, agravando a inflamação crônica já causada pelo excesso de gordura e elevando drasticamente o risco de mortalidade.
Além disso, o envelhecimento é marcado naturalmente por um processo conhecido como inflammaging, um estado de inflamação crônica de baixo grau. “Em condições normais, a vitamina D atua como reguladora do sistema imunológico, impedindo que a inflamação se descontrole. Quando seus níveis estão baixos e há excesso de gordura abdominal, instala-se um ambiente sistêmico desfavorável que acelera doenças cardiovasculares, metabólicas e a perda muscular”, ressalta.
Realizada em colaboração com cientistas da University College London e financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a pesquisa acompanhou 5.520 pessoas com 50 anos ou mais por seis anos. Os participantes integram o English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), um dos maiores estudos de envelhecimento do mundo.
O estudo foi publicado em maio na revista Diabetes, Obesity and Metabolism e divulgado pela Agência Fapesp.
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