Sotheby’s de Londres coloca à venda obra-prima do Renascimento que permaneceu guardada por séculos em coleções privadas na Europa.
Um pedaço intacto da história e do poder renascentista britânico será oferecido ao mercado global. Na próxima quarta-feira, 1º de julho de 2026, a renomada casa de leilões Sotheby’s, em Londres, colocará à venda um raríssimo pingente de âmbar com o retrato da rainha Elizabeth I. Produzida por volta do ano 1600, a joia tem valor estimado entre £ 100 mil e £ 150 mil (o que equivale a cerca de R$ 686 mil a R$ 1,03 milhão na cotação atual).
Em formato de coração, a peça é considerada um dos objetos mais refinados já confeccionados com o material no início do século XVII. Segundo informações da Revista Galileu, o item permaneceu guardado por gerações em coleções privadas antes de retornar aos olhos do público.
Inovação técnica e “lente natural”
O pingente impressiona especialistas pela complexidade artística e pelas inovações técnicas para a época. Ele abriga um minúsculo retrato da monarca esculpido em relevo (camafeu). O grande diferencial, porém, está no verso do âmbar: uma cavidade esculpida cirurgicamente funciona como uma espécie de lente natural, criando o efeito visual de que o rosto de Elizabeth I está ampliado e suspenso flutuando dentro da própria pedra.
A autoria da obra-prima é atribuída aos mestres Hans Klingenberg ou Georg Schreiber — sendo Schreiber o candidato mais provável devido ao seu estilo elegante e consagrado de trabalhar micro-relevos atrás de superfícies translúcidas. O historiador Richard Kulka reforça que obras como esta representam o ápice do trabalho em âmbar desenvolvido na corte prussiana.

Propaganda política e o “Ouro do Báltico”
Longe de ser apenas um adorno decorativo, o design do pingente carregava uma forte mensagem de propaganda política e simbolismo de poder:
- Na frente: O retrato da monarca foi inspirado em gravuras de Crispijn de Passe, o Velho (baseadas em pinturas do miniaturista Isaac Oliver). No peito de Elizabeth I, destaca-se uma grande rosa, uma referência direta à dinastia Tudor fundada por Henrique VII.
- No verso: A figura de um papagaio foi cravada para simbolizar a pureza, reforçando o mito e a imagem de “Rainha Virgem” cultivada pela soberana.
Naquele período, o âmbar báltico era tão cobiçado que ostentava o título de “ouro do Báltico”. A realeza e a nobreza europeia eram fascinadas pela resina fossilizada, tanto que o diplomata William Bruce chegou a descrevê-la em cartas como a pedra preciosa mais amada pelas cortes. Além do status, acreditava-se na época que o material possuía propriedades curativas mágicas e a capacidade de detectar venenos.
Trajetória de colecionadores
A trajetória documentada desta joia remonta ao século XIX, quando fez parte do impressionante acervo do político escocês John Malcolm — um dos maiores colecionadores de sua era, cujos tesouros incluíam obras de gênios como Michelangelo e Rembrandt.
Após ter sido adquirida temporariamente por um investidor particular em 2025, a joia retorna ao mercado em Londres, consolidando-se como uma oportunidade de ouro e extremamente rara para museus internacionais e grandes colecionadores de arte.
Foto: Sotheby’s











