sexta-feira, agosto 7, 2026
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Sarampo volta a rondar o Brasil enquanto a desinformação tenta apagar a memória de uma tragédia

Com novos casos no país e surtos nas Américas, queda na vacinação e boatos impulsionados por figuras públicas irresponsáveis recolocam em circulação uma doença que o Brasil já havia derrotado.

Cinco anos depois de a covid-19 impor confinamentos, colapsar hospitais e deixar mais de 700 mil mortos no Brasil e 19 mil só no Pará, ainda há quem insista em desacreditar vacinas. É uma irresponsabilidade. Um crime. A imunização contra a covid salvou milhões de vidas no mundo e reduziu drasticamente internações e mortes. Ainda assim, figuras públicas como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), voltam a espalhar boatos que alimentam a desconfiança justamente contra uma das ferramentas mais eficazes da saúde pública: a imunização por vacinas.

O problema é que os vírus não assistem às redes sociais. Aproveitam apenas uma oportunidade: pessoas sem proteção. E o sarampo está mostrando isso, colocando o Brasil novamente em alerta. Neste ano, já foram confirmados 17 casos, concentrados principalmente em São Paulo, onde um surto segue sob investigação.

Os números ainda são pequenos. A capacidade de transmissão do vírus, porém, é enorme. Uma pessoa infectada pode transmitir o sarampo para até 90% das pessoas suscetíveis que estejam no mesmo ambiente.

O recrudescimento da doença não acontece por acaso. A Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde alertam para a queda das coberturas vacinais em diversos países, impulsionada pela hesitação vacinal e pela desinformação. No Brasil, a meta é vacinar 95% das crianças. Durante alguns anos, porém, a cobertura despencou para pouco mais da metade do público-alvo, criando um contingente de vulneráveis suficiente para permitir a reintrodução do vírus.

No Pará, embora não haja transmissão sustentada atualmente, a extensa fronteira e a intensa circulação de pessoas aumentam o risco de casos importados. Basta um viajante infectado encontrar bolsões de pessoas não vacinadas para que o vírus volte a circular. E os paraenses conhecem bem o preço dessa combinação.

O estado viveu, em 2020, o pior surto de sarampo da história recente. Naquele ano, em meio ao primeiro e mais dramático período da pandemia de covid-19, o Pará tornou-se o epicentro da doença no Brasil. Foram 5.294 casos confirmados, o equivalente a 64% de todas as notificações registradas no país.

Belém concentrou a maior parte dos casos e experimentou uma explosão superior a 700% nas notificações em comparação ao ano anterior. A coincidência entre duas crises sanitárias simultâneas expôs o enorme custo da queda da cobertura vacinal, sobrecarregando serviços de saúde que já enfrentavam o desafio imposto pelo coronavírus.

A memória dessa tragédia, porém, vai muito além da pandemia. Há registros históricos de que, entre 1748 e 1750, uma devastadora epidemia de sarampo atingiu a antiga capitania do Grão-Pará, dizimando grande parte da população indígena da região. Em uma Amazônia ainda marcada por longas distâncias e escassa assistência médica, a doença espalhou-se rapidamente, tornando-se uma das mais graves catástrofes demográficas do período colonial. Mais de dois séculos depois, a ciência oferece uma proteção que aquelas populações jamais tiveram: a vacina.

Foi exatamente por causa da redução da cobertura vacinal que o Brasil perdeu, em 2019, o certificado de país livre do sarampo, reconquistado apenas em novembro de 2024. Por isso, autoridades sanitárias reforçam a importância de manter o calendário vacinal em dia. Estados Unidos, Canadá, México e países europeus também enfrentam surtos, lembrando que o vírus reaparece sempre que a vacinação perde força.

O sarampo não voltou porque a vacina deixou de funcionar. Voltou porque parte da sociedade deixou de acreditar nela. Simples assim. Há espaço para opiniões em quase todos os debates públicos. Mas os vírus não negociam com opiniões. Eles seguem a matemática da epidemiologia: quanto menor a cobertura vacinal, maior a chance de transmissão.

No Pará, essa não é uma ameaça abstrata. Há uma página da história recente, e outra muito mais antiga, que mostra como o sarampo pode encontrar terreno fértil quando a prevenção falha. A desinformação viraliza. O sarampo também. A diferença é que, contra um, existe vacina.

Por Paulo Silber/Cidade 091

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