terça-feira, agosto 18, 2026
Desde 1876

Morre a atriz Laura Cardoso, pioneira da teledramaturgia brasileira, aos 98 anos

Com mais de sete décadas dedicadas à arte, veterana marcou a história do rádio, do cinema, do teatro e da televisão no país

A atriz Laura Cardoso morreu na noite dessa segunda-feira, 17, aos 98 anos. O falecimento da veterana foi confirmado por meio de um comunicado oficial publicado em seus perfis nas redes sociais:

“Nossa grande estrela se despediu de nós Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso.”

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Baleroni, em São Paulo, no ano de 1927, Laura Cardoso foi um dos pilares fundamentais da história das artes cênicas brasileiras. Sua carreira teve início ainda na década de 1940, trabalhando no rádio como atriz de radionovelas e dubladora.

Com o surgimento da televisão no Brasil, na década de 1950, integrou o elenco pioneiro da TV Tupi, participando do lendário TV de Vanguarda e consolidando-se rapidamente como uma das intérpretes mais expressivas do país.

O velório da atriz Laura Cardoso está marcado para ocorrer hoje, 18 de agosto. A cerimônia terá início às 8h e término às 14h, no “Funeral Home”, localizado na Rua São Carlos do Pinhal, número 376, no bairro da Bela Vista, em São Paulo.

Vida inteira dedicada à arte e à dramaturgia brasileira

Atriz que morreu aos 98 anos deixa uma das mais longas e respeitadas trajetórias da cultura brasileira, construída no rádio, no teatro, no cinema e na televisão

Laura Cardoso, uma das maiores atrizes da história da dramaturgia brasileira, morreu nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo, por causas naturais. Com mais de oito décadas de carreira, ela atravessou diferentes fases da cultura brasileira e ajudou a construir a própria história da televisão, do teatro e do cinema nacionais.

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, Laura era filha de imigrantes portugueses. Desde criança demonstrava fascínio pela representação. Segundo o Memória Globo, ainda aos seis anos brincava de fazer teatrinho com uma amiga do bairro. Gostava de ler, recitar textos e representar para familiares e colegas.

Aos 15 anos, decidiu transformar a brincadeira de infância em profissão. Entrou para a Rádio Cosmos, onde começou a trabalhar em radionovelas. Foi também nessa fase que passou a usar o nome artístico Laura Cardoso, abandonando o Laurinda de seu registro de nascimento para construir a identidade que se tornaria conhecida em todo o país.

DO RÁDIO À TELEVISÃO

Laura pertenceu à primeira geração de artistas que ajudaram a transformar a televisão brasileira em um dos principais veículos de cultura e entretenimento do país.

Em 1952, chegou à recém-inaugurada TV Tupi, participando do programa Tribunal do Coração. A partir daí, tornou-se presença constante nos teleteatros e nas novelas da emissora, em uma época em que a televisão ainda dava seus primeiros passos no Brasil.

Sua carreira passou também por emissoras como Excelsior, Record, Bandeirantes e Cultura. Ao longo desse período, Laura acumulou experiência em diferentes gêneros e linguagens, desenvolvendo uma característica que marcaria sua trajetória: a capacidade de transformar personagens secundários em figuras fundamentais para a história de uma produção.

Em 1981, chegou à Globo, convidada por Daniel Filho. Sua estreia aconteceu na novela Brilhante, de Gilberto Braga, na qual interpretou Alda Sampaio, mãe da protagonista vivida por Vera Fischer. A partir daí, consolidou uma relação de décadas com a emissora.

Personagens que ficaram na memória

Na televisão, Laura Cardoso construiu uma galeria de personagens que atravessou gerações.

Entre seus trabalhos mais lembrados estão Irmãos Coragem, Pão-Pão, Beijo-Beijo, Livre para Voar, Mulheres de Areia, A Viagem, Salsa e Merengue, Chocolate com Pimenta e Caminho das Índias. Também participou de séries e programas que marcaram a televisão brasileira.

Em Mulheres de Areia, novela de 1993, sua interpretação ganhou ainda mais popularidade. No ano seguinte, em A Viagem, voltou a conquistar o público com uma atuação que reforçou sua capacidade de imprimir humanidade, humor, emoção e dramaticidade às personagens.

Laura nunca se limitou a um único tipo de papel. Foi mãe, avó, mulher simples, personagem religiosa, matriarca, trabalhadora e figuras de forte personalidade. Essa variedade ajudou a transformá-la em uma das atrizes mais versáteis de sua geração.

Ao todo, levantamentos publicados nos últimos anos apontam para mais de 100 trabalhos e cerca de 65 novelas, além de séries e outros trabalhos televisivos.

O TEATRO COMO PAIXÃO

Apesar da enorme popularidade alcançada na televisão, Laura Cardoso nunca abandonou o teatro, que considerava uma das bases fundamentais de sua formação.

Nos palcos, participou de montagens importantes, entre elas Vereda da Salvação e Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu. Foi reconhecida pela crítica e recebeu, entre outras distinções, o Prêmio Shell de Teatro.

A experiência teatral foi fundamental para a construção de seu método de interpretação. Laura aprendeu a trabalhar o corpo, a voz, o silêncio e a emoção diante do público, conhecimentos que posteriormente levaria para o rádio, a televisão e o cinema.

O próprio Itaú Cultural registra que sua carreira cinematográfica foi influenciada diretamente pela experiência teatral. Ao chegar ao cinema, Laura precisou adaptar sua interpretação à linguagem das câmeras, reduzindo expressões que funcionavam nos palcos.

NO CINEMA, UMA ATRIZ PREMIADA

A trajetória cinematográfica começou nos anos 1960, com trabalhos como Imitando o Sol e Rei Pelé. Depois, Laura participou de produções importantes, entre elas Terra Estrangeira, O Outro Lado da Rua, Através da Janela, Copacabana, Primo Basílio e Muita Calma Nessa Hora.

No cinema, também recebeu reconhecimento por seu trabalho. Entre as premiações está o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, além de distinções em festivais e homenagens ao conjunto de sua carreira.

Sua participação em O Outro Lado da Rua, por exemplo, rendeu reconhecimento como atriz coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Uma carreira que atravessou gerações

O que torna a trajetória de Laura Cardoso ainda mais extraordinária é sua longevidade artística.

Ela começou no rádio quando a televisão sequer existia no Brasil, acompanhou o nascimento da TV, trabalhou na época dos teleteatros ao vivo, participou da consolidação das telenovelas, atravessou a era dos grandes estúdios cinematográficos e chegou à televisão contemporânea e às novas formas de produção audiovisual.

Em 2025, aos 98 anos, participou do lançamento do curta-metragem Dona Rosinha, no qual interpretou uma idosa abandonada pela filha. No mesmo ano, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.

Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019. Mesmo depois disso, continuou ligada à arte e às homenagens que celebravam sua contribuição à cultura brasileira.

Uma mulher que nunca quis se aposentar da arte

Laura Cardoso tinha uma relação particular com o trabalho. Em entrevistas, demonstrava não gostar da ideia de aposentadoria e repetia o desejo de continuar atuando enquanto tivesse condições.

Essa disposição para o trabalho ajudou a criar uma imagem que ultrapassou a da atriz consagrada. Laura tornou-se uma espécie de matriarca da dramaturgia brasileira, respeitada por atores de diferentes gerações.

Tony Ramos, que conviveu com ela por mais de seis décadas desde os tempos da TV Tupi, a homenageou após sua morte e a chamou de “rainha da TV”, ressaltando sua importância histórica e seu talento.

Outros artistas também destacaram sua generosidade, disciplina, sensibilidade e capacidade de transformar o ambiente de trabalho.

PRÊMIOS E RECONHECIMENTO

Ao longo da carreira, Laura Cardoso recebeu dezenas de prêmios e homenagens. Entre eles estão o Troféu Roquette Pinto, o Troféu Imprensa, o Prêmio Shell, o Troféu APCA, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e a Ordem do Mérito Cultural. Em 2023, foi homenageada pelo Festival de Cinema de Gramado.

Mais do que a quantidade de prêmios, entretanto, sua maior conquista foi a permanência. Laura Cardoso conseguiu algo raro: ser reconhecida simultaneamente por diferentes gerações de espectadores e profissionais.

O LEGADO

A morte de Laura Cardoso encerra uma das mais extraordinárias trajetórias da arte brasileira, mas não encerra sua presença na cultura nacional.

Ela deixa personagens, filmes, novelas, peças, histórias e, principalmente, um exemplo de dedicação ao ofício do ator.

Laura Cardoso pertence a uma geração que ajudou a erguer a dramaturgia brasileira praticamente do zero. Começou no rádio, quando as histórias eram construídas principalmente pela voz; passou pelo teatro, onde aprendeu a dimensão do corpo e da presença; ajudou a formar a televisão brasileira e encontrou no cinema outro espaço para sua expressão.

Sua trajetória, portanto, não pode ser resumida apenas pelos números — 98 anos de vida, mais de 80 de carreira, dezenas de novelas, filmes, peças e prêmios. Laura Cardoso foi parte da memória afetiva e artística do Brasil.

Ao longo de mais de oito décadas, ela fez da profissão uma forma de existência. E, ao partir, deixa aquilo que poucos artistas conseguem construir: uma obra capaz de continuar vivendo muito depois que o último aplauso termina.

Da Redação do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ com informações iniciais do jornal CORREIO BRAZILIENSE

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