Cerca de 100 manifestantes indígenas ocuparam o terminal fluvial da Cargill em Santarém, no oeste do Pará, em um protesto contra a expansão da infraestrutura de transporte de grãos nos rios amazônicos. A ação, iniciada no fim de semana, ocorre após mais de um mês de acampamento em frente à entrada do empreendimento e elevou a tensão entre comunidades tradicionais, governo federal e o setor logístico.
Segundo lideranças indígenas, a ocupação foi intensificada após a emissão de uma ordem judicial de despejo. Os manifestantes entraram nas instalações e passaram a ocupar áreas estratégicas do terminal, incluindo setores administrativos e sistemas de vigilância. Como consequência, as operações foram suspensas.
Em nota, a Cargill informou que as atividades permanecem interrompidas devido a “incidentes violentos decorrentes de uma disputa em andamento entre autoridades governamentais brasileiras e comunidades indígenas”. A empresa também afirmou que espera uma solução baseada no diálogo e na segurança de todos os envolvidos.
Protesto mira decreto federal e expansão portuária
O principal alvo do movimento é um decreto federal assinado em agosto de 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estabelece os principais rios da Amazônia como áreas prioritárias para o transporte de cargas e prevê a ampliação de portos privados na região.
A líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku, afirmou que a ocupação continuará até que o decreto seja revogado.
“Nós só vamos sair daqui quando o presidente revogar esse decreto. Ele ameaça nossos rios e nosso modo de vida”, declarou.
As comunidades indígenas temem que projetos de dragagem e ampliação da navegação comprometam o equilíbrio ambiental dos rios, afetando diretamente a pesca, o abastecimento e os territórios tradicionais.
SUSPENSÃO PARCIAL NÃO ENCERROU CONFLITO
Duas semanas antes da ocupação, o governo federal anunciou a suspensão da dragagem no rio Tapajós, um dos principais corredores logísticos da Amazônia. No entanto, as lideranças indígenas consideraram a medida insuficiente e reforçaram que o decreto continua representando uma ameaça.
Além da ocupação em Santarém, manifestações também foram registradas em outras cidades, incluindo protestos em frente a instalações da Cargill em São Paulo.
REGIÃO ESTRATÉGICA
O terminal de Santarém é considerado estratégico para o escoamento da produção agrícola brasileira. O Brasil é atualmente o maior exportador mundial de soja e milho, e os portos fluviais da Amazônia são vistos como fundamentais para reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade do agronegócio.
A Cargill, multinacional com sede nos Estados Unidos, opera uma extensa rede de transporte e armazenamento no Brasil, empregando cerca de 11 mil trabalhadores. A empresa não informou previsão para retomada das operações no terminal ocupado.
IMPASSE SEGUE SEM SOLUÇÃO
Até o momento, não há confirmação de negociação direta entre o governo federal e os manifestantes para encerrar a ocupação. O movimento indígena afirma que permanecerá no local até obter garantias formais sobre a proteção dos rios amazônicos e a revisão das políticas de expansão portuária.
O caso amplia o debate sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental na Amazônia, além de reforçar as tensões históricas envolvendo comunidades tradicionais, grandes empresas e projetos de infraestrutura na região.
Por Roberto Barbosa, da Redação do Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagens: Reprodução








