As pesquisas arqueológicas realizadas na região de Caxiuanã, situada entre os municípios de Portel e Melgaço, revelam um dos mais importantes patrimônios culturais da Amazônia. O estudo “Cerâmica Arqueológica (Sítio PA-GU-5: Manduquinha) e Cabocla na Região de Caxiuanã – Pará”, desenvolvido por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Universidade Federal do Pará, demonstra que a região foi ocupada por antigas populações que dominaram técnicas sofisticadas de produção cerâmica, utilizando matérias-primas locais, diferentes antiplásticos, formas variadas de decoração e processos tecnológicos cuja continuidade ainda pode ser observada na cerâmica cabocla produzida por moradores da região.
A pesquisa identificou que a técnica predominante era o acordelado, utilizada na fabricação de grandes recipientes, e registrou a ampla utilização do cariapé como antiplástico, característica que atravessou séculos e permanece presente na produção artesanal contemporânea. Os resultados também apontam evidências de continuidade cultural entre os antigos habitantes da região e os conhecimentos tradicionais preservados por famílias locais.
Do ponto de vista científico, trata-se de uma descoberta de enorme relevância para a arqueologia amazônica. O trabalho contribui para compreender a ocupação humana da região, os modos de vida, os hábitos alimentares, a tecnologia cerâmica e a relação dessas populações com o ambiente amazônico.
Entretanto, essa riqueza científica desperta uma reflexão necessária.
Embora as pesquisas tenham sido produzidas por instituições de excelência e publicadas em revistas especializadas, seu conteúdo permanece pouco conhecido justamente entre as populações que vivem na região onde essas descobertas foram realizadas.
O conhecimento arqueológico produzido em Caxiuanã ainda circula predominantemente em universidades, bibliotecas e meios acadêmicos. Nas escolas de Portel, Melgaço e de outros municípios do Marajó, são raras as oportunidades de contato com esses estudos. Grande parte da população desconhece que seu território abriga sítios arqueológicos de importância nacional e internacional.
Essa realidade evidencia um desafio recorrente da ciência brasileira: produzir conhecimento de alto nível sem garantir, na mesma intensidade, sua democratização para as comunidades diretamente relacionadas ao patrimônio pesquisado.
Não se trata de desconsiderar o papel desempenhado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição responsável por contribuições científicas fundamentais para a arqueologia amazônica. Ao contrário, sua atuação na pesquisa, preservação e formação de especialistas é reconhecida nacionalmente.
A crítica dirige-se à necessidade de ampliar as ações de difusão científica e educação patrimonial voltadas às populações do Marajó. Afinal, quem vive sobre esse patrimônio cultural deveria ser também um de seus principais beneficiários.
Exposições itinerantes, laboratórios educativos, programas permanentes nas escolas, formação de professores, produção de materiais didáticos acessíveis, réplicas de peças arqueológicas, museus comunitários e ações de extensão poderiam aproximar a ciência da população local, fortalecendo a identidade cultural e incentivando a preservação dos sítios arqueológicos.
É importante reconhecer que iniciativas de divulgação e educação patrimonial já foram desenvolvidas pelo Museu Goeldi em diferentes momentos e localidades. Contudo, diante da dimensão das pesquisas realizadas na Ilha do Marajó, ainda existe espaço para ampliar sua presença contínua junto às comunidades onde esse patrimônio foi descoberto.
O conhecimento científico somente cumpre plenamente sua função social quando retorna à sociedade em forma de educação, pertencimento e cidadania.
No caso da arqueologia marajoara, esse retorno possui um significado ainda maior. As cerâmicas estudadas não pertencem apenas aos acervos museológicos; pertencem também à memória coletiva dos povos amazônicos. Cada fragmento encontrado em Caxiuanã conta uma parte da história de Portel, de Melgaço, do Marajó e da própria Amazônia.
Universalizar o acesso a essas descobertas não é apenas uma política de divulgação científica. É um compromisso com a valorização da identidade amazônica, com a preservação do patrimônio cultural e com o direito das comunidades locais de conhecerem a própria história.
Talvez tenha chegado o momento de uma nova etapa: fazer com que as pesquisas arqueológicas sobre Caxiuanã deixem de ser apenas patrimônio da academia e se tornem, efetivamente, patrimônio do povo marajoara
Por Idinor Ferreira
*O autor é secretário de Cultura de Portel
Imagem: Ray Nonato











