Na década de 60, lá em Maracanã, minha terra natal, quando eu era criança e ainda morávamos lá, meu pai era enfermeiro, trabalhando em um posto médico na vila de São Roberto, a uns 18 km da cidade, dividindo o exercício da função com outra enfermeira que morava naquela localidade. Cada um deles passava uma semana inteira atendendo os pacientes. E papai passava sua folga em casa, na cidade. Havia um deputado estadual que era advogado e que sempre estava em Maracanã, um de seus redutos eleitorais.
Algumas vezes papai era convocado para trabalhar no posto médico da cidade. E foi numa dessas vezes que aquele deputado pediu a papai lhe aplicar uma injeção na veia. E ao final, agradeceu, dizendo que não doera nem um pouco, passando papai a aplicar-lhe outras injeções. Numa dessas aplicações, papai conversando com o deputado, falou que morava naquela cidade e que sua esposa, mamãe, era professora estadual trabalhando no grupo escolar local. E que sua lotação como enfermeiro era na mencionada vila, onde havia pouco movimento, havendo lá uma enfermeira, perguntando se o deputado poderia providenciar sua remoção para a cidade. O deputado disse que iria ver quando estivesse em Belém, anotando o nome e dados de papai.
No próximo retorno à Maracanã o deputado disse que conseguira a remoção de papai, entregando-lhe uma cópia da portaria do então secretário de Saúde e que papai teria 30 dias para dar ciência a tal portaria e passar a trabalhar na cidade. Papai agradeceu muito e mais tarde, falando com o prefeito que era seu amigo, perguntou o que o deputado gostava de comer, obtendo como resposta que um dos pratos que ele gostava muito era caldeirada de gurijuba salgada. Papai então comprou uma gurijuba grande, salgou, pôs no sol para secar e uns dois dias depois preparou uma embalagem, colocando com o peixe, maxixe, quiabo, folhas de alfavaca e chicória, entregando ao deputado que muito gostou e agradeceu.
A partir de então, aqui acolá papai repetia a dose. Anos depois viemos para Belém e papai saiu da Saúde, passando a comerciar produtos que comprava de outros estados e revendia a pequenos e médios comércios da capital e interior. E o tempo passou. Passaram décadas, mas, pelo menos uma vez por ano, papai levava uma gurijuba salgada ao deputado, e também patos, com tucupi em garrafas e peru. E o deputado, com olho de espanto perguntava quanto era. E papai sorrindo dizia ser presente. Já na década de 90, em uma das constantes visitas que eu fazia a meus pais, encontrei papai com a cara amarrada. Perguntei o motivo, e ele, abrindo uma das gavetas de sua escrivaninha, me apresentou uma notificação de multa da Secretaria da Fazenda (SEFA) expedida por um fiscal que lá estivera, tomando aquela decisão porque o endereço da pessoa jurídica constava ainda como na Marambaia e não na Pedreira, onde papai passara a morar e trabalhar e também porque encontrara algumas mercadorias sem nota fiscal, tendo papai dito ao fiscal que estavam com seu contador, assim como já fora providenciado o respectivo alvará com o novo endereço. Mas, mesmo diante desses argumentos o fiscal fez a notificação de multa. E a multa a ser aplicada era relativamente de grande valor, em torno de mais ou menos uns 20 salários mínimos.
Eu falei a papai que eu iria formular sua defesa, mas papai continuou com o semblante triste. Foi então que me lembrei de algo e disse a papai que ele tinha um amigão que poderia resolver aquela situação. Ele perguntou se era Jesus Cristo. E eu respondi que sim, mas havia um amigo terreno a quem ele poderia buscar ajuda. Fiz um suspense e ele ficou me olhando. Então eu disse que o procurador fiscal da SEFA era o ex-deputado que gostava de gurijuba. Papai mudou o semblante e, como lia diariamente jornais, disse que agora estava lembrando que lera uma noticia se referindo a seu amigo. No dia seguinte, papai, acompanhado de mamãe, foi à SEFA. À noite quando passei por lá ele disse que fora bem recebido, tendo o ex-deputado, então procurador da SEFA, perguntado se ele fora levar gurijuba. E este rindo, disse que daquela vez não, apresentando a notificação fiscal, as notas fiscais e o pedido de mudança de endereço comercial.
O então procurador disse que iria analisar e que papai voltasse três dias depois, pois, ainda estava no tempo recursal. Três dias depois, quando estive lá à noite para a regular visita e me inteirar do desenrolar da situação, perguntei a papai qual fora o resultado de sua ida à SEFA. Ele olhou-me nos olhos e respondeu que a multa não tinha sido cancelada. Arregalei os olhos e papai riu, riu, e disse que o ex-deputado tinha dito: “Zito (apelido de papai) não consegui cancelar a notificação que recebeste, mas consegui uma redução, para menos de um salário mínimo, para ti pagar em dez parcelas. Até já mandei imprimir os dez boletos”. Papai agradeceu e disse que já já iria pagar logo uns três boletos, tendo me apresentado todos e os três já pagos. Sorrimos e juntos fomos à cozinha tomar um café que papai preparou e eu tirei uma conclusão, e disse a ele como a gratidão produz bons efeitos. E rindo disse a ele que se juntasse todas as gurijubas, patos e perus que deu ao seu importante amigo, não daria para pagar nem 10% do valor inicial da multa. E papai rindo disse: “Agora que não vou parar de presentear esse amigão”. Hodiernamente, sempre que passo na avenida Governador José Malcher, em frente da casa onde foi daquele amigão de papai, eu lembro desses fatos, já comentados com meus filhos mais velhos e os mais novos.
Por Roberto Pimentel
*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ









