quinta-feira, fevereiro 26, 2026
Desde 1876

LITERATURA – Um amigo irmão inesquecível

No curso de minha vida tenho encontrado muitos amigos.

O sábio rei Salomão em seu livro de Provérbios disse que “O homem que tem muitos amigos pode congratular-se, mas há amigo mais chegado do que um irmão”. (18:24).

E o adjetivo chegado é interpretado como amável, compreensivo, estando próximo não apenas nos momentos festivos, mas também nos tristes  e de dificuldades.

Um dos exemplos bíblicos é o de Jônatas, amigo de Davi, o pai de Salomão, que o apoiou e o defendeu da perseguição de seu pai, o rei Saul, quando este queria eliminar o amigo de seu filho.

Não tive irmãos biológicos e nem adotivos, apenas duas irmãs, mas tive e tenho muitos amigos, alguns mais chegados que um irmão.

Nesta oportunidade menciono e destaco um dos amigos mais chegados, a quem conheci em 2004, quando estive em Curitiba, em uma viagem de estudos, na conclusão de um curso de pós-graduação, destinado a promoção da última classe de Delegado.

À época eu dirigia a Divisão Especializada em Meio Ambiente (DEMA) e quando fiz aquela viagem, primeiro para Salvador e depois Curitiba, decidi visitar as delegacias que atuavam na área ambiental.

E foi na capital paranaense que ganhei um amigo mais chegado que um irmão, quando fui à delegacia ambiental local, após me apresentar a ele, então diretor, falei daquela visita informal, objetivando colher informações técnicas, experimentais e exemplares. E também estabelecer um relacionamento técnico.

De início ele se apresentou sério, um pouco frio, mas à medida que prossegui em minhas manifestações, a aparente frieza dele foi desmoronando, acabando por ele me convidar a retornar para irmos até o palácio governamental, tendo eu aceito o convite e perguntado se poderia levar uns dois ou três colegas delegados que faziam parte daquela viagem, tendo ele concordado.

Despedi-me e retornei no dia seguinte, quando fomos até onde ele nos levou e depois, com os colegas que me acompanharam, ele nos levou até uma famosa churrascaria local, onde ao final, bancou toda a despesa.

Ao me despedir sugeri que ele, como naquele estado havia mais condições, tanto econômicas como técnicas, realizar um encontro nacional de autoridades policiais civis e federais, que atuavam na área ambiental.

E quando retornei a nossa capital, elaborei uma minuta do sugerido evento e enviei via fax a meu já amigo, sendo tal evento denominado de 1° Encontro Nacional de Polícia Judiciária Ambiental, ocorrendo três meses depois, com a participação de colegas de vários estados e de várias personalidades nacionais, inclusive da então titular do Ministério do Meio Ambiente, tendo como espaço de palestras a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Aquele evento, programado em pouco tempo, foi realizado com sucesso, mostrando o talento desse amigo mais chegado que um irmão, que tinha como seu segundo prenome, o pseudônimo do grande filósofo francês do Iluminismo.

Participei daquele evento em companhia de um colega então Delegado-Geral Adjunto, tendo o meu amigo da Polícia Civil paranaense, agradecido reiteradas vezes a ideia que foi concretizada.

Ao término daquele evento ele levou vários participantes, inclusive eu e meu colega paraense, a vários pontos turísticos paranaenses, entre os quais, parte da Mata Atlântica e a famosa cidade de Morretes.

Dez anos depois, no inicio de 2014, a mãe de meus dois filhos mais novos, ainda crianças, com 9 e 6 anos, programou uma viagem turística a São Paulo e Curitiba, aproveitando para visitar alguns primos que lá moravam.

Já estivéramos outras vezes na capital paulista, mas na paranaense seria a primeira.

Entrei em contato telefônico com meu amigo para ele me indicar um hotel de boa qualidade e diária não muito cara. Uma hora depois recebi um telefonema de uma jovem que se identificou como gerente de um hotel e que fora contatada por meu amigo, tendo eu feito a reserva. Liguei para meu amigo agradecendo e dizendo quando estaria chegando lá.

Do aeroporto pegamos um taxi com destino ao hotel onde nos hospedaríamos e ao chegar lá fiquei espantado e não acreditei que era ali, pois, era luxuoso e grande demais, acima do que imaginei pelo valor da diária, o preço que a gerente me informara.

Por cautela eu pedi ao taxista que aguardasse, junto com meus filhos e a mãe, enquanto eu subi à recepção para me inteirar e confirmar se era mesmo aquele hotel. E quando lá cheguei tive outro impacto, pois, o valor da diária do quarto mais barato era o dobro do que me fora passado. E do tipo de quarto que iriamos usar era o triplo.

Perguntei se ali trabalhava a pessoa que me atendera por telefone. E ela ouvindo minha pergunta se apresentou e após minha identificação disse que já estava tudo pronto e o preço era o que ela me havia passado.

À noite meu amigo ligou-me e perguntou qual minha programação para o dia seguinte, tendo eu respondido que estava sem programação, pois o encontro com os primos da mãe de meus filhos ocorreria dois dias depois. Então ele disse que pela manhã, após o café, estaria ali para me levar a sua chácara.

E no dia seguinte quando chegamos ao café da manhã lá estava meu amigo.

E mais tarde descemos, estando sua gentilíssima esposa aguardando em uma picape e dali fomos até sua chácara. E lá tomamos banho de piscina, almoçamos, passeamos por uma serra.

Lá pelas tantas ele pegou uns caniços para pescar peixe em dois grandes reservatórios ali existentes, levando-me com meus dois curumins, onde fizemos pesca esportiva.

E mais tarde, após o lanche, ele disse que tinha combinado com meu caçula que já o chamava de tio, para ensina-lo a mexer as orelhas, mas tinha que ser em segredo, pois, a dica que daria seria somente do conhecimento do menino.

Eu ri e concordei. Eles se afastaram alguns metros, sob a vista de todos, tendo o amigo passado a falar baixinho próximo aos ouvidos do pequeno. Minutos depois meu garotinho passou a mexer as orelhas, o que faz até hoje, nos levando aos risos.

No final da tarde retornamos à cidade, ele nos deixando no hotel.

Já de volta, em casa, passei a contatar com mais intensidade via email e whatsapp com meu amigo.

Em uma de minhas mensagens, logo após meu retorno daquele viagem,  agradeci em meu nome e de minha família a hospitalidade, a gentileza e o carinho com que ele e sua amada esposa Lucíria nos dispensaram.

E que aquelas doces lembranças ficarão guardadas no “Museu da Terra do Coração”, agradecendo a DEUS, o Pai Celestial, por tê-los posto em nosso caminho, pedindo a Ele em nossas preces, bênçãos mais a eles, lamentando que as fotos tiradas naquela aconchegante chácara se perderam. Mas, como já dito, as imagens daquele dia estão guardadas em nossa memória, recordando cada detalhe, como o passeio nas trilhas que levam às lagoas, o almoço, o chá de “capim marinho” (capim santo para outros), a pescaria com os meus curumins, acompanhada de seu singular desvelo.

Em uma das mensagens que enviei a Voltaire, fiz referência à canção “Amigo é casa”, de Herminio Bello de Carvalho, que assim inicia “Amigo é feito casa que se faz aos poucos / E com paciência pra durar pra sempre…”.

Lá pelo final do primeiro semestre do ano passado ele não respondeu mais minhas mensagens.

E há pouco tempo, procurando me inteirar do que acontecera, vim saber que ele partiu, em abril do ano passado.

Mas, estará sempre em minhas melhores lembranças, naquilo que, como já mencionado, chamo de “Museu da Terra do Coração”.

*Em homenagem póstuma a meu saudoso amigo Wilciomar Voltaire Garcia.

Por Roberto Pimentel

*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ

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