A rotina cada vez mais acelerada da vida moderna tem impactado diretamente os hábitos alimentares das famílias — e as crianças estão entre as mais afetadas. O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, aliado ao sedentarismo e ao excesso de tempo em frente às telas, tem contribuído para o avanço da obesidade infantil no Brasil e no mundo.
Práticos, acessíveis e altamente palatáveis, esses produtos ganharam espaço nas refeições do dia a dia. No entanto, são ricos em açúcares, gorduras e sódio, e pobres em nutrientes essenciais, o que compromete o desenvolvimento saudável desde os primeiros anos de vida.
Segundo a professora de Pediatria da Afya Bragança, Kíssila Ferraro, o problema vai além do ganho de peso. “A obesidade infantil é multifatorial, mas o consumo de ultraprocessados tem papel central. Esses alimentos são nutricionalmente desequilibrados e podem levar a déficits nutricionais e aumentar o risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, além de impactos na saúde mental”, explica.
A endocrinologista e professora da Afya Marabá, Alana Ferreira de Oliveira, destaca que o cenário atual é inédito. “Pela primeira vez na história, a obesidade ultrapassou a desnutrição. Hoje temos uma pequena parcela de crianças desnutridas e uma taxa muito elevada de obesidade”, afirma.
Dados do UNICEF, divulgados em setembro de 2025, reforçam esse alerta: a obesidade já é a forma mais comum de má nutrição no mundo, atingindo cerca de 188 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar — o equivalente a 1 em cada 10.
De acordo com a especialista, os ultraprocessados possuem alta densidade calórica, baixo teor de fibras e pouca capacidade de saciedade, o que estimula o consumo excessivo e favorece alterações metabólicas ainda na infância, como aumento da glicemia e do colesterol.
No Pará, a situação também preocupa. Dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) indicam que cerca de 50 mil crianças convivem com obesidade. Em 2022, foram registrados mais de 22 mil casos entre menores de 5 anos e quase 37 mil entre crianças de 5 a 10 anos. Em 2023, embora haja leve redução, os números seguem elevados, com mais de 20 mil casos na faixa até 5 anos e cerca de 30 mil entre 5 e 10 anos.
Especialistas também chamam atenção para o afastamento das dietas tradicionais, especialmente em regiões como o Pará, onde alimentos naturais e culturais têm sido substituídos por produtos industrializados.
Além da alimentação inadequada, o sedentarismo tem papel importante nesse cenário. O aumento do tempo de tela e a redução das atividades físicas contribuem para que problemas antes comuns na vida adulta passem a surgir cada vez mais cedo.
Os impactos da obesidade infantil vão muito além da estética. A condição pode desencadear processos inflamatórios, alterações metabólicas e até influenciar a expressão genética, aumentando o risco de doenças ao longo da vida.
Outro ponto de atenção são os mil primeiros dias de vida, considerados essenciais para a formação dos hábitos alimentares. “Crianças que consomem menos açúcar e sal nesse período têm menor risco de obesidade na vida adulta”, destaca Alana.
Os sinais de alerta nem sempre são evidentes, mas incluem cansaço frequente, dificuldades respiratórias, alterações no sono, ganho de peso acelerado, aumento da circunferência abdominal, manchas escuras no pescoço e até ronco noturno.
Para especialistas, o enfrentamento da obesidade infantil passa por uma ação conjunta entre famílias, escolas e poder público. Incentivar uma alimentação equilibrada, reduzir o consumo de ultraprocessados, promover atividades físicas e controlar o tempo de tela são medidas fundamentais.
“A mudança começa dentro de casa. A criança aprende pelo exemplo. Quanto mais alimentos naturais na rotina da família, maiores as chances de ela desenvolver hábitos saudáveis”, conclui a endocrinologista.









