*Por Idinor Ferreira
Há determinados paradoxos que, de tão absurdos, deveriam nos incomodar todos os dias.
O Pará é um deles.
Em nosso território estão Curuá-Una, Tucuruí e Belo Monte, grandes empreendimentos que fazem do estado uma peça fundamental na geração de energia elétrica do Brasil. Produzimos energia em abundância. Movimentamos o sistema nacional. Ajudamos a iluminar outras regiões do país.
Mas, no Marajó, ainda existem municípios e comunidades que convivem com sistemas energéticos frágeis, dependência de combustíveis fósseis e dificuldades históricas de integração ao sistema nacional.
E mesmo onde a energia chegou, muitas vezes ela chega acompanhada de outro problema: a instabilidade.
É difícil explicar esse paradoxo para quem vive na Amazônia.
Como explicar a um comerciante que perdeu seus produtos que o Pará é uma potência energética?
Como explicar a uma família que teve seus equipamentos danificados que vivemos em um estado responsável por grandes usinas hidrelétricas?
Como falar em desenvolvimento para uma comunidade que não consegue contar com energia elétrica estável?
Talvez seja justamente aí que esteja o problema.
Durante muito tempo, confundimos geração de energia com desenvolvimento.
Não são a mesma coisa.
Produzir megawatts não significa necessariamente produzir qualidade de vida.
Uma coisa é a energia ser gerada em nosso território. Outra, muito diferente, é essa energia chegar com qualidade, segurança e regularidade à casa das pessoas, aos estabelecimentos comerciais, às escolas, aos postos de saúde e aos pequenos empreendimentos.
O conceito de pobreza energética precisa entrar definitivamente no debate amazônico.
Porque pobreza energética não significa apenas ausência de eletricidade.
Também significa não conseguir utilizar a energia de maneira confiável.
E isso o Marajó conhece muito bem.
Quando a energia cai, o problema não é apenas ficar algumas horas sem iluminação.
Uma padaria para.
Um restaurante perde insumos.
Uma sorveteria perde mercadorias.
Um comerciante deixa de vender.
Uma pequena indústria interrompe sua produção.
Uma família pode ter equipamentos danificados.
E, no final, alguém paga essa conta.
Quase sempre, o consumidor.
Por isso, quando falamos sobre energia, estamos falando também sobre economia, renda, emprego e desenvolvimento.
Quando a energia cai, a economia também cai.
É preciso olhar para o Marajó com mais seriedade.
A distância geográfica, os rios, as comunidades ribeirinhas e as dificuldades logísticas não podem continuar funcionando como justificativa permanente para uma infraestrutura insuficiente.
É justamente por essas características que a região precisa de planejamento diferenciado.
São Sebastião da Boa Vista, Afuá e Gurupá, por exemplo, ainda enfrentam desafios relacionados à integração energética. Enquanto isso, municípios já conectados ao sistema continuam convivendo com interrupções que afetam diretamente ap população.
E há uma questão de infraestrutura que merece atenção especial: o fortalecimento e a ampliação da capacidade do sistema que atende a região, incluindo o trecho entre a área da Parada do Bento e a subestação de Breves.
Isso não pode ser tratado apenas como uma questão técnica.
É uma questão de desenvolvimento regional.
Se queremos desenvolver o turismo, precisamos de energia.
Se queremos fortalecer a gastronomia, precisamos de energia.
Se queremos modernizar o comércio, precisamos de energia.
Se queremos estimular pequenas indústrias, precisamos de energia.
Se queremos melhorar a educação e os serviços de saúde, precisamos de energia.
Portanto, discutir a segurança energética do Marajó é discutir o futuro da própria região.
O Pará já ofereceu muito ao Brasil.
Ofereceu seus rios.
Ofereceu seus recursos naturais.
Ofereceu sua biodiversidade.
Ofereceu minérios.
E oferece energia.
Mas precisamos começar a fazer uma pergunta incômoda: o que o Brasil está devolvendo ao Pará?
Não se trata de ser contra as hidrelétricas ou contra o desenvolvimento.
Muito pelo contrário.
Precisamos de desenvolvimento.
Precisamos de energia.
Precisamos de infraestrutura.
Mas precisamos também de justiça territorial.
Não podemos continuar aceitando um modelo em que os grandes benefícios são distribuídos nacionalmente enquanto parte dos problemas permanece concentrada nos territórios amazônicos.
O Marajó não quer privilégio.
Quer planejamento.
Não quer favor.
Quer infraestrutura.
Não quer discurso.
Quer solução.
É necessário que governos, órgãos reguladores, empresas do setor elétrico e sociedade civil construam uma agenda permanente para a segurança energética do arquipélago.
Uma agenda que pense não apenas na energia de hoje, mas na energia necessária para o Marajó daqui a dez, vinte anos.
Precisamos discutir expansão da rede, modernização das subestações, fontes renováveis, geração distribuída, soluções para comunidades isoladas e, principalmente, qualidade e continuidade do fornecimento.
Porque não basta levar o fio.
É preciso garantir que a energia chegue. E que permaneça.
O Marajó não pode continuar sendo lembrado apenas quando o assunto é pobreza, isolamento ou falta de infraestrutura.
O arquipélago precisa ser colocado no centro das discussões estratégicas sobre o futuro energético da Amazônia.
Talvez o maior paradoxo seja justamente este: o Pará ajuda a iluminar o Brasil, mas ainda existem paraenses lutando para não ficar no escuro.
E enquanto isso continuar acontecendo, alguma coisa estará profundamente errada em nosso modelo de desenvolvimento.
O Marajó não pede privilégio.
Pede o direito de participar do desenvolvimento que, há décadas, ajuda a sustentar.
O Pará ajuda a iluminar o Brasil.
Está na hora de o Brasil ajudar a iluminar o Pará
*O autor é Secretário de Turismo de Portel





