terça-feira, janeiro 20, 2026
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Três décadas de COP: veja os avanços, desafios e um planeta em alerta

BELÉM SE PREPARA PARA RECEBER LÍDERES MUNDIAIS EM MEIO A EXPECTATIVAS E COBRANÇAS POR AÇÕES CONCRETAS

Três décadas após a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP, o mundo chega a Belém do Pará com o desafio de transformar promessas em resultados. De 10 a 21 de novembro, a capital paraense será o centro das atenções globais ao sediar a COP30, marcada por altas expectativas e pela urgência diante do agravamento da crise climática.

Desde 1995, quando as conferências começaram, as emissões de gases de efeito estufa aumentaram cerca de um terço, e o consumo de combustíveis fósseis segue em expansão. As temperaturas médias globais já ultrapassaram o limite de 1,5 °C em alguns anos, e cientistas alertam que o planeta se aproxima de um ponto crítico.

“Alguns progressos ocorreram, mas ainda estamos longe de garantir a promessa de vida sustentável na Terra”, afirma Juan Carlos Monterrey, representante especial do Panamá para as mudanças climáticas.

ENTRE AVANÇOS E FRUSTRAÇÕES

A questão que paira sobre as discussões em Belém é direta: a diplomacia climática tem sido eficaz? Para Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), as cúpulas ajudaram a conter um cenário ainda mais grave. “Sem o processo da COP, o mundo estaria a caminho de um aquecimento de 5 °C. Hoje projetamos menos de 3 °C, mas ainda é muito”, destacou.

Os números mostram que há avanços, embora insuficientes. O ritmo de crescimento das emissões desacelerou nas últimas três décadas, e o investimento global em energia limpa — que chegou a US$ 2,2 trilhões no último ano — já supera o destinado aos combustíveis fósseis, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). A expansão da energia solar e eólica, o aumento nas vendas de veículos elétricos e a melhora da eficiência energética indicam uma transição em curso.

“Há dez anos, seria impensável imaginar o atual avanço tecnológico e a queda nos preços de energias renováveis”, lembra Jennifer Morgan, ex-enviada especial da Alemanha para o clima e participante de todas as COPs.

DESAFIOS PERSISTENTES

Apesar do progresso, o uso de carvão, petróleo e gás natural continua elevado, impulsionado pelo crescimento econômico e pela nova demanda energética gerada por data centers e tecnologias de inteligência artificial. A AIE estima que o consumo global de carvão se manterá em níveis recordes até 2027, especialmente em países como China e Índia.

“Qualquer aumento acima de 1,5 °C será catastrófico para os pequenos Estados insulares”, alerta James Fletcher, ex-ministro de Energia de Santa Lúcia e enviado especial da Comunidade do Caribe (CARICOM).

Nos Estados Unidos, o cenário político também influencia os rumos do debate. O governo de Donald Trump, por exemplo, reduziu incentivos a energias renováveis e reverteu políticas ambientais, interrompendo parte do avanço obtido no Acordo de Paris. Mesmo assim, o tratado histórico permanece em vigor e segue sendo o principal compromisso global para conter o aquecimento do planeta.

CRÍTICAS AO MODELO E NOVAS PERSPECTIVAS

As negociações dentro das COPs exigem consenso entre quase 200 países — fator que, para muitos diplomatas, torna o processo lento e burocrático. “Estamos afogados em relatórios e papéis, quando deveríamos medir resultados em vidas salvas”, criticou Monterrey. Já Christiana Figueres, que comandou a ONU durante as negociações do Acordo de Paris, defende uma revisão do modelo, talvez com votações semelhantes às do Fundo Monetário Internacional.

Ela também acredita que a transição climática já ultrapassou a esfera política. “Hoje, a força da mudança vem do setor privado e do avanço tecnológico. Os governos estão acompanhando, mas não mais liderando”, disse Figueres, destacando o papel da China, responsável por um terço dos investimentos mundiais em energia limpa.

O PAPEL DE BELÉM

Para líderes e especialistas, o fato de a COP30 ocorrer em Belém carrega forte simbolismo. A Amazônia — vital para o equilíbrio climático do planeta — volta ao centro das discussões, e o Brasil tem a oportunidade de reafirmar sua liderança ambiental.

Manuel Pulgar Vidal, ex-presidente da COP20 e diretor do WWF, ressalta a importância do diálogo multilateral: “Não há alternativa melhor do que manter todos os países na mesa. É um processo lento, mas essencial”.

John Kerry, enviado climático dos Estados Unidos, também defende a continuidade das conferências. “Elas podem não ser suficientes, mas desistir seria muito pior. O que está em jogo é o futuro comum da humanidade.”

Em Belém, o mundo volta os olhos para a floresta e para o que ela representa: um símbolo de esperança, mas também um alerta urgente de que o tempo para agir está se esgotando.

Por ROBERTO BARBOSA/Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ

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