Angústia, irritabilidade e dificuldade para dormir antes do início da semana podem estar relacionadas tanto à forma como o trabalhador se relaciona com o trabalho quanto às condições do ambiente profissional
Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo
Para muitas pessoas, o fim do domingo marca o início de uma preocupação que nada tem a ver com o descanso que ainda poderia existir. A aproximação da segunda-feira pode trazer à cabeça reuniões, e-mails, metas, tarefas acumuladas e conversas pendentes. Esse fenômeno é conhecido popularmente como “ansiedade de domingo” ou “Sunday Scaries”.
O termo não corresponde a um diagnóstico psiquiátrico específico, mas é usado para descrever sentimentos negativos que aparecem quando o fim do fim de semana se aproxima e uma nova semana de trabalho está prestes a começar.
Segundo o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em saúde mental relacionada ao trabalho, é importante diferenciar a resistência comum ao fim do descanso de um sofrimento que se repete semanalmente e interfere na vida do trabalhador.Play Video
“Há uma diferença importante entre pensar ‘eu gostaria que o domingo durasse mais’ e passar todas as semanas com ansiedade, insônia, irritabilidade ou medo diante da perspectiva de voltar ao trabalho. Quando isso começa a se repetir e comprometer o período de descanso, precisamos entender o que está acontecendo”, explica.
Quando a cabeça já voltou ao trabalho
A antecipação de situações futuras faz parte do funcionamento normal do cérebro e é importante para planejamento e organização. O problema surge quando essa capacidade mantém a pessoa em estado de alerta diante de situações que ainda nem aconteceram.
O trabalhador pode estar fisicamente em casa, mas mentalmente já estar no escritório. Pensamentos como “e se meu chefe reclamar?”, “e se eu não conseguir entregar?” ou “como vou dar conta de tudo?” ocupam o espaço que deveria ser destinado ao descanso.
“Tinha uma fase que eu quase chorava quando chegava a noite do domingo. Muito ruim”, relatou Ana Clara, médica de 24 anos, à CNN Brasil.
Esse processo pode ser ainda mais intenso em ambientes marcados por sobrecarga, cobranças constantes, imprevisibilidade, conflitos ou pouca segurança psicológica.
“O descanso não depende apenas de estar fisicamente longe do trabalho. Se a pessoa passa o sábado e o domingo pensando nas demandas profissionais, antecipando problemas e acompanhando mensagens, existe uma dificuldade real de recuperação entre uma jornada e outra”, afirma Daniel.
A ansiedade também pode começar antes mesmo do domingo. Pendências acumuladas na sexta-feira, falta de clareza sobre prioridades e a sensação de que sempre ficou alguma coisa para trás podem fazer com que o trabalhador leve mentalmente o expediente para o fim de semana.
Celular diminui a fronteira entre trabalho e descanso
A tecnologia tornou essa separação ainda mais difícil. Se antes sair da empresa representava uma ruptura física com o ambiente profissional, hoje mensagens e e-mails podem chegar a qualquer hora.
Uma notificação no grupo da equipe no domingo ou um e-mail visualizado durante o sábado pode ser suficiente para recolocar a pessoa em “modo de trabalho”. Mesmo quando não existe uma determinação explícita para responder fora do expediente, a expectativa de disponibilidade pode dificultar a desconexão.
“O simples fato de saber que uma mensagem pode chegar ou de sentir que precisa verificar o celular já pode dificultar a desconexão. A pessoa nunca sabe exatamente quando terminou de trabalhar”, explica o psiquiatra.
Ansiedade de domingo é burnout?
Sentir desânimo com o fim do fim de semana ou preferir que a segunda-feira demorasse mais para chegar não significa, por si só, que exista burnout, depressão ou um transtorno de ansiedade. Segundo o especialista, o que merece atenção é principalmente a frequência, a intensidade e o impacto dos sintomas.
Insônia recorrente aos domingos, irritabilidade intensa, crises de choro, palpitações, tensão muscular, alterações gastrointestinais, medo intenso e pensamentos persistentes sobre abandonar o emprego são sinais que devem ser observados, especialmente quando começam a comprometer outras áreas da vida. Outro indicativo é quando o sofrimento passa a aparecer cada vez mais cedo durante o fim de semana.
“Primeiro a angústia aparece no domingo à noite. Depois começa após o almoço. Mais adiante, a pessoa percebe que já está pensando na segunda-feira no sábado. Nesse momento, psicologicamente, o trabalho começou a ocupar também o espaço que deveria ser destinado à recuperação”, observa Daniel.
O problema pode estar no ambiente profissional
Diante da ansiedade, é comum buscar soluções individuais, como praticar atividade física, meditar, organizar melhor a agenda ou reduzir o uso do celular. As medidas podem ajudar, mas não necessariamente resolvem a causa do problema.
“Depois de um tempo percebi que não está correto me sentir assim toda semana, o que me fez buscar mudanças na minha vida”, relatou o engenheiro João Pedro, de 25 anos, à CNN Brasil.
Também é preciso avaliar as condições em que o trabalho é realizado. Entre os pontos que merecem atenção estão a existência de sobrecarga constante, metas incompatíveis com a realidade, pouca autonomia, falta de clareza sobre responsabilidades e ausência de segurança para fazer perguntas ou admitir erros.
A forma de atuação da liderança também pode ser relevante, especialmente quando medo, ameaça ou humilhação são utilizados como mecanismos de gestão. A cobrança frequente fora do horário de expediente é outro fator que pode dificultar a recuperação.
“Saúde mental corporativa não pode significar simplesmente ensinar o trabalhador a tolerar melhor um ambiente que sistematicamente produz sofrimento. Quando a origem do problema está nas condições de trabalho, a responsabilidade pela solução não pode ser colocada exclusivamente sobre o indivíduo”, afirma o especialista.
A relação pessoal com o trabalho também importa
Isso não significa, porém, que a origem da ansiedade esteja sempre na empresa. Características individuais também podem contribuir para a dificuldade de desligar-se das atividades profissionais.
Perfeccionismo, medo de errar, necessidade excessiva de aprovação, insegurança profissional, dificuldade de estabelecer limites e de delegar tarefas podem fazer com que algumas pessoas continuem trabalhando mentalmente mesmo quando o expediente acabou. É o caso de quem verifica e-mails durante o jantar, revisa repetidamente uma apresentação, antecipa problemas que talvez nunca aconteçam ou sente culpa quando não está produzindo.
“Nesses casos, é importante compreender a própria relação com desempenho, cobrança e descanso. Descansar não deveria ser interpretado como falta de comprometimento profissional”, explica Daniel.
Como diminuir a ansiedade antes da segunda-feira
Algumas estratégias podem ajudar a reduzir a antecipação das demandas profissionais.
Uma delas começa ainda na sexta-feira: separar alguns minutos para organizar as pendências, definir as prioridades da semana seguinte e registrar o que precisa ser feito pode diminuir a necessidade de manter todas essas informações na cabeça durante o fim de semana. Também pode ser útil estabelecer limites para mensagens profissionais fora do expediente, quando a natureza da atividade permitir.
No domingo, preparar o que será necessário para a manhã seguinte e conferir brevemente a agenda pode reduzir a sensação de imprevisibilidade. Depois disso, porém, é importante retomar as atividades pessoais e evitar transformar o restante do dia em uma extensão da segunda-feira.
Essas medidas, no entanto, têm limites. Quando o sofrimento é persistente, não basta tentar administrar melhor os sintomas sem investigar o que está provocando a ansiedade.
“Não devemos usar técnicas de organização ou relaxamento apenas para tornar uma situação insustentável um pouco mais suportável. Se o sofrimento é persistente ou começa a prejudicar sono, relacionamentos, lazer, alimentação, concentração e qualidade de vida, é importante buscar avaliação profissional”, ressalta o psiquiatra.
Marcelo Camargo/Agência Brasil





