terça-feira, agosto 25, 2026
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Rosh Hashaná: entre o medo e a esperança

Há momentos em que o calendário deixa de ser apenas uma sucessão de dias e nos convida a olhar para o mundo,  e para nós mesmos,  com mais atenção.. O Ano Novo judaico é celebrado como um tempo de reflexão e renovação,  um tempo para no mundo que queremos ajudar a construir.

Chegamos a este novo ano judaico com a esperança de que a paz possa finalmente encontrar espaço em uma região marcada por conflitos, perdas e incertezas. Temos a lembrança ainda recente da guerra envolvendo Israel e o Irã, que mostrou, mais uma vez, como a instabilidade no Oriente Médio pode ultrapassar fronteiras e alimentar inseguranças muito além da região.

Para os judeus, porém, a preocupação não termina quando as sirenes silenciam. O crescimento do antissemitismo em diferentes partes do mundo tornou-se uma realidade que não pode ser ignorada. Vivenciamos um ano repleto de palavras de ódio e ataques a judeus e às suas instituições.

É nesse contexto que a existência e a atuação de instituições como o Congresso Judaico Latino-Americano, do qual sou presidente,  ganham ainda mais significado. Ao longo de sua trajetória, o Congresso tem buscado representar as comunidades judaicas da América Latina, fortalecer sua presença na sociedade e promover o diálogo com diferentes setores, sempre defendendo valores democráticos, a convivência e o respeito às diferenças.

A filósofa Hannah Arendt, ao refletir sobre a condição humana, chamou atenção para a importância da ação e da presença do outro na construção de um mundo comum. Em uma época marcada pela polarização, essa ideia ganha uma atualidade especial: não construímos o futuro isoladamente, mas na convivência com aqueles que são diferentes de nós.

A paz não pode ser apenas uma palavra bonita repetida em discursos ou uma esperança reservada aos dias de celebração. Paz é uma construção cotidiana. Exige coragem para conversar com quem pensa diferente, disposição para compreender o outro e firmeza para combater o ódio, venha ele de onde vier.

O judaísmo nos ensina que esperança não significa esperar passivamente. Esperar também é agir. É acreditar que o futuro pode ser diferente e, a partir dessa crença, assumir a responsabilidade de construí-lo.

Em um mundo tão polarizado, defender a paz não significa abrir mão de princípios. Ao contrário: significa reafirmá-los. Significa defender a vida, a dignidade humana, a liberdade religiosa, a democracia e o direito de cada povo viver com segurança e em paz.

Na América Latina, temos uma  história marcada pela capacidade de construir, participar e contribuir. Somos parte integrante das sociedades onde vivemos e, ao mesmo tempo, preservamos uma identidade milenar que nos ensina o valor da memória, da solidariedade e da responsabilidade coletiva.

Por isso, neste Rosh Hashaná, devemos nos perguntar que mundo queremos deixar para a próxima geração?

Um mundo no qual uma criança judia possa andar pela rua sem esconder sua identidade. Um mundo no qual criticar um governo não seja confundido com atacar um povo ou uma religião. Um mundo no qual diferenças possam ser debatidas sem que o adversário seja transformado em inimigo.

Não é uma utopia ingênua. É uma escolha.

Rosh Hashaná nos lembra que todo novo ano traz consigo a possibilidade de recomeçar. E talvez a maior esperança seja justamente essa: acreditar que, mesmo diante de tempos difíceis, ainda podemos escolher a palavra em vez do ódio, a solidariedade em vez da indiferença e a paz em vez da violência.

E que, entre tantas incertezas, possamos preservar aquilo que nenhuma guerra deveria ser capaz de destruir: a esperança de que um futuro melhor é possível, e a responsabilidade de construí-lo.

Que seja um ano bom, doce e, acima de tudo, de paz.

Jack Terpins é presidente do Congresso Judaico Latino-Americano

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