Leão tem dez rodadas para tentar escapar da Série B; Papão precisa reagir imediatamente no quadrangular da Série C para continuar sonhando com o acesso
O futebol paraense atravessa um momento de forte tensão. Clube do Remo e Paysandu, os dois principais clubes do Estado, chegam à reta decisiva de suas respectivas competições nacionais pressionados por resultados e obrigados a reagir. O Remo luta contra o rebaixamento na Série A do Campeonato Brasileiro, enquanto o Paysandu tenta evitar que a campanha pelo retorno à Série B termine antes do esperado.
Os dois clubes trocaram de treinador recentemente. No Remo, Thiago Carpini assumiu o lugar de Léo Condé. No Paysandu, Mazola Júnior voltou à Curuzu para substituir Júnior Rocha. A missão dos dois é semelhante: recuperar equipes que perderam pontos importantes e devolver confiança aos jogadores e às torcidas.
Mas os cenários são diferentes.
No caso azulino, a matemática é de sobrevivência na elite. Para o Papão, a conta é pela classificação entre os dois primeiros do quadrangular que garantem presença nas semifinais e, consequentemente, o acesso à Série B de 2027.

REMO: UMA CONTA CADA VEZ MAIS APERTADA
A situação do Remo ficou ainda mais delicada depois da derrota por 2 a 1 para o Santos, no último sábado, no Mangueirão. O resultado marcou a estreia de Thiago Carpini e manteve o Leão na vice-lanterna do Brasileirão, com 23 pontos.
O time azulino chegou a oito partidas consecutivas sem vencer e acumulou cinco derrotas seguidas. A distância para o primeiro clube fora da zona de rebaixamento aumentou e a margem para erros praticamente desapareceu.
Antes da derrota para o Santos, o Remo já havia perdido para Bahia, Flamengo e Fluminense, entre outros adversários, em uma sequência que provocou a saída de Léo Condé.
Condé deixou o clube depois de 30 partidas, com oito vitórias, sete empates e 15 derrotas. Ele havia assumido o time ainda no primeiro semestre, substituindo Juan Carlos Osorio.
Agora, Carpini terá dez rodadas para tentar modificar o panorama.
E a matemática é pesada.
Com 23 pontos após 28 rodadas, o Remo terá mais 30 pontos em disputa. Para alcançar uma pontuação na faixa historicamente associada à permanência, o clube precisará apresentar, nas dez rodadas restantes, um rendimento muito superior ao apresentado até aqui.
Um estudo divulgado pelo Departamento de Matemática da UFMG após a 28ª rodada apontou 94,6% de probabilidade de rebaixamento para o Remo. O número é uma projeção estatística, não uma sentença: os jogos restantes ainda podem alterar completamente o cenário.
A ESPERANÇA ESTÁ NOS CONFRONTOS DIRETOS
Apesar da situação complicada, o calendário oferece ao Remo uma possibilidade de reação.
Das dez partidas restantes, cinco serão disputadas em Belém e cinco fora de casa. O Leão ainda terá pela frente adversários que também estão envolvidos, em maior ou menor grau, na luta contra a parte de baixo da tabela.
O próximo compromisso será justamente um dos mais importantes: Remo x Grêmio, em 7 de outubro, no Mangueirão.
O Grêmio aparece como adversário direto na luta contra o rebaixamento e também passou recentemente por mudança no comando técnico, com Renato Gaúcho retornando ao clube.
Depois, o Remo enfrentará o Vasco fora de casa, o Bragantino em Belém e terá compromissos contra Cruzeiro, Botafogo, Palmeiras, Chapecoense, Athletico-PR, São Paulo e Corinthians.
A sequência completa é:
| Rodada | Jogo | Local |
| 29ª | Remo x Grêmio | Belém |
| 30ª | Vasco x Remo | Rio de Janeiro |
| 31ª | Remo x Bragantino | Belém |
| 32ª | Cruzeiro x Remo | Belo Horizonte |
| 33ª | Remo x Botafogo | Belém |
| 34ª | Palmeiras x Remo | São Paulo |
| 35ª | Remo x Chapecoense | Belém |
| 36ª | Athletico-PR x Remo | Curitiba |
| 37ª | São Paulo x Remo | São Paulo |
| 38ª | Remo x Corinthians | Belém |
O calendário mostra uma característica importante: não basta ao Remo vencer em casa. O clube precisará também arrancar pontos fora de Belém, porque a distância para os concorrentes pode aumentar caso a equipe não pontue longe do Mangueirão.

O QUE CARPINI PRECISA MUDAR?
O primeiro desafio de Thiago Carpini é recuperar a capacidade competitiva de uma equipe que vem sofrendo com derrotas consecutivas.
Na estreia contra o Santos, o Remo chegou a empatar a partida depois de sair atrás, mas sofreu o segundo gol e acabou derrotado por 2 a 1. A equipe ainda terminou o confronto com dez jogadores após a expulsão de Gabriel Poveda.
O novo treinador terá agora duas semanas de preparação antes da partida contra o Grêmio, por causa da Data Fifa.
Esse período pode ser decisivo para corrigir problemas defensivos, aumentar a produção ofensiva e, principalmente, recuperar a confiança de um elenco pressionado.
Há, porém, um ponto que pode alimentar a esperança azulina: o Remo ainda tem cinco jogos em Belém nas dez rodadas finais. Além disso, seis dos adversários restantes estão atualmente na metade inferior da tabela.
A questão é transformar essa condição de calendário em pontos.
O EXEMPLO QUE O REMO PODE USAR
A situação atual já foi vivida por outros clubes.
O caso mais lembrado é o Fluminense de 2009. Naquela temporada, o clube carioca chegou às rodadas finais praticamente condenado ao rebaixamento e conseguiu uma reação histórica.
Mas o próprio levantamento histórico mostra o tamanho da dificuldade: desde 2006, na era dos pontos corridos com 20 clubes, somente o Fluminense conseguiu escapar depois de chegar à 27ª rodada com pontuação igual ou inferior à do Remo em 2026.
Portanto, o precedente existe, mas é excepcional.
O Remo precisa produzir uma arrancada fora do padrão para transformar o que hoje é uma luta contra o rebaixamento em uma disputa possível pela permanência.

PAYSANDU: O ACESSO AINDA ESTÁ VIVO, MAS A MARGEM ACABOU
Se o Remo luta contra a queda, o Paysandu enfrenta outro tipo de drama.
O Papão chegou ao quadrangular decisivo da Série C com o objetivo de retornar à Série B, mas começou a fase decisiva abaixo do esperado.
Depois de perder para o Brusque por 1 a 0, fora de casa, o Paysandu empatou em 2 a 2 com a Inter de Limeira, na Curuzu, no último domingo.
O problema foi o modo como o resultado aconteceu.
O Papão esteve duas vezes à frente no placar, mas sofreu o empate nos minutos finais, em cobrança de pênalti. O resultado manteve o time na última colocação do grupo.
A classificação, após três rodadas, coloca a Ferroviária na liderança, com sete pontos. O Brusque tem quatro, a Inter de Limeira soma três e o Paysandu aparece com apenas um ponto.
Ou seja: restam três partidas e o Papão precisa reagir imediatamente.

MAZOLA CHEGOU, MAS O TEMPO É CURTO
Mazola Júnior retornou à Curuzu com uma responsabilidade enorme.
O treinador de 61 anos já conhece o clube e tem uma relação direta com uma das maiores conquistas recentes do Paysandu: foi o comandante do acesso de 2014.
Agora, 12 anos depois, volta justamente para tentar repetir o caminho.
A estreia, entretanto, terminou em empate.
Depois da partida contra a Inter de Limeira, Mazola afirmou que o Paysandu ainda está vivo e destacou que o time está a três pontos do segundo colocado. Também ressaltou que ainda haverá confrontos diretos pela frente.
O discurso encontra respaldo na matemática.
O Papão ainda pode chegar a dez pontos, caso vença as três partidas restantes. Portanto, o acesso não está matematicamente perdido.
Mas a situação exige uma reação imediata.
OS TRÊS JOGOS QUE PODEM DECIDIR O ANO
O calendário do Paysandu ficou definido assim:
| Rodada | Jogo | Local |
| 4ª | Inter de Limeira x Paysandu | Limeira |
| 5ª | Paysandu x Ferroviária | Belém |
| 6ª | Brusque x Paysandu | Brusque |
O primeiro deles já é praticamente uma partida de seis pontos.
O Paysandu precisa enfrentar novamente a Inter de Limeira, desta vez fora de casa. Depois, recebe a Ferroviária e encerra sua participação contra o Brusque, também fora.
A situação é clara: o Papão não pode mais desperdiçar pontos.
Uma vitória fora de casa pode recolocar o clube na disputa. Uma derrota, por outro lado, pode deixar a classificação para as semifinais muito distante.
A própria tabela da Série C estabelece que apenas os dois primeiros colocados de cada quadrangular avançam às semifinais e garantem o acesso à Série B de 2027.
O QUE O PAYSANDU PRECISA FAZER?
Há alguns caminhos matemáticos.
Se vencer os três jogos, o Paysandu chegará a dez pontos. É o cenário que lhe dá a maior margem para depender apenas de sua própria campanha.
Se vencer dois e empatar um, chegará a oito pontos. Nesse caso, a classificação poderá depender da combinação dos resultados dos adversários.
Se conseguir apenas uma vitória nas três partidas restantes, chegará a quatro pontos e ficará muito dependente de uma combinação favorável de resultados.
O problema é que Ferroviária e Brusque já largaram na frente.
A Ferroviária, por exemplo, terminou o primeiro turno do quadrangular com sete pontos em três partidas e assumiu uma posição confortável na liderança do grupo.
Por isso, cada rodada passou a ter peso enorme para o Paysandu.
A PRESSÃO SOBRE MAZOLA
A chegada de Mazola Júnior interrompeu uma sequência de resultados que vinha aumentando a pressão sobre o clube.
O Paysandu estava havia quase um mês sem vencer quando o novo treinador assumiu. A última vitória havia ocorrido em 22 de agosto, contra o Ituano, ainda pela primeira fase da Série C.
Júnior Rocha deixou o comando depois da derrota para o Brusque. O treinador havia conquistado três títulos pelo clube durante sua passagem.
Agora, Mazola terá apenas três partidas para tentar mudar o rumo da equipe.
É uma diferença importante em relação ao Remo.
Carpini ganhou duas semanas de preparação antes de seu próximo jogo. Mazola, por outro lado, terá de fazer ajustes praticamente durante a competição, com partidas decisivas em sequência.
DOIS CLUBES, DUAS BATALHAS E UM MESMO PROBLEMA
Remo e Paysandu vivem situações diferentes, mas existe uma semelhança evidente: os dois chegaram ao momento decisivo do campeonato precisando de uma reação imediata.
No Remo, a questão é permanecer na Série A.
No Paysandu, é transformar uma campanha irregular em uma arrancada capaz de colocar o clube entre os dois primeiros do quadrangular e garantir o acesso à Série B.
Para o Leão, o principal desafio é a distância para os concorrentes e a necessidade de conquistar muitos pontos nas dez partidas restantes.
Para o Papão, o problema é ainda mais concentrado no tempo: são somente três jogos para tentar recuperar uma desvantagem que já existe.
OS CENÁRIOS A PARTIR DE AGORA
REMO
Cenário de reação: começa vencendo o Grêmio e passa a somar pontos também nos confrontos diretos. Uma sequência de vitórias em Belém, combinada com resultados favoráveis dos concorrentes, pode recolocar o clube na disputa pela permanência.
Cenário de sobrevivência: mesmo sem vencer todas as partidas, o Remo pode permanecer competitivo caso consiga pontuar nos confrontos diretos e reduza gradualmente a diferença para os clubes que estão imediatamente acima.
Cenário de agravamento: novas derrotas nas próximas rodadas podem aumentar a distância e tornar a reação cada vez mais difícil. A projeção estatística atual já aponta risco elevado de queda.
PAYSANDU
Cenário de reação: três vitórias levam o Papão a dez pontos e podem colocá-lo em condições de disputar uma das duas vagas.
Cenário intermediário: duas vitórias e um empate levariam o time a oito pontos e deixariam a classificação condicionada também aos resultados de Ferroviária, Brusque e Inter.
Cenário de eliminação: novos tropeços podem tornar matematicamente impossível alcançar os dois primeiros colocados.
A TORCIDA TERÁ PAPEL DECISIVO
Para Remo e Paysandu, a pressão das arquibancadas já faz parte do cenário.
Mas os dois clubes precisam transformar a pressão em combustível.
No caso azulino, o Mangueirão será palco de cinco dos dez jogos restantes. No caso bicolor, a Curuzu receberá ainda um confronto decisivo contra a Ferroviária.
São partidas em que o ambiente pode influenciar o desempenho, mas também aumentar a responsabilidade sobre jogadores e comissão técnica.
A temporada ainda não terminou para nenhum dos dois.
O Remo continua matematicamente vivo na Série A e terá dez rodadas para tentar escapar da queda. O Paysandu ainda pode alcançar a Série B e tem três partidas para buscar uma recuperação no quadrangular.
O que mudou é o tamanho do espaço para erros.
E, a partir de agora, cada ponto terá peso de decisão.
No Remo, a palavra é sobrevivência.
No Paysandu, reação.
Para os dois, o relógio já está correndo.
Por ROBERTO BARBOSA e NAZARÉ SARMENTO, Jornal A PROVÍNCIA DO PARÁ/Imagens: agências Remo e Paysandu







