Comando Vermelho amplia influência sobre corredores fluviais, Belém e Barcarena. Levantamento aponta presença de grupos criminosos em 91 municípios paraenses em 2025
O crime organizado encontrou na geografia amazônica uma aliada para expandir seus negócios. No Pará, rios, portos e áreas de garimpo integram uma rede que conecta facções brasileiras a rotas internacionais do narcotráfico. O Comando Vermelho (CV) consolidou sua influência nos corredores fluviais e, segundo levantamento que acaba de ser divulgado pela InfoAmazonia, exerce controle sobre Belém e seu entorno, além de compartilhar rotas de contrabando pelo porto de Barcarena, em direção ao Amapá.
O cenário estadual já havia sido dimensionado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na edição de 2025 do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, o Pará aparece como o segundo estado da Amazônia Legal com maior número de municípios com presença de organizações criminosas: 91, dos quais 71 registravam o predomínio de uma facção e 20 tinham atuação de dois ou mais grupos. O levantamento identificou oito organizações no território paraense.
O Comando Vermelho estava presente em 88 municípios, sendo a única facção identificada em 68. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por sua vez, aparecia em 18 cidades, com exclusividade em três. Altamira, Castanhal, Marabá e Xinguara registravam disputas envolvendo três grupos criminosos.
O novo mapeamento do Amazon Underworld, publicado em outubro de 2026, amplia a dimensão internacional do problema. A pesquisa identificou facções ou grupos armados em 768 dos 1.310 municípios amazônicos de seis países, ou 59% do total. Em um terço das localidades com presença confirmada, mais de uma organização atua. Nove grupos operam em pelo menos dois países.
No Pará, a posição estratégica dos portos é um dos principais atrativos para as organizações. Barcarena, especialmente por sua estrutura logística, aparece como ponto de passagem de carregamentos destinados ao mercado internacional. Segundo o levantamento, criminosos recorrem inclusive a semissubmersíveis e métodos sofisticados de ocultação de cocaína, como o transporte em caixões, para abastecer rotas marítimas com destino à Europa.
Mas o negócio não termina na droga. A valorização internacional do ouro transformou o garimpo ilegal em uma das atividades mais lucrativas da economia criminosa amazônica, superando, segundo o estudo, até mesmo a receita do tráfico de cocaína. Extorsão, controle territorial e violência também integram a diversificação das atividades.
A floresta, portanto, não enfrenta apenas a pressão do desmatamento e da exploração ilegal de recursos naturais. Enfrenta organizações que aprenderam a transformar rios em estradas e portos em plataformas logísticas. Para o crime organizado, a Amazônia é um território de oportunidades. Para quem vive nela, o preço dessa expansão pode ser devastador.
Por Paulo Silber (Cidade 091)/Imagem: Reprodução








