Duas alunas da rede municipal de educação vão representar a capital paraense em evento esportivo realizado em Boston
Durante a Copa do Mundo, jovens do mundo inteiro estarão reunidos em uma das cidades-sede do torneio para participar de um intercâmbio cultural, esportivo e cidadão. O Festival 26 ocorre de 5 a 13 de julho em Boston, nos Estados Unidos, com a participação de 400 jovens de 24 países. Entre eles, as alunas Rafaeli da Silva, 14 anos, e Ester de Carvalho, 15 anos, ambas de escolas municipais de Belém.
As estudantes foram selecionadas dentre os alunos que participam do Projeto Escola de Mediação, que usa a prática esportiva como ferramenta para promover o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens da rede pública municipal de ensino. Realizado pelo Instituto Formação, com a parceria da Secretaria Municipal de Educação (Semec), o projeto realiza atividades em quatro escolas municipais de Belém, dentre elas a Gabriel Lage da Silva, onde estuda Rafaeli da Silva, e a Helder Fialho Dias, na qual estuda Ester de Carvalho.
A delegação do Escola de Mediação será formada por seis participantes: três de São Luís-MA (cidade-sede do projeto), dois de Belém-PA e um pessoa de Oiapoque-AP. Ester e Rafaeli vão sair de Belém no dia 02 de julho, primeiramente, para São Luís, para encontrar com o restante da delegação. A data de saída de São Luís para Boston está prevista para 05 de julho.
Para Enilson Silva, professor do projeto na Escola Helder Fialho, a viagem é uma oportunidade de ampliar o horizonte dos participantes.
“Sem dúvidas, vai ser um divisor de águas, pois vivenciar um momento como o Festival 26 é perceber que oportunidades existem, suas vidas serão impactadas pela troca de experiências e pelo contato com outras culturas”, afirma o professor.
Segundo Ana Paula Lima, professora do projeto da Escola Gabriel Lage, essa é uma possibilidade para uma transformação de perspectiva de futuro dos participantes.
“Essa viagem pode impactar a vida desses alunos desenvolvendo neles a liderança e o protagonismo juvenil”, comenta.
LIDERANÇA
Para participar do Festival 26, os jovens precisam ter entre 14 e 17 anos. Como as outras duas escolas onde o projeto atua em Belém só vão até o 5º ano, as selecionadas automaticamente precisavam ser das escolas Gabriel Lage e Helder Fialho.
Como critério de seleção, os jovens deveriam estar inscritos no projeto, ter participação, assiduidade e bom comportamento dentro das atividades. Além disso, houve análise integrada com a diretoria e a coordenação das escolas, para selecionar alunos com boa conduta escolar.
Esse era o caso de Ester de Carvalho. De acordo com a diretora da Escola Helder Fialho, Sandra Coutinho, a estudante se destaca não apenas no projeto esportivo, mas também como participante do projeto de meio ambiente da escola, o “Viveiro Educador”.
“Ester é uma aluna que lidera o grupo nas atividades esportivas. Interage bem com os colegas, respeita os professores e colegas. Respeita regras e combinados. E tem muito amor pelo esporte”, destaca a gestora.
O professor Elenilson confirma o perfil da estudante.
“A Ester sempre se destacou por seu empenho nas atividades, tem facilidade em aprender os fundamentos das modalidades e também exerce um papel de protagonista entre os colegas, sendo sua liderança visível diariamente”, afirma o professor.
Ester sonha em ser jogadora profissional de futebol ou de vôlei. O futebol já estava nos planos desde antes do projeto chegar na escola, mas foi com o Escola de Mediação que o vôlei se tornou uma paixão.
“Eu consegui aprender muito vôlei”, afirma a aluna.
Ester conta que está ansiosa para a viagem e acredita que vai ser uma experiência muito boa.
“Vai ser tudo de bom, porque lá a gente vai conhecer novas pessoas, fazer amizade. Vou aprender mais de futebol, vou jogar”, comenta a jovem.

PERSISTÊNCIA
Além de trabalhar diferentes modalidades esportivas com os estudantes, o Escola de Mediação desenvolve outras ações como oficinas esportivas, ciclos formativos para jovens líderes, ações de integração com famílias e comunidade, além da oferta de MBA gratuito em Esporte Educacional e Esporte Adaptado para professores de Educação Física e pedagogos da Semec.
As modalidades esportivas trabalhadas nas escolas são Atletismo, Badminton, Basquetebol, Futsal e Voleibol e são abertas para todos, mesmo que os estudantes não dominem nenhuma prática esportiva.
Quando o projeto chegou na sua escola, a aluna Rafaeli não sabia jogar, mas a persistência a fez se destacar entre os colegas.
“Era uma jovem muito tímida, sem muito talento para o esporte, porém com muita força de vontade de aprender. Esse sempre foi o diferencial dela, além de ser uma menina responsável, obediente e dedicada na escola. Não faltava um dia das aulas do projeto”, afirma a professora Paula Lima.
A professora Paula Spada, da Escola Gabriel Lage, acompanha a Rafaeli desde o 6º ano e atualmente em outros projetos, e comenta que na escola ela se destaca por ser comunicativa, responsável e por ter facilidade em trabalhar em grupo.
“Ela é uma aluna de destaque porque não apenas participa das atividades, mas se envolve de verdade. Ao longo dos projetos, ela teve um desenvolvimento muito bonito. Como embaixadora pelo meio ambiente da turma, mostrou liderança, cuidado com os colegas e vontade de contribuir. Esse envolvimento abriu caminho para que ela também participasse da equipe de robótica da escola, onde demonstrou ainda mais maturidade, dedicação e crescimento como estudante e como pessoa”, afirma a professora.
Rafaeli relembra que o projeto veio para a escola num momento difícil da vida dela, porque estava no início da adolescência sem fazer nenhuma atividade física.
“Comecei a fazer vôlei e gostei muito. Pra mim foi muito bom ter começado a fazer atividades físicas, porque eu já estava parando…”, conta.
A estudante está empolgada e nervosa para a viagem, mas diz que tem tido apoio da família e da escola.
“Nossa, tô super empolgada! Ajeitando mala… Tô um pouco nervosa, porque sair do teu país para um lugar onde a cultura é diferente… Quando eu soube, falei ‘Meu Deus, eu não sei falar inglês, o que eu vou fazer?’. Mas a escola mesmo tem me ajudado muito, eu tive algumas aulas de inglês”, comenta Rafaeli.
OPORTUNIDADE
Esta vai ser a primeira viagem internacional de Rafaeli e de Ester. A primeira viagem de avião já realizaram, quando foram a Recife, Pernambuco, tirar o visto para a entrada nos EUA.
Ester nunca tinha sequer saído de Belém, e ficou emocionada ao lembrar da surpresa que teve ao receber o convite para a viagem.
“Eu fiquei… Tipo assim… ‘Será que isso é verdade?’. Fiquei muito feliz. Porque eu nunca tinha saído daqui. E sempre foi meu sonho sair para ir pra fora, desde pequena. E a minha mãe ficou feliz. Primeiro, ela pensou que era golpe, mas aí depois foi ver que é verdade. Ela ficou muito feliz, porque era o sonho dela também. Falou que ela não pôde ver essa realização, mas a filha dela vai poder”, conta Ester.
Rafaeli não esperava ser a escolhida dentre os colegas para a viagem, mas ficou muito feliz com a notícia. “A primeira coisa que eu pensei foi ‘Nossa, eu? Sair do país para outro lugar?’. Eu fiquei super, muito feliz. Porque a professora falou que a gente ia passar por uma avaliação, mas eu pensei ‘Não vai ser eu, tem gente melhor’. Aí ela me chamou para conversar e falou que seria eu. Foi uma satisfação, uma honra muito grande ser escolhida de uma escola entre vários alunos que participam do projeto”, relembra a estudante.
Para duas meninas negras de origem humilde, da periferia, a viagem representa não apenas uma possibilidade de aprendizado, mas também uma experiência de vida que pode alargar suas visões de mundo e trazer novas oportunidades na vida estudantil e profissional.
“Essa oportunidade tem um significado muito grande na vida da Rafaeli. Ela é uma adolescente negra, da periferia, filha de uma família humilde, mas que sempre reconheceu o valor da educação. Poder participar desse projeto, conhecer outros estados e até outro país, talvez fosse algo muito distante da realidade dela. Hoje, essa experiência está mostrando para Rafaeli e para sua família que a educação, o esporte e os projetos escolares podem abrir portas, romper barreiras e realizar sonhos”, afirma a professora Paula Spada.
A diretora Sandra Coutinho, da Escola Helder Fialho, também reforça que essa oportunidade vai marcar para sempre a vida da Ester.
“Vivemos numa realidade bem distante, até de perspectiva de vida mesmo. De viajar, conhecer lugares, ter visão de planos futuros. E isso é uma grande oportunidade para a Ester, ter essa experiência como uma outra leitura do mundo. Ester representa uma menina da periferia e da escola pública. E eu como educadora acredito no potencial da escola pública e da força da comunidade”, afirma Sandra.
As atividades do projeto Escola de Mediação nas escolas de Belém começaram em outubro de 2025, e terão duração de três anos. Mais de mil estudantes são atendidos diretamente pela iniciativa.
Fonte e imagens: Agência Belém












