Em um estado líder nacional em informalidade, profissionais maduros enfrentam barreiras para voltar ao mercado de trabalho e convivem com o medo da exclusão econômica. É o drama dos trabalhadores maduros de Belém, que enfrentam preconceito etário, avanço da informalidade e dificuldades de recolocação.
Levantamentos do IBGE mostram que a taxa de desemprego entre pessoas mais velhas costuma ser menor do que entre os jovens. Mas o problema central não é o desemprego aberto, mas a dificuldade de retorno, a permanência prolongada fora do mercado quando ocorre uma demissão e a migração para a informalidade.
Quando um trabalhador de 25 anos perde o emprego, a sociedade costuma enxergar uma fase passageira. Quando isso acontece aos 55, a percepção é outra. Em muitos casos, a demissão deixa de representar apenas uma interrupção da renda e passa a significar o risco concreto de exclusão permanente do mercado de trabalho.
Em Belém, onde o setor de serviços concentra grande parte das ocupações e a informalidade está entre as mais elevadas do país, esse temor tem nome e sobrenome: etarismo. Trata-se da discriminação baseada na idade, fenômeno apontado por pesquisadores como uma das principais barreiras para a contratação de profissionais mais experientes.
O problema ocorre justamente quando o Brasil envelhece em velocidade inédita. Segundo o IBGE, a população idosa cresceu mais de 53% entre 2012 e 2024, saltando de 22 milhões para 34,1 milhões de pessoas. O aumento da longevidade, a necessidade de complementar a aposentadoria e as mudanças introduzidas pela reforma previdenciária fizeram com que milhões de brasileiros permanecessem economicamente ativos por mais tempo. Mas permanecer no mercado é uma coisa. Conseguir retornar a ele após uma demissão é outra completamente diferente.
Embora a taxa geral de desemprego do Brasil tenha alcançado em 2024 o menor nível da série histórica da PNAD Contínua, fechando o ano em 6,6%, especialistas alertam que o indicador esconde situações bastante distintas entre as faixas etárias.
No caso dos trabalhadores acima dos 50 anos, a principal ameaça não é necessariamente o desemprego aberto, mas a dificuldade de recolocação. Dados do IBGE mostram que o estado registrou, no quarto trimestre de 2024, a maior taxa de informalidade do país: 57,6% dos trabalhadores ocupados estavam em atividades sem proteção formal. O percentual ficou muito acima da média nacional, de 38,6%.
Para trabalhadores maduros de Belém, a consequência é direta. Quando uma vaga formal desaparece, as alternativas mais acessíveis costumam ser o comércio ambulante, os serviços autônomos, o trabalho por conta própria ou ocupações temporárias de baixa remuneração. O resultado é uma espécie de desemprego invisível.
A capital paraense combina envelhecimento populacional gradual, renda média inferior à observada nos grandes centros do Sudeste e forte dependência do setor de serviços. São características que tornam o trabalhador mais velho especialmente vulnerável em momentos de retração econômica ou reestruturação empresarial.
Empresas frequentemente associam profissionais acima dos 50 anos a custos mais elevados, menor flexibilidade ou dificuldades de adaptação tecnológica. Outro fator de pressão é a digitalização acelerada. Processos seletivos migraram para plataformas online, currículos passaram a ser filtrados por algoritmos e novas competências digitais tornaram-se exigências básicas em inúmeros setores. Para profissionais que construíram suas carreiras em outra realidade tecnológica, a adaptação nem sempre ocorre na mesma velocidade exigida pelas empresas.
Isso não significa falta de capacidade, mas um descompasso entre as exigências do mercado e as oportunidades de qualificação oferecidas a trabalhadores maduros. E essa talvez seja a face mais inquietante do problema: enquanto a população envelhece e a expectativa de vida aumenta, uma parcela dos trabalhadores continua enfrentando dificuldades para permanecer economicamente relevante justamente quando acumula o maior patrimôni.
Por Paulo Silber/Imagem: Agência Brasil









