Belém, capital do Pará e sede da COP 30, protagonizou ontem, sábado, 15, um debate sobre soluções climáticas e tecnologias emergentes ao sediar o 18º Workshop de Inovação Sistêmica, iniciativa do United Nations Climate Change Global Innovation Hub (UN GIH). O encontro, realizado na FIEPA/SENAI Getúlio Vargas, reuniu representantes de governos, cientistas, empreendedores, investidores, lideranças indígenas, instituições acadêmicas e organismos internacionais para avançar projetos estruturantes de inovação climática com foco na Amazônia.
Criado durante a COP26, os Workshops de Inovação Sistêmica, conhecidos como SIW, já passaram por diferentes regiões do mundo e, juntos, resultaram em mais de 40 potenciais projetos internacionais.
AMBIÇÃO E AÇÃO CONJUNTA
Na abertura, Perumal Arumugam, gerente de Mitigação da UNFCCC, reforçou que a transição climática depende da combinação entre tecnologia e inovação social. “Somente a tecnologia não é suficiente, e somente a inovação social também não é. Mas quando as duas caminham juntas, podemos construir uma transição equilibrada e resiliente”, afirmou.
O presidente da FIEPA, Alex Carvalho, destacou o papel estratégico da Amazônia na inovação global. Ele ressaltou que a COP30 em Belém representa “uma oportunidade histórica para abrir portas para novos diálogos e soluções”.
Experiências municipais e comunitárias mostram caminhos para a transformação
O primeiro painel do dia discutiu iniciativas na promoção de ações transformadoras de sustentabilidade na Amazônia. MarcoAntônio Giagio, diretor-geral do Instituto CERTI Amazônia, destacou o papel do Parque da Bioeonomia, inaugurado recentemente, enfatizando que todo o suporte oferecido aos empreendedores é gratuito.
“Para transformar o Pará em um grande hub de startups, precisamos abrir o funil. É necessário atrair mais parceiros, mais apoio institucional e muito mais ideias entrando no sistema”, afirmou.
Mariana Oliveira, da Secretaria de Bioeconomia do Pará, apresentou a construção do Plano Estadual de Bioeconomia, que emergiu como resposta ao período de alta do desmatamento em 2019. “O Plano Amazônia Agora busca transformar um desafio histórico em oportunidade de desenvolvimento, combinando comando e controle com estratégias econômicas baseadas na floresta em pé”, afirmou.

Tecnologias profundas colocam a Amazônia no centro da inovação global
O segundo painel discutiu o papel de tecnologias como observação da Terra, sensores, IA, computação de alto desempenho e gêmeos digitais.
Konstantin Pieper, da OroraTech, apresentou a atuação da empresa no monitoramento global de incêndios florestais a partir de constelações de satélites. “Trabalhamos com mais de 35 satélites e 800 usuários em 25 países. Conseguimos detectar focos quase em tempo real e prever a propagação do fogo”, disse.
Carlos Souza Jr., pesquisador associado do Imazon, destacou o avanço de novas frentes de desmatamento no Pará e seus impactos econômicos. “A castanha-do-pará já apresenta queda de qualidade e produtividade. Sem controle do desmatamento, nem a economia da floresta consegue se sustentar”, alertou.
David Dao, cientista da GainForest, chamou atenção para o desequilíbrio global na geração de dados de biodiversidade: “Mais de 82% dos dados vêm da Europa e América do Norte. Na Amazônia, só 0,5%. Isso distorce modelos e até estimativas de crédito de carbono”, afirmou. Ele defendeu o fortalecimento das comunidades locais como protagonistas da coleta e análise de dados ambientais.
Na sequência, Bruce Wei Tuoxin, da Star Vision, anunciou o lançamento da plataforma de monitoramento sustentável Mangroove 007, baseada em uma constelação de 258 satélites – incluindo 100 hiperespectrais – para atualizações ambientais quase em tempo real. “Queremos democratizar dados orbitais para apoiar governos e organizações na tomada de decisões socioambientais”, disse.
Finanças, deep tech e capacidade institucional: os novos pilares da inovação climática
O terceiro painel abordou o financiamento de tecnologias profundas e a construção de capacidades para resiliência ambiental.
Renato Ramalho, CEO da gestora de venture capital KPTL, destacou os entraves para investimentos privados em deep tech no Brasil. “Com juros reais de 10% a 15% ao ano, é difícil justificar risco de longo prazo”, afirmou. Mesmo assim, ele acredita que o setor seguirá trajetória semelhante à das agritechs: “A curva existe e precisamos ajudá-la a se materializar”.
Kirsten Dunlop, CEO da Climate-KIC, defendeu novos modelos de inovação e aprendizagem, menos dependentes da lógica tradicional do venture capital. “O desafio não é criar mais startups, mas criar condições para que campos inteiros de soluções possam nascer e se sustentar”, afirmou.
Jens Mackensen, diretor do banco alemão KfW, reforçou o papel dos bancos de desenvolvimento como articuladores entre prioridades governamentais, tecnologia e impacto local. “O diálogo com governos pode levar um ou dois anos, mas é isso que garante projetos sólidos e alinhados às necessidades regionais”, disse.
A coordenadora de monitoramento territorial da COIAB, Maypatxi Apurinã (Vanessa), enfatizou o protagonismo indígena no uso e desenvolvimento de tecnologias. Segundo ela, os povos da floresta já dominam drones, mapas digitais e aplicativos, e agora trabalham no primeiro aplicativo de monitoramento territorial criado por indígenas. “Sem território, não há povos indígenas. E sem povos indígenas, não há proteção”, afirmou.
Amazônia no centro de uma agenda global e contínua
Encerrando o evento, Nitin Arora, gerente de projetos do UN GIH, destacou a relevância estratégica de realizar o workshop na rota da COP30. “A natureza não é apenas algo a proteger, é também um espaço para inovar”, disse. Ele lembrou que o Hub apoiou a estruturação de 450 projetos de inovação nos últimos dois anos, em áreas como mobilidade, sistemas alimentares, economia circular e comunidades resilientes.
O evento foi organizado pelo UN GIH com apoio da FIEPA, Jornada COP+, SENAI, UFPA, PCT Guamá, Imazon, Prime Space-as-a-Service, Instituto Bem da Amazônia (IBA) e Temple Comunicação.
Imagens: Divulgação










