Surto da rara variante Bundibugyo se espalhou por semanas sem ser detectado no leste do Congo; hospitais enfrentam falta de recursos enquanto tentam conter a transmissão.
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Por Justin Kabumba, Ope Adetayo
O Dr. Richard Lokudu, diretor médico do Hospital Geral de Referência de Mongbwalu, recebeu pouca ou nenhuma compensação pelo trabalho que realiza na linha de frente de um dos surtos mais letais de ebola já registrados no Congo.
Lokudu e vários de seus colegas passam o dia inteiro no hospital atendendo um fluxo crescente de pacientes. As notificações de casos suspeitos chegam até mesmo tarde da noite.
“Não recebi minha ajuda de custo e o que aconteceu com outras pessoas também pode acontecer comigo”, disse Lokudu à Associated Press. “Apesar de todas as medidas de prevenção e controle de infecções que estamos implementando, não sabemos o que pode acontecer.”
As autoridades de saúde acreditam que o surto, que pegou a região leste do Congo de surpresa após se espalhar silenciosamente por semanas sem ser detectado, começou na movimentada área de mineração de Mongbwalu, na província de Ituri.
Mineração favorece a disseminação do vírus
Mongbwalu tornou-se o epicentro da rara variante Bundibugyo do ebola.
A cidade atrai grande número de trabalhadores que atuam em minas de ouro, cercadas por poças lamacentas, galerias estreitas e cavernas. Eles vivem em áreas de baixa renda, incluindo acampamentos superlotados, e têm pouco acesso a protocolos adequados de saúde.
Essas condições aumentam a possibilidade de transmissão da doença, que se espalha por meio do contato próximo com fluidos corporais de pessoas doentes ou falecidas, como suor, sangue, fezes e vômito.
Também há um ceticismo generalizado em relação à doença, o que dificulta ainda mais o trabalho de Lokudu e seus colegas. Alguns profissionais de saúde e equipes de resposta já morreram em decorrência da infecção.
“Uma coisa é estar longe e ouvir as estatísticas sendo divulgadas; outra é ver o que está acontecendo no terreno, que é enorme”, afirmou Lokudu. “As pessoas estão sacrificando seu descanso e conforto por essa causa. Deve haver reconhecimento de que elas merecem ser remuneradas. Esses trabalhadores deveriam receber seus salários regularmente.”
O governo congolês não respondeu a um pedido de comentário da AP.
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Richard Lokudu (ao centro), diretor médico do Hospital Geral de Mongbwalu, conversa com integrantes da missão de paz da ONU em Mongbwalu, no Congo, na sexta-feira, 5 de junho de 2026. — Foto: AP/Moses Sawasawa
Recursos mínimos disponíveis
As autoridades congolesas divulgaram novos números no domingo, informando que havia 488 casos confirmados e 86 mortes até sexta-feira (5). Na quinta-feira, o país registrou 71 novos casos em apenas um dia, o que, segundo as autoridades, é um sinal de “transmissão comunitária ativa”.
Na vizinha Uganda, foram confirmados 19 casos e duas mortes.
A variante Bundibugyo não possui vacinas nem tratamentos aprovados, por isso os profissionais de saúde têm se concentrado no tratamento dos sintomas. O governo informou que pelo menos cinco pessoas se recuperaram da doença desde que o surto foi oficialmente confirmado pelo Ministério da Saúde do Congo, em 15 de maio.
Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, a doença “teve uma grande vantagem inicial”. Os hospitais da região não conseguiam testar corretamente o tipo de ebola que já circulava havia várias semanas antes da confirmação oficial.
Os profissionais de saúde estão lidando com a doença com recursos mínimos, enquanto organizações humanitárias correm para levar ajuda à região. Máscaras, luvas, botas e medicamentos estiveram em falta nos primeiros momentos do surto.
“Houve uma deterioração do sistema de saúde”, afirmou Heather Kerr. “Não houve investimento suficiente no sistema de saúde, e isso acontece há anos.”
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Profissionais de saúde se preparam para iniciar o turno no centro de tratamento de Mongbwalu, no Congo, na sexta-feira, 5 de junho de 2026 — Foto: AP/Moses Sawasawa
Condições dos profissionais de saúde
“Durante a primeira semana, nem sequer tivemos tempo de voltar para casa para comer. Na segunda semana foi a mesma coisa. Comemos apenas uma vez por dia, o equivalente ao café da manhã, mas à noite”, contou Alice Bamuhinga, enfermeira do hospital de Mongbwalu.
Mesmo com o ceticismo generalizado e o descumprimento de protocolos sanitários, muitos moradores da cidade estão começando a perceber a gravidade da situação.
Asero Jeanne, de 52 anos, tinha cinco filhos. Dois deles morreram da doença em um intervalo de apenas duas semanas. Quando sua filha adoeceu, a família acreditou que fosse malária, e vizinhos recomendaram que evitassem o hospital, dizendo que “qualquer pessoa que fosse para lá morreria imediatamente”, relatou Jeanne.
A filha morreu após três semanas alternando entre hospitais e a própria casa. Dias depois, um filho também faleceu. Em seguida, Jeanne adoeceu.
“Vi cerca de 20 pessoas morrerem”, disse ela. “Vi todas sendo levadas ao necrotério, mas Deus está permitindo que eu saia daqui viva. Sou grata aos médicos.”
ONU apresenta plano de combate
Na sexta-feira, Tedros lançou um plano de US$ 518 milhões para combater o surto, afirmando que “conter o ebola depende de compromisso político, financiamento sustentável e da confiança e participação das comunidades”.
Os esforços para conter a doença também foram prejudicados pelo conflito entre o governo congolês e o grupo rebelde M23, apoiado por Ruanda, além de ataques promovidos por militantes islâmicos.
Para os profissionais que atuam na linha de frente do surto, o trabalho se tornou ainda mais difícil à medida que a doença se espalha mais rapidamente do que a capacidade atual de atendimento.
“Apesar dos alertas que recebemos e das equipes que temos disponíveis, não temos meios para nos deslocar até o campo”, afirmou Lokudu. “Como resultado, há alertas que não conseguimos investigar.”
Foto: AP/Moses Sawasawa









