quinta-feira, setembro 3, 2026
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Estudantes desenvolvem protótipo de miriti para prevenir escalpelamento nos rios do Pará

Iniciativa criada em Abaetetuba no Pará utiliza matéria-prima símbolo da cultura amazônica para desenvolver proteção para eixos de motores de pequenas embarcações

Estudantes de medicina em Abaetetuba estão usando miriti, matéria-prima dos tradicionais brinquedos amazônicos, para criar um protetor de eixo de motor que pode reduzir os casos de escalpelamento, acidentes que ainda atingem dezenas de crianças e mulheres nos rios do Pará.

O escalpelamento ocorre, principalmente, quando os cabelos entram em contato com partes móveis e desprotegidas do motor de pequenas embarcações. Com a rotação do equipamento, os fios podem ser puxados e enrolados rapidamente pelo mecanismo, provocando o arrancamento parcial ou total do couro cabeludo. A gravidade do acidente pode ainda resultar em lesões na face, no pescoço e nas orelhas, além de deixar sequelas físicas e emocionais nas vítimas.

O miriti que é leve e tradicionalmente utilizado na produção de brinquedos e artesanato amazônicos, está sendo estudado para a construção de um protótipo capaz de proteger o eixo e outras partes móveis dos motores dos barcos, criando uma barreira física para reduzir o risco de contato dos condutores e passageiros com o mecanismo em movimento.

O projeto foi idealizado pela estudante Luana Costa Dias, do 8º período de Medicina, e posteriormente incorporado como ação de extensão da Faculdade de Medicina da Afya Abaetetuba.

“A ideia surgiu a partir da observação de uma realidade muito presente nas comunidades ribeirinhas da Amazônia: a dependência das embarcações para o deslocamento, acesso à saúde, educação e trabalho e, ao mesmo tempo em que ainda existem acidentes graves de escalpelamento provocados pelo contato com a mecânica do transporte”, explica.

Mulheres, crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas. Levantamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), com base em registros do Pará até 2023, aponta que 67% das vítimas analisadas tinham entre 2 e 18 anos. Entre crianças e adolescentes, 76% estavam na faixa de 2 a 12 anos. Já os dados da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental também indicam forte predominância feminina entre as vítimas de escalpelamento na Amazônia.

O problema continua presente nos rios e igarapés paraenses. Em 2024, a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) registrou cinco casos, no arquipélago do Marajó. Em 2025, foram mais três ocorrências no Estado.

Para quem já sofreu um acidente desse tipo, iniciativas de prevenção representam a possibilidade de mudar uma realidade que ainda faz vítimas na região. A palestrante Deusiane Pantoja de Almeida, conhecida como Anny Famozinha, de 40 anos, sofreu escalpelamento em janeiro de 2001 e participou do desenvolvimento do projeto, contribuindo com a experiência de quem conhece as consequências do acidente

“Participar desse projeto foi muito importante e emocionante porque pude transformar uma experiência difícil da minha vida em uma contribuição para proteger outras pessoas. Para mim, essa iniciativa representa vidas sem acidentes, traumas e sequelas. É muito significativo ver o miriti, tão presente na nossa cultura, sendo estudado também como uma forma de prevenção ao escalpelamento”, ressalta Anny.

PENSADO A PARTIR DA REALIDADE AMAZÔNICA

A proposta dos estudantes é desenvolver uma cobertura para o eixo e as partes móveis do motor que impeça o contato direto de cabelos, roupas e objetos com o mecanismo em funcionamento. O desafio é chegar a uma solução que seja, ao mesmo tempo, leve, resistente, de baixo custo e adaptável às embarcações utilizadas na região.

“O miriti foi escolhido por ser abundante em Abaetetuba, além de fazer parte da identidade cultural e econômica do município. A matéria-prima é conhecida principalmente pela produção artesanal dos tradicionais brinquedos de miriti, que se tornaram um dos símbolos da cultura paraense”, destaca Luana.

O protótipo ainda está em desenvolvimento e precisa passar por etapas de validação. Entre os pontos que estão sendo estudados estão a resistência à umidade e a impactos, a durabilidade e a possibilidade de adaptação aos diferentes formatos e tamanhos de embarcações existentes na Amazônia.

Um dos principais desafios está justamente em transformar uma matéria-prima naturalmente leve e maleável em uma estrutura capaz de desempenhar uma função de segurança. Por isso, a equipe também pesquisa técnicas de reforço estrutural, impermeabilização e uso de estruturas internas de suporte.

“Não basta criar um protetor. Precisamos pensar em uma solução realmente compatível com a realidade dessas embarcações e que consiga suportar um ambiente úmido e de possíveis impactos”, ressalta a estudante da Afya Abaetetuba.

PROJETO CHEGA ÀS COMUNIDADES RIBEIRINHAS

O trabalho não ficou restrito ao desenvolvimento do projeto. Os estudantes também participaram de ações educativas nas ilhas de Abaetetuba, com palestras, rodas de conversa e orientações sobre comportamentos seguros durante a navegação.

“A estratégia considera que a prevenção ao escalpelamento depende tanto da proteção física dos motores quanto da educação em saúde e da conscientização das famílias que utilizam diariamente o modelo de transporte”, ressalta a acadêmica de medicina.

Para o doutor em oncologia e ciências médicas da Afya Abaetetuba, professor Wanderson Gonçalves, quem orienta o projeto, a iniciativa aproxima a formação dos futuros médicos de um problema de saúde diretamente relacionado à realidade da população amazônica. A partir da proposta da estudante, o tema ganhou dimensão de extensão universitária, envolvendo pesquisa, desenvolvimento e contato empírico com as comunidades locais.

Miriti abre caminho para outras pesquisas na saúde

A experiência com a matéria-prima regional estimulou ainda, outra frente de investigação entre os estudantes. Luan da Costa Frazão e Ioodney Rodrigues Cardoso, do 9º período, e Letícia Nascimento da Silva, do 8º período, pesquisam a possibilidade de utilizar o miriti na produção de imobilizadores para o atendimento inicial de pessoas com suspeita de fraturas, traumas e entorses.

A ideia surgiu da busca por uma solução acessível, sustentável e que utilizasse recursos disponíveis na própria região. “O miriti é um material muito presente na cultura e no cotidiano amazônico, e começamos a pensar em como poderíamos utilizar suas características para criar um dispositivo com uma finalidade prática”, explicam os estudantes.

A proposta é que o imobilizador possa restringir temporariamente os movimentos de uma região lesionada durante os primeiros atendimentos e o transporte do paciente. O dispositivo, no entanto, ainda está em fase experimental e não pretende substituir avaliação médica, exames de imagem ou equipamentos hospitalares.

Assim como no protetor de eixo, o principal desafio agora é avançar na validação científica. Resistência, segurança, conforto, higiene e funcionalidade precisam ser testados antes de qualquer possibilidade de utilização.

ETAPA DE TESTE NOS BARCOS

A equipe responsável pelo projeto contra escalpelamento trabalha agora para avançar do modelo em escala reduzida para um protótipo em tamanho real, que deverá ser submetido a testes de resistência, durabilidade e segurança.

Outra etapa será ouvir os próprios moradores das comunidades ribeirinhas para avaliar aspectos como instalação, utilização e adaptação do equipamento aos diferentes tipos de embarcações. A intenção é chegar a uma solução que possa ser reproduzida e aprimorada a partir da experiência de quem depende diariamente dos rios.

“Queremos construir uma tecnologia social amazônica, feita a partir da realidade local e que possa contribuir para garantir mais segurança, saúde e dignidade às pessoas que dependem dos rios para viver”, afirma Luana.

Ainda em fase de desenvolvimento e testes, o protótipo transforma um dos materiais mais simbólicos de Abaetetuba em objeto de pesquisa para enfrentar um problema histórico da região. Uma solução que nasce da própria Amazônia para tentar tornar mais seguros os caminhos percorridos diariamente por quem tem nos rios suas principais vias de acesso.

Fonte e imagens: Temple Comunicação

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