quinta-feira, abril 9, 2026
Desde 1876

LITERATURA – Seu Lúcio, o saudoso gato

Por Roberto Pimentel

No curso da vida familiar há numerosas atitudes dos filhos, mesmo ainda crianças, que tocam o coração dos pais. E comigo não foi diferente. Externo aqui uma dessas condutas ternas, comoventes.

Lá pela década de 80, quando meus filhos mais velhos ainda eram crianças eu trouxe pra casa um gato de rua, deixando-os encantados.

Minha filha começou a fazer carinhos, e levantando aquele felino passou a se expressar, usando a fala que se chama de antropomorfismo, principalmente para animais. E com o gato levantado acima de sua cabeça o sacudia e assim falando: “celosso, celosso, celosso …”.

Eu ri, interpretando logo o que ela queria dizer, chamando o bichinho de cheiroso, mesmo sem ser ou estar, mas como expressão carinhosa.

Aproveitei aquela expressão e adaptei-a para dar nome ao animal, dizendo que ele seria chamado de Seu Lúcio, uma variante minha de “celosso” (cheiroso). E ele ficou com esse nome.

Passou um tempo e Seu Lúcio começou a aprontar. Saia de casa indo para o quintal e sumia. E quando chegava eu me dava ao trabalho de banhá-lo.

Então eu falei que iria detoná-lo, ou seja, mandá-lo de volta para a rua, longe de casa, lá onde ele fora encontrado.

Minha filha Robina e meu filho Hermom não gostaram dessa decisão e ficaram com caras tristes.

E na manhã seguinte, quando eles entraram no carro, ainda na garagem, para irem à escola, sentados na poltrona de trás, enquanto minha então mulher, mãe deles, sentou na poltrona do carona, eu peguei aquele animal e, abrindo o porta-malas do carro sapequei-o lá.

Na realidade eu não queria me desfazer dele. Era apenas para ver a reação de meu casal de filhos, com 10 e 8 anos. Quando entrei no carro e sentei para dar partida, ocorreu algo inesperado – Seu Lúcio enfiou uma das patas no lugar onde ficava um dos alto-falantes no tampão do porta-malas do veículo.

A seguir meu filho, imitando o gesto de Elliot, o menino personagem do filme “ET – o extraterrestre”, levantou uma das mãos e, tocando com o dedo indicador na pata do felino que sobressaia da mala do velho “Corcel II”, com expressão triste, começou a cantarolar um trecho da melodia da canção “Flying Theme”, de trilha sonora do famoso filme de Steven Spielberg, lançado naquela década e que já havíamos visto várias vezes.

A mãe deles riu, colocando uma das mãos sobre a boca e eu, enternecido, também ri e me comovi com aquela atitude infantil.

Saí do carro, abri o porta-malas do veículo, peguei o gato e coloquei na garagem deixando meus filhos rindo felizes e agradecendo minha atitude.

Em seguida saímos e Seu Lúcio continuou em casa até sua partida final.

Sempre que vejo cenas do mencionado filme ou ouço a dita canção, eu lembro daquela tocante cena.

*Autor é advogado, delegado aposentado da Polícia Civil do Pará, especializado em Meio Ambiente e criador da Sala Verde da atual DEMAPA, ex-militar da Aeronáutica, radialista, poeta, escritor e escreve toda quinta-feira neste espaço de A PROVÍNCIA DO PARÁ

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